“Que pergunta mais estapafúrdia menino. Onde já se viu idade ter onde morar? Nossa idade aumenta com o passar dos anos. A cada ano ficamos mais velhos até morrer. Trata mais de estudar Joãozinho senão vai se tornar, com o passarinhar dos anos, um médico meio tantã como nosso padrinho o doutor Paulo Rodarte. Que pensa ser escritor, escreve tantos livros que não são vendidos e ficam encalhados na estante na sua oficina de trabalho onde ele chega bem cedinho, em plena madrugada, como um vaga lume com as pilhas quase descarregadas, iluminando as madrugadas escuras com sua inteligência que beira à insanidade. Joãozinho, meu filhinho amado. Se a cada ano que passasse a gente mudasse de casa não teríamos como pagar o aluguel dado ao preço que nos vai ser cobrado pela imobiliária. A nossa idade varia com o tempo. Uns se tornam velhos aos vinte anos. Os mais espertinhos se sentem idosos e não mais vaidosos aos menos de trinta. E aqueles mais felizes, como o doutor urologista escritor doutor Paulo Rodarte, que deixou dito e bem escrito: “graças as pernas que tenho em baixo do meu corpinho de baixa estatura passei a estar na melhor fase da minha vida”.
Joãozinho, satisfeito com as palavras sábias de sua mãe, foi pra escola andando sempre como sempre faço eu que escrevo mais uma crônica das milhares que já deixei escritas.
Puríssima verdade não pura balela.
Nossa idade não tem morada certa.
Pra uns ela se esconde e não se deixa ver antes de certa idade.
Gente que se exercita, que lê bons livros, que tem uma mente receptiva a aprender sempre independente da idade, conserva a mocidade até ser consumido pela terra onde vai ser sepultado, ou incinerado num forno crematório, se isso for manifesto como seu desejo em vida útil.
Há pessoas que envelhecem tardiamente em consequência de uma existência feliz ao lado de sua família unida que não lhe da muito trabalho. Já outros ficam velhos aos vinte, trinta, antes de assoprarem velinhas aos quarenta. E, de tantas preocupações morrem antes dos cinquenta.
Eu, embora me preocupe muito com as contas que me atazanam, aos setenta e seis, mais seis meses chego aos sete, já escolhi a data do meu passamento a outra vida, se é que ela existe. Quero morrer aos trinta e um de fevereiro, em plena saúde, numa madrugada fria como a que amanheceu no dia de hoje três de junho.
No entanto dos entre tantos dias Joãozinho, apesar de satisfeito, em parte com a resposta de sua mãe. Sobre qual o endereço exato da idade. Onde elas moram, se debaixo de uma ponte ou dormiam ao relento. Voltou à carga pesada e continuou a perguntação: “mãezinha querida. Desculpa se a estou importunando. Meu amado avozinho. Seu paizinho de mesmo nome meu, de quem herdei meus sobres, Rodarte de Abreu, na escola bulem comigo a hora de pagar a conta na cantina eles dizem que se eu não pagar nem eu. E eles não pagam e a conta fica no fiado. Seu amado paizinho meu avô seu Amado. Que já completou um bom bocado de anos penso ter chegado aos quase cem. Ele anda ereto sem bengalas a segurar. Come tudo que dizem fazer mal. Não baba nem gagueja. Não mija na cueca. Passa a mão boba nos traseiros das gostosas moças que saem das academias vestindo sumariamente aquelas roupinhas indecentes de fazer sacristão se benzer, persignar-se à cruz e rezar dez Padres Nossos e centenas de Ave Marias. Meu avozinho seu Amado pai, quando a ele pergunto qual idade ele tem. Ele coça a cabeça nunca despenteada dos seus cabelos fartos e negros sem tintura, e me responde sempre alegre e gentil: “olha meu querido netinho. Já cheguei ao centenário, falta só um aninho pra chegar aos cem. Mas ainda me sinto um menininho, jogando peladas não estando pelado e sim com meu calção velho e surrado. Usando minha velha camiseta com as cores verde amarelas da nossa seleção. Aos quase cem me sinto como se tivesse menos sessenta. Quarenta anos não, menos de dez quase recém nascido naquela maternidade quando vim ao mundo chorando ao ver os olhos de minha mãe. Quer saber onde mora a idade que a gente tem? Ela sim tem esse endereço do qual desconheço o CEP. A nossa idade reside na rua de nome Cabeça Cheinha de Coisas Boas. Onde serão convidados a entrar pessoas não negativas e de prosas ruins. Gente humilde será bem vinda e os metidos a granfinos serão impedidos de ali por os pés. Resumindo meu netinho bonzinho e estudioso. A idade mora na cabeça da gente e não tem intenção de se mudar”…