Antes que ele morra…

Em dois dias celebra-se o dia dos mortos.
Amanhã, domingo, chegamos a mais uma segunda.
Se fosse possível contar quantas segundas já passaram em minha vida.
Quantos finados visitei o campo santo.
Nenhum santo milagreiro daria conta de contar.
Não mais conto anos. Perdi a conta de quantas velinhas assoprei.
Lembro-me sim daquele bolo de aniversário. Todo decorado lembrando um curralzinho. Cercadinho de réguas de madeira dura como minha cabeça.
Era meu cumpleanos de três aninhos. A festinha não foi naquela casa da Costa Pereira onde passei a morar dois anos depois.
Sim numa casa assobrada. Numa rua bem no centro de Boa Esperança. Onde moravam meus pais. Era uma casa de grades baixas, roseiras no jardim. A mesma onde estive anos depois. Já idoso, não velho decrépito como muitos da minha idade. Infelizmente na dura e cruel realidade se encontram.
Aos cinco anos daquela cidade me mudei. Não foi por minha vontade. Quem seria eu?
Meninozinho de cabelos tintos em doirado. Pele clarinha como clara de ovo. De uma alturinha nanica tal e qual um galinho garnizezinho de menos de uns centímetros.
Pra decidir pra qual cidade iríamos mudar. Se mal sabia ler ou escrever como agora exagero na escrita.
Não sei se em qual idade foi.
Se aos cinco, mais um ou menos dois.
Parece que estava doentinho. Febril, com dor de garganta ou nos ouvidos.
Minha mãe logo fez uso do telefone fixo. Daqueles bem antigos que não conseguiam fazer ligações sem estar grudados a uma tomada.
Se não me rateia a memória. Não sei ao certo quem estava no meu quartinho dos fundos daquela casa de tantas saudades que hoje me faz lembrar de um passado remoto.
Seria minha pajem Tenta? A zelosa Hortênsia, nome de flor. Ela era uma flor pretinha como jabuticaba madurinha. Que flor seria essa?
O fato onde gostaria de chegar enfim aterrissou.
Não sei se naquele dia, ou seria durante uma noite fria ou quente.
Minha mãezinha dona Rute ao telefone chamou um farmacêutico de antão.
Não sei se sua botica era do mesmo nome de hoje- Farmácia Aparecida. E nem a razão desse nome.
Era um farmacêutico bonzinho. Baixotinho, bem humorado, caridoso de montão.
Fazendo as contas, eu com setenta e seis. Ele hoje com mais quatro dos noventa.
Esse notável lidador com remédios. Mestre em dar injeções, seja no braço ou no bumbum.
Aos dezoito já estava na tal farmácia. Creio pioneira em nossa cidade.
Foi ele quem me fincou uma injeção doída no meu traseiro cheirando a talco perfumado.
Não sei se a essa sucederam outras. Minha mãezinha e Tenta poderiam saber. Mas elas não podem me dizer. Pois delas só restam saudades.
Assim como não sei quantas segundas já vivi.
Impossível saber quantas injeções, quantas pessoas esse admirável senhor já atendeu com a cordialidade e competência costumeira.
Ao qual Lavras deve muito.
Creio, como eu, milhões de criancinhas já tomaram injeções nas bundinhas.
Mães foram consoladas por ele quando preocupadas com a febre que não cessava de seus pimpolhos.
Quantas contas foram dependuras por famílias não terem como pagar medicamentos.
A ele, esse baixinho longevo, dono de um coração enorme. Espero continue batendo por muito tempo ainda.
Não sei se ele tem mais ou menos idade que a Tipuana. Se menos chega bem próximo.
Que memória prodigiosa ele tem.
Assim fosse a minha que por vezes falha.
Um dia desses nos encontramos. Quase sempre tenho tido esse prazer.
Sua farmácia mora pertinho de nossa linda praça. Passei por ali agorinha mesmo.
Ele mora logo acima.
No nosso último encontro dele ouvi algo que não sabia.
Mal me recordava da picada que aquela injeção fez doer meu traseiro.
Dele ouvi exatamente isso durante nossa curta parada quando ele ia a sua botica.
“Paulinho do Seu Paulo e da dona Rute. Você sempre me fala da dor que provoquei ao lhe dar injeção. Não se esquece né? Mas tenho certeza que desconhece esse fato. Quando seu avô, pai do seu pai, Alberto de Abreu. Trabalhava na oficina da Rede Ferroviária ( hoje dela só restam escombros). Era eu quem levava marmita pra ele comer”.
Despedimo-nos depois de fazermos um selfie que guardo com carinho no celular.
Olha minha gente.
De nada adianta estender tapete depois que passamos.
De que adianta dizer que somos boas pessoas se não pudermos ouvir depois de mortos.
Pra que colocar flores perfumadas no nosso caixão? Se nem podemos ver a beleza delas nem cheirar seu doce perfume?
Se querem falar bem de nossa pessoa que o façam na nossa cara.
Se desejam Falar bem ou mal de mim não esperem o dia de finados pra me visitar no cemitério.
Não sei se esse meritório homem que inda passa um bom tempo a frente do seu negócio é deveras farmacêutico graduado ou não.
Pra mim pouco importa.
Não esperem ele morrer pra dizer que Seu João, da farmácia Aparecida, é homem de bem que tem espalhado o bem na sua longa trajetória no balcão da sua farmácia.
Antes que ele morra digam a ele toda admiração que não apenas eu.
E toda nossa amada Lavras muito lhe deve. Não apenas respeito e inegável consideração.

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