Zé Garapinha e a copa do mundo

Naquela madrugada gelada de junho, quase em sua metade, o pequeno José, conhecido por Zé Garapinha dado ao seu costume de plantar cana e tomar caninha não apenas uma canequinha miudinha como entornar um copão inteiro daquela água que passarinho não molha o bico.
Zé quase não teve coragem de deixar sua cama quentinha enrolado nos seus grossos cobertores e por cima deles sua gata de estimação. Não dessas gatas mal faladas e bem amadas com as quais a gente tenta dormir agarradinho e acorda peladinho depois de sonhar gostoso que aquela dama era uma linda balzaquiana cheia da grana; mas em verdade era uma pobretona que não tinha um tostão furado nem inteiro na sua vazia conta bancária e nada mais era senão um sonho que terminou em pesadelo.
Mesmo assim e não assado Zé acordou meio ranheta e saltou da cama com a bexiga cheinha de xixi, assentou-se ao trono mesmo não sendo rei nem tendo, entendam vocês, uma bela princesa que se tornaria rainha não fosse pela ciumeira das tantas plebéias que diziam aos plebeus que Zé não tinha nada de sangue azul e sim uma coisa cor de burro fugido que escorria em suas veinhas e arteriazinhas.
Naquele mês de junho quase mostrando sua cara metade, já que Zé não tinha nenhuma cara inteira a zoar dele, vivia somente na própria má companhia, depois de cortar cana e levar a moenda para fazer garapa. Era essa a única fonte de renda do pobretão Zé Garapinha.
No jornal estrangeiro ( melhor seria Jornal Nacional), onde assistia as notícias desse mundão lindo em que pretendia viver alguns aninhos mais. Não se noticiava outra coisa senão a tal copa do mundo de futebol. Certame esse a ser disputado em três países limítrofes: México, Estados Unidos da América e Canadá. Esse ultimo então da predileção de Zé Garapinha que, mesmo não tendo ido por lá, pelo nome Cana da, imaginava ali fazer uma linda plantação de cana de uma espécie que em se plantando tudo aqui no Brasil da, inclusive corrupção das gordas.
Depois de encher a carroça de cana picada fininha como a sua vozinha. De ir à cidade de carona no caminhão leiteiro em meio aqueles latões sacolejantes cheinhos de leite que de vez em sempre derramavam na carroceria sujando-lhe a única roupa que vestia. Levando no seu embornal gigante a sua moenda tocada a feijão dos seus braços fortes. Ao estacionar seu corpinho na mesma pracinha de sempre. Ao lado de uma quitandeira que vendia, depois de fazer pastéis de queijo frios como o dia que amanhecia. De faturar alguns tostões na venda de copos descartáveis de garapa aos consumidores de pinga das boas.
Um deles, que porventura de uma desventura fui eu, que zanzava por ali sem nada o que fazer ou melhor, tentando vender alguns livros que trazia na minha bolsa manjada. No meio deles um de nome O Canto das Cigarras e Rakel. Depois de tomar um belo copo de garapa, ou caldo de cana se preferires chamar assim. Veio-me uma idéia, das mais brilhosas que tive naquele domingo que se despediu ontem e a reparti com Zé Garapinha.
“Por que você, nesses dias frios de junho, ao revés de fazer garapa não fabrica cachaça? Tem gente que gosta e entorna o bico. Faz, na sua rocinha não caldo de cana. Fabrica canjibrina, pinga ruim e vende aqui”.
Zé acabou aceitando meu palpite e montou um pequeno alambique na cozinha da sua própria morada.
Daí enricou como um nababo milionário.
Não sobrava pinga pras encomendas. Se fazia mil litros os pinguços queriam mais do dobro.
A fama de sua pinga atravessou fronteiras chegando aos States, México e onde da cana, qual seja aquele lindo país de nome Canadá.
De novo dei com o Zé na mesma pracinha de sempre.
Na sua lojinha faziam filas para tomar cachaça de sua produção.
Mais uma idéia de jerico assoprei nos ouvidos ouvidores do Zé: “ por que você não vai pra América redescobri-la já que ela já foi descoberta por Cristovão Colombo anos antes. Naquelas bandas acontece, de aqui há uma semana, mais uma copa do mundo de futebol. Lá vai correr grana em dólar. Faz uma viagem, que você nunca fez aos States, da uma passadinha no México, estica inté aquele país onde da cana, o Canadá. Quem sabe naquela disputada disputa onde jogadores endinheirados jogam nessa copa que deveria ser na cozinha onde faz comida já que sempre estou com fome você, meu amigo Zé, vendendo sua pinga vai encher seus cofrinhos mais e mais ainda.
Zé não somente me agradeceu pela idéia como me convidou a ir junto pelo seguinte motivo dizendo pra mim em voz baixinha pra ninguém escutar: “vosmecê sabe falar inglês, francês, italiano, espanhol e cutuca um cadiquinho em alemão. Assim, juntos não iremos fazer feio num é”?
E num é que viajamos, de terceira classe num avião que foi da Varig meio avariado, mas apeou no estrangeiro em plena copa do mundo, não na cozinha onde gostaria.
Em lá chegando, primeiro nos States, Zé Garapinha montou sua barraquinha onde vendia sua pinga não dispensando minha ajuda, como intérprete da língua inglesa.
Era dia de jogo da seleção brasileira contra a tal onde tem areia e camêlo pra chuchu.
Zé encheu não apenas meu saco, como seu cofrinho estalando de novinho de moedinhas de dólares até a boca.
Era tanto dólar que nem consegui contar.
Felizmente nossa seleção canarinha ganhou de lavada por um placar de goleada – cinco a um.
Fomos a seguir pro México, ganhamos de novo por uma placar mais magrinho de um a zero. Não me lembro de quem foi.
Já mais ao norte, naquele país onde se plantando cana a gente não vai em cana, o Canadá. Como havíamos perdido nossos passaportes, sem sorte nos acharam, fomos presos e deportados desesperados pra voltar ao Brasil.
Aqui chegamos sãos e salvos, com nossos dólares confiscados. Com uma vontade imensa de tomar uns goles da cachaça do Zé Garapinha. Felizes da vida por estarmos aqui depois dessa copa do mundo que nem sei quem vai ganhar.

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