Uma chuva diferente

Como essas gotinhas de água limpinhas fazem falta na vida da gente.
São verdadeiras dádivas dos céus.
Cinco letrinhas juntinhas somente.
Que quando escasseiam ai do bom povo da roça.
Se eles têm cabelos e a chuva não desce. Uma calva brilhosa como a minha aparece.
Chuva faz verdejar a pastaria. Faz renascer as minas dantes adormecidas.
Dá de comer a vacada de costelas a mostra. Enche o bucho delas de capim verdinho.
Não deixa faltar leite aos bezerrinhos que famintos mugem de saudade de suas mãezinhas vacas. Que, apartadas delezinhos olham pra trás quando na volta aos pastos. De onde vieram e o dono delas as faz voltar.
Eu lhe peço, de joelhos se preciso for: “quando a senhora cair venha de mansinho. Caia devagarinho. Acarinha a terra com suas gotinhas miudinhas. Não seja tempestuosa e sim carinhosa. Se for de pedras seja de pedrinhas miudinhas. Não do tamanhão de um ovo de avestruz, por favor, minha senhora”.
Naquele dia de finados Zezinho acordou infeliz dentro de sua pouca felicidade.
Todo dia dois de novembro elezinho sentia no seu peitinho uma dor sem explicação.
Talvez seja essa a causa da sua tristeza matinal e diuturna. Que durava e a ele martirizava semanas a fio.
Ele, aos cinco aninhos foi ao sepultamento de seus amados pais.
Primeiro foi enterrada sua mãe dona Lúcia. Inda muito lúcida foi vítima de pertinaz enfermidade. Um tumor na mama em pouco tempo mostrou sua natureza pérfida e a sua dona levou a um estado de caquexia extrema. Daí ao óbito foi um pulo de canguru saltador.
Zezinho mesmo, valente menino, corajoso de não contar vantagens aos coleguinhas da escola. Pois de fato era.
Vendo o sofrer do pai. A agonia que o fazia chorar à morte da querida amada esposa. Embora não preparado inda criança pra ser cuidador de idosos. Mudava o decúbito do amado pai pra que escaras não brotassem de sua pele fina. Alimentava-o pela sonda que ia da sua boca ao estômago. Dava banho de bacia naquele corpo descarnado e fétido até, ao seu lado fechar-lhe os olhos fazendo-se de padre ao dar a ele a extrema unção.
Nesse derradeiro finados foi pra ele o dia mais triste de sua curta vidinha.
Façam ideia da tristeza de um pequeno filhote ter de velar sozinho o corpo de pai e mãe.
Naquele pequeno cômodo, sem se incomodar com as baratas que por sua perna andavam. Com aquele cãozinho sarnento que não se cansava de coçar suas orelhinhas. Uma desvestida de pelos e a outra em falta com ela mesma.
Zezinho levou o ataúde do pai à sepultura.
“Deixem-me levar meu pai à última morada. Ele e minha amada mãe estarão juntos lá embaixo. Espero fazer companhia a eles em breve.”
Ele deixou o campo santo sozinho.
Aquele vasinho que ele mesmo plantou, cuidou, deu lindas flores multicores. Eram calanchóis amarelinhos misturados a florzinhas vermelhas.
Depositado sobre o tampo de mármore cinza da pequena sepultura que ele mesmo fez pros seus pais.
Inda bem que o dia de ontem deu lugar a essa terça feira linda de novembro.
Se eu pudesse escolher um dia pra morrer não seria nunca um como esse.
Seria uma sexta feira não santa. Dia cinzento, de mau agouro, treze.
Melhor ainda se num trinta e um de fevereiro de um ano desconhecido.
Melhor pra mim, espero idem pra vocês.
Ao deixar o cemitério, à saída do portão.
Pessoas boas se ajuntavam tentando consolar esse bom, choroso, menino.
De repente despencou do alto uma chuvica mansinha.
Quase uma garoinha dessas chuvinhas de molhar bobos que esqueceram guarda chuva em casa.
Zezinho pranteava.
Um reguinho de lágrimas de repente nasceu e escorreu pelo canto dos seus olhos.
A carinha de Zezinho, dantes branquinha, metamorfoseou-se num laguinho rasinho onde se podia ver peixinhos nadando em forma de gotinhas salinas chamadas lágrimas.
Era uma chuva diferente das usuais.
Não tempestuosa, nem forte nem fraca ao exagero.
Nem uma chuva que deixou a desenhar um arco íris onde se poderia encontrar um pote douro ao seu final.
Uma senhora bondosa, que acompanhava o sofrer do menino.
Ao seu lado sempre. Presente ao infortúnio delezinho desde a doença dos seus pais.
Com sua voz suave, doce como mel docinho recém tirado de uma colméia.
Conhecedora da bondade de Zezinho. Era tia dele, de nome Maroca.
Condoída da aflição do menino.
Da agonia que o fazia chorar sem conter as lágrimas.
Já que chovia manso naquele instante.
Ela, coberta com um grande guarda chuva que mais parecia uma sombrinha de praia.
Dona Maroca a ele ofereceu o abrigo do seu guarda chuva para que ele não se molhasse.
Zezinho agradeceu a gentil oferta.
Assim dizendo com seus olhinhos claros rasinhos d’água.
“Obrigado tia querida. Essa chuva não molha. É uma chuva de saudades”.

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