Nem sempre o querer serve de primeiro degrau na subida árdua ao poder.
A gente pode desejar muitas coisas.
Alcançar a fama e a riqueza. Morar num castelo de rara beleza. Ter tudo de melhor nessa vida mas, ao passarmos a outra tudo fica por aqui e não vai ser enterrado na mesma cova nossa.
Querer a bela mulher alheia não sei se vale o risco calculado. Pode ser que o marido não seja ciumento e permita que sua mulher seja dividida em duas partes que não se equivalham. A melhor fica com ele. E aquela que só deseja, e não permite que seja amada pelo segundo, dorme emburrada num canto da cama para não ser incomodada.
A gente nasce, espicha um cadiquinho, menos de metro e mucado, deixamos pra trás a juventude dita transviada, a fase adulta é a que mais trabalhamos, vem a velhice carecendo de nos abengalarmos, tornamo-nos decrépitos, um sapato velho a ser jogado fora, e aí, nessa prorrogação depois do jogo da vida se ouve o apito estridente entre dentes do juiz. Acabou-se o que era doce docinho como jabuticaba madurinha. E nossos quereres são perdidos no esquecimento do olvido.
Julinho, menininho bonzinho, sem quase nenhum defeitinho fora aquele que lhe puseram nos costados. E ele dizia, injuriado: “não me joguem na cacunda culpas maiores que não são minhas”.
Elezinho cresceu assaz judiado.
Primeiro não conheceu o pai.
A mãe, que Deus a tenha, mulher de vida fácil embora não considere puta pessoa que se da ao luxo de facilitar as coisas quando tem entre as pernas aquele que não ama e não se permite ter orgasmos de verdade.
Julinho, aos cinco aninhos se viu na rua da amargura, morando aqui e acolá, sem teto onde ficar. Faminto a mendigar as sobras que lhe davam a porta de restaurantes granfinos de onde era escorraçado como um cão sarnento e pulguento.
Aos sete, dormindo ao relento sem nenhum alento desalentado, desprotegido inclusive dos mal elementos verdadeiros bandidos banidos da sociedade, párias sociais que não se regeneram jamais.
O não mais garotinho Julinho se tornou aviãozinho a serviço de traficantes. Já com várias passagens pelas delegacias do bairro, com uma folha corrida mais suja que poleiro de galinhas desgostosas por terem comido ração mofada e estragada e daí tiveram uma caganeira danada tentando empoleirar-se naquele poleiro do galinheiro telado e furado por onde entrava, na calada das noites, um gambá faminto e espertinho.
Aos doze Julinho já havia se tornado um contraventor conhecido nas bandas bandidas daquele morro onde traficantes se sentiam os donos do pedaço.
Aos quinze já havia deixado marcas muitas delas no cabo do seu treisoitão. Com mais de vinte mortes anunciadas nos jornais da cidade.
Foi num presídio lotado de presos irrecuperáveis que o encontrei.
Julinho, já maior de idade, condenado há trintanos de cadeia.
Eu como escritor médico a retratar como cronista a vida dentro de uma cela.
Naqueles tempos idos, quando terminava meu Mundo das Sombras, fechando o derradeiro capítulo.
Ao entrevistar um dos presos naquela cela lotada.
No meio daquela gentalha vi um deles de cócoras assentado a um canto.
Era o não mais garoto Julinho.
Naquela noite ele me disse, com olheiras profundas e marcas vermelhas nas costas: “doutor, como apanhei no lombo da borduna do guarda. Ele não teve motivos nenhum pra me tratar desse jeito. Só por que eu lhe pedi, de joelhos, que ele me desse alguma coisa pra comer pois passava fome. E ele me respondeu me dando com o cassetete nas costas e como ainda dói. Estou aqui dentro há dois meses sem receber visita de ninguém. Também, penso não ter ninguém a se lembrar de mim. Fui preso no artigo do código penal 33. Como não tenho colarinho branco e engomado penso não sair de aqui antes de trinta ou mais anos”.
E ele terminou seus dizeres assim.
“Não era bem isso que eu queria pra mim. ”
E nem pra ninguém, pensei eu cá comigo…