Naquela madrugada de frio intenso deparei-me com meu amigo Tom Zé esbravejando com ele mesmo.
Recém acordado, depois de seguidas noites insones, ao chegar à porta de sua casa, um casarão velho e carcomido pela saudade de todos seus entes queridos que ali viveram.
O não tão velho como eu, Tom contava com apenas cinquenta exatos, feitos naquele junho fatiado ao meio.
Quando ali cheguei o frio era tão forte que fazia as poucas vacas de suas posses se recolherem focinho a outro entre suas iguais.
A pastaria se mostrava branquinha como se ali houvesse caído uma nevasca incomum em nosso belo estado de nome Minas Gerais.
Não tinha como marcar a temperatura naquele lugar ermo perdido entre uma estrada que não levava a lugar nenhum a nenhum outro. Era um fim de mundo não tanto imundo como se vê em becos sujos das grandes cidades onde drogados e traficantes se encontram em direção a morte.
Mas pra ele, meu amigo ali nascido e bem crescido entre ordenhar a vacada e roçar a pastaria antes que ela se transforme num sarandi indevassável.
Tom não foi acostumado a acordar cedinho para folgar o resto do dia. Era um trabalhador contumaz e consumido por horas inteiras ali na rocinha que foi do seu pai herança do seu avozinho já falecido anos atrás.
Mãos caludas de palmas grossas, cabelos embranqueceram prematuramente, rosto sulcado por ranhuras como as que o arado faz na terra nua a ser semeada. Pessoa boa sem quase nenhum defeito fora aqueles que o fizeram separar-se de sua amada esposa, mãe de suas duas lindas filhas a quem ama mais que a si próprio.
Nos dias de agora Tom vive na própria companhia.
Aprendeu a suportar a solidão e diz a quem deseja ouvir que a idolatra como amava a sua esposa de nome Ana. No seu quartinho de pouco espaço, onde mora uma pequena cama, de uns parcos menos de cinco metros quadrados, na parede do lado se vê uma televisão que quase não é ligada. E ele costuma dizer aos minguados visitantes que quase nunca aparecem: “essa velha televisão pra mim é a melhor do mundo. Ela quase não funciona, fica o tempo todo desligada. Um dia, quando tentei fazê-la funcionar ouvi um estalido e um fogaréu saindo de trás dela. Penso que ela está definitivamente estragada e queimou uma válvula, pois ela ainda é valvulada. Fiz dela um grande aquário onde hoje peixinhos coloridos nadam e são pra mim a melhor companhia que já tive nos meus cinquenta anos. Eles não discutem comigo. Satisfazem-se com uma pitadinha de ração que lhes dou quando deixo minha velha morada. São infinitamente melhores que aquela mulher que me deixou quando mais precisava dela”.
O dia dos namorados em nosso país é celebrado no próximo doze de junho, sexta feira, sendo conhecido por anteceder o dia de Santo Antônio, tido como o santo casamenteiro.
Meu dileto amigo Tom nem se lembrava dessa data pra muitos enamorados especial.
De tanto tempo que vive solitário naquela casa mais velha que sua finada avó.
Tendo por companhia seus amados peixinhos e seus três cães fiéis companheiros citados Jack, Toddy e a naniquinha Miúda. A eles se afeiçoou e não quer melhores companhias.
Ele não se esquece da última namorida que por sua cama passou.
Durou pouquinho, um tempinho nanico, essa tumultuada relação.
Dorotéia foi a sua derradeira e não a primeira.
Ela entrou mansinha pela porta principal e saiu esquentada quebrando tudo que encontrava por detrás.
Celeste parecia ser um anjo celestial no começo. Um mês apenas durou aquilo que começou até certo ponto bem. Depois de exatos trinta dias ela virou um diabo raivoso que estragou a comida boa que meu amigo Tom fazia com capricho no seu fogãozinho a lenha.
Heneida era bela como uma sereia de mentira que ao tirar sua fantasia mais se parecia a uma baleia obesa. Mais uma vez essa relação durou menos que a florada dos ipês.
Tom estava na quinta tentativa de se unir a outra mulher. Como de costume, assim que ela tirava seu costume e ficava nua a exibir sua nudez. As pelancas desabavam e as celulites se mostravam despudoradas. Aí o não tanto idoso e não vaidoso amigo Tom bem que tentava e na hora broxava sem durar muito a tentativa malograda de ir ao final.
Foi no passado pretérito final de semana que nos vimos.
Tom esbravejava com ele mesmo: “não era bem isso que eu queria”!
“O que você queria meu amigo Tom? Por que essa braveza toda? Esta doendo alguma coisa dentro de você”?
Tom, um cadinho mais calminho, dando de desentendido a me ver do lado, assim se expressou: “num é nada não. É que a tal fulana, amiga da cicrana, quando se despediu de mim, indo embora para sempre, como doeu meu coração. E logo na próxima sexta feira é o dia dos namorados, e não sei a quem mais vou namorar. Já desisti de amar uma mulher, quem sabe com um homem macho do meu lado vai dar certo”?
Num sei não. Pago pra ver ele se apaixonando pelo Pedro, um macho valente que requebra indo até o chão…