Estou a procura

Nem hoje, sete de setembro, quando deveria estar folgando. A essa hora madrugada aqui estou. Dia em que celebramos e deveríamos ter motivos de sobra para estarmos felizes por se tratar da data, uma das maiores que nós brasileiros devíamos guardar dentro do peito orgulho imenso. Ao mesmo tempo ficamos revoltados por motivos que assinalo agora.
Por que, lhes pergunto, se eu mesmo sei a resposta.
Nascemos num país maravilhoso. De belezas naturais que fazem corar de vermelho envergonhados outros por não terem tantas belezas como as temos.
Não só de praias de areias branquinhas. De costa a costa não cansamos de admirar montanhas tentando dizer que esse lindo mar é nosso.
De gente boa, operosa, séria e compromissada com trabalho honesto embora de poucos rendimentos. Ao revés de sanguessugas que engravatados em Brasília fingem que trabalham e comem fortunas sem nos prestar conta. Em contrapartida à fortuna declarada em seus contracheques. E, se de olhos abertos soubéssemos o que em verdade percebem e tentam esconder dentro de suas cuecas nem sempre limpas. Cheinhas de notas altas de dólares ou moedas de maior valor. Pena que colarinho branquinho engomadinho não para um dia sequer entre grades. No dia seguinte à prisão logo aparece um advogado de porta de cadeia com um habeas corpos de livramento. E de nada adiantam nossos lamentos. Já que aqui em se plantando tudo nasce e nem carece de chuva. Nem de adubo a espalhar nesse nosso solo fértil em corrupção.
Quem procura acaba encontrando…
Embora muitas podriqueiras políticas se escondam abaixo de tapetes caríssimos persas ou de mais valia.
Eu, mero médico, escritor, de olhos abertos ao entorno. Com minhas pernas andejas. Com minha visão acurada apesar de um doutor da visão. Ao qual visitei semana passada a fim de dar vida nova a minha vencida CNH. Esse bom doutor, a seguir a um exame de acurácia visual. Quando não consegui ler letrinhas miúdas num quadro defronte a mim. Aquele doutor, meu amigo, meu leitor. Vendo que minha vista não era das melhores nem piores. Deu-me mais três anos de revalidação na minha carteira de habilitação vencida há apenas dois anos.
Por vezes sinto que enxergar muito não é vantagem nenhuma.
Meu amigo, vizinho de roça, Claudio, desprovido de visão desde cedinho.
Anda pra todo lado. Dispensa cão guia. Não usa bengala para se guiar. Conhece os conhecidos pela voz. E sua voz no radio de Ijaci se ouve em programas dele próprio a contar lorotas como só ele sabe contar.
Pela vez primeira, espero ser a derradeira.
Ao ver a portinha da gaiola onde vivo. Como um passarinho feliz de ter a oportunidade de voar sozinho. Depois de quase uma vida inteira confinado. Não como um garrote a espera de quando gordo ir ao açougue. Sinto-me, não sei se preparado a alçar novos vôos.
Tão pouco tempo a porta da minha gaiola se abriu.
Olhei pra fora, tremulando nas minhas duas pernas. Seria a hora de voar sozinho? Depois de uma eternidade algemado a uma passarinha que tentava me impedir de avoar com minhas próprias asinhas?
Se ouvisse opinião de terceiros ficaria quietinho dentro da minha jaula trancado a chaves que não sabia como abrir aquele cadeado forte, pra mim indevassável.
Mas criei um restinho de coragem e saí da gaiola.
Mesmo desconhecendo o porvir do dia seguinte.
Nessa semana em curso me preparo para sair do ninho. Irei pousar e passar a morar em outro acredito a partir do final dessa semana.
Espero não ser um ninho igualzinho ao do João de Barro.
É verdade que, quando a Joaninha de Barro pisa no barro. Mete um par de chifres no cocuruto do chifrudo. Ele, sabedor da falta de decoro da sua esposinha alada. Fecha a portinha de sua casinha e dentro dela tranca a traíra?
Isso não sei, tenho raiva de quem sabe e nem quero saber.
Eu, pássaro pra mais que velho, já tendo trocado minhas penas e ninguém tem pena de mim.
Uma vez solto da minha gaiola prisão. Não penitenciária igual a que está por ser inaugurada ano que vem aqui na nossa amada Lavras.
Sem saber avoar como urubu. Que voa alto aproveitando as correntes de ar.
Não sei, como homem de mais idade. Embora não me sinta velho pois, nos meus setenta e seis sinto-me inda criança. Acredito que a verdadeira idade a temos na cabeça. Dentro da minha voltei aos dezesseis, menos ainda.
Digo as pretendentes a minhas companheiras e delas exijo e deixo escrito nessa crônica testamento.
Quem se atrever a voar comigo. Que seja a um céu de brigadeiro ou um cinzento.
Saiba de antemão.
Não sei cozinhar nem faxinar como minha adorável Ângela de Ijaci.
Nem quero mais aprender.
Alimento-me mais que deveria. Sou metódico tanto nos gastos quanto na minha conduta sempre igual a cada dia.
Durmo pouquinho. Não ronco nem solto flatus.
Estou me acostumando a dormir na minha própria, agradável, inteligente, de muita cultura, companhia.
Aprendo o que me interessa. Amo me exercitar, tanto no físico como na prática de idiomas muitos pra mim conhecidos e noutros desconhecidos como ucraniano que nem sei se vou aprender. Ele se torna importante devido ao romance que leva o nome desse lindo país que veste luto devido a essa guerra insana que teve começo e não sei quando vai ser o desfecho.
Estou a procura de uma urubua que me ensine a voar.
Ela não carece ter minha inteligência. Mas seja importante que seus dois neurônios não batam cabeça e pelo menos tentem viver dentro do seu cérebro pouco pensante em paz com eles mesmos e comigo.
Fundamental que essa avoante alada, não importa se ela for preta como urubu ou branquinha como essa ave ao nascer antes de mudar a cor das penas.
Procuro uma parceira de menos idade que eu ou na melhor idade que ela diz ter e não tem; pois esconde idade.
Que ela seja doce como mel ou azeda como um limão que uso pra fazer meu cozumel.
Que com ela reparta meus melhores momentos. Que seja aberta não somente as pernas como também me espere com a comida prontinha. Eu prometo fazer pão de alho no air fryer, temperar a carne do churrasco você mesma tempera. Compro as cervejas, você paga e não ponha na minha conta pois, meu último sobre é Abreu ( se eu não pagar muito menos eu).
Procuro, nessa minha busca quase missão impossível, uma mulher, não homem.
Nada contra os travecos muito pelo contrário.
Uma mulher não precisa ser prendada como foi a minha.
Basta que ela tenha a sensibilidade semelhante a minha. Que aprecie ler meus escritos. Que não me puxe minhas orelhas direito que só minha mãezinha tinha. Elazinha, não estando por aqui, a outra não lhe dou esse direito.
Estou procurando não a tampa certa da minha panela nem a da minha privada. E sim uma pessoa, não carece que seja purinha como água da mina limpinha. Mas uma que me entenda, não me ofenda quando chego do consultório de cabeça quente. Sempre pensante e em continuo movimento já que não tenho parança. Dentro da minha bipolaridade, em vôos altos ou baixos sempre me acho.
Minha busca começou em tempos recentes. Nem uma semana inteira ela teve começo.
Minha liberdade, não pensem ser libertinagem nem vadiagem de um senhor que ora se mostra circunspecto, introspectivo e muito ainda ativo.
Estou a procura de uma parceira, companheira, amiga. Que seja, nesse quase final de vida, enquanto sentir esse hálito puro das madrugadas. Ao ver pela janela portinha aberta da minha gaiola essa chuvica mansa que cai.
Se não der certo minha procura. Não encontrar a pessoa certa, a que mais se adeque a mim.
Terei de aprender a conviver comigo mesmo.
Seremos apenas eu e mais eu e mais ninguém…

Deixe uma resposta