Quem ainda, num dia que amanheceu ensolarado, umazinhas nuvenzinhas apenas a empanar o brilho do sol, olhou pro alto e viu no céu algumas parcas nuvens branquinhas, admirando a beleza que seus olhos viam, tentou levantar suas mãos na intenção de tocar as nuvens, que pra mim tinham, quando euzinho menino, a aparência de algodão doce que aquele palhaço num circo de lonas rotas e animais desdentados quase aposentados trazia nas suas mãos enluvadas em luvas remendadas e não mais brancas descoloridas pelos anos que se foram desde que aquele velho palhaço era um reles aprendiz de palhacinho.
Já passei por cima das nuvens num vôo indo a vários lugares entre eles os Emirados Árabes Unidos que reunidos agora se tornaram alvos fáceis dessa nova guerra entre os Estados Unidos da América e o infeliz Irã que teima em dizer ter forças iguais a terra do Tio Sam.
E também sobrevoei as nuvens pedindo ao Papai do Céu que elazinhas despejassem água em forma de chuva mansinha por sobre aquelas rocinhas miudinhas que tanto carecem de chuva à época do plantio.
Fui às nuvens de outro jeito meio sem jeito quando eu menino, assentado do mesmo lado de uma linda e não mais pura menininha, e quando me curvava na intenção não pecaminosa de apanhar uma borracha que não era dela e nem sabia de quem era. De cabeça baixa e olhos atentos olhava de baixo pra cima e via que elazinha não usava a calcinha branca da corzinha de nuvens da mesma cor. E sem querer querendo muito, ao chegar a minha casa me trancava no banheiro, fingindo ler aquela revista proibida a menores, não sei se ainda nas bancas de jornais vendem a tal Playboy. E ia de novo às nuvens com minha cabecinha recheada de besteirinhas a imaginar eu e elazinha sozinhos num quartinho escuro, e fazer de conta que éramos namoradinhos, ou melhor, um casal em lua de mel.
Ir passear acima das nuvens quer dizer, pra mim tem outros significados.
Qual seja sentir-me o mais feliz dos mortais quase chegando a imortalidade.
Atingir o ápice, o píncaro do cume da glória.
Instantes mágicos pelos quais a gente passa. Momentos em que nos sentimos agraciados por uma graça divina. E não cairmos em desgraça desgraciosamente.
Já me senti nas nuvens clarinhas quando eu, menino, moleque brincando de bete e trocar figurinhas com meus coleguinhas da Costa Pereira, ou quando voltava da escola trazendo no boletim só notas ótimas e mostrava ao meu pai e ele, orgulhoso do seu filho primeiro, me dizia ao pé do ouvido: “Paulinho, continua assim, bom aluno, tirando notas altas na escola. E você um dia vai ser alguém na vida. E como eu te amo meu filho querido”.
Ia e voltava às nuvens de outra feita quando, já mais crescidinho, enfim chegavam as férias de final de ano. E vislumbrava com minha imaginação espichadinha, que iria passar dezembro inteirinho, janeiro nem começou ainda, e alguns dias de fevereiro, na rocinha das minhas tias avozinhas no município de Perdões, terra amada de minha mãezinha.
Quantas incontáveis vezes ia e aterrissava de volta à terra sem sequer me esborrachar no chão e sem usar pára-quedas.
Ontem, dia quase deixando a noite dormir, deixei meu apartamento aqui pertinho na intenção de tentar vender mais um livro na clínica de colegas numa rua próxima a minha.
Depois de banho tomado, a mesma roupa de ontem cedo a encobrir minha nudez.
Descendo um morro meio topetudo até chegar a um cruzamento movimentado onde carros passam ameaçando engolir os passantes.
Esperando a minha vez de cruzar a rua deparei-me com uma linda mocinha descendo a rua não sei pra onde ela iria.
Notei que elazinha usava um foninho de ouvido.
Paramos os dois naquela encruzilhada movimentada.
Puxei prosa com aquela não mais menina.
“Pra onde a senhorita vai? Você sempre passa por aqui? Vai descer essa rua até onde?”
E como ela era bonita e graciosa. Moreninha de uma morenice de botar inveja e ciúme num jambo macho e maduro. Cabelos de uma negritude de fazer um balde de piche ficar vermelho de emoção. Pele morena acostumada a tomar sol na medida certa e um corpinho saradinho de dar inveja as moçoilas lindas que malham dias inteiros em academias.
E aquela mocinha me respondeu educadamente: “sim senhor, estou indo pro meu curso de inglês logo aqui abaixo, tenho apenas dezesseis aninhos, sou dessa cidade mesmo. E o senhor, quem é”?
Tirei do bolso da calça meu celular e me apresentei através da minha página na internet- www.paulorodarte.com.
Proseamos em inglês e ela se mostrou um tanto iniciante nesse idioma e em outros do meu domínio.
A hora escorria lenta e eu tinha de ir adiante na intenção de vender mais livros.
Despedimo-nos como velhos, velho eu e ela bem novinha, e ela me disse educadamente: “ que o senhor possa vender muitos livros” E elazinha assim terminou sua fala de despedida.
“O senhor é uma pessoa bem legal”.
Fui e voltei das nuvens mais uma vez e aterrissei no chão duro do passeio.