Joãozinho e o pé de couve

Desde quando percebeu a vida ao nascer.
Num dia quando descia água do céu aos borbotões .Um verdadeiro dilúvio onde só faltava Noé trazer sua arca a salvar um de cada espécie.
O pequeno João despontou, primeiro sua cabecinha nada pequena. Seguindo-a seu tronco já espadaúdo. Por fim ele inteiro, sem faltar um pedacinho.
E como chorou o menininho. Nada o fazia parar. Se na sala de parto goteirasse suas lágrimas contribuiriam e muito para enchentar todo aquele lugar
Uma prestimosa enfermeira o acolheu. Envolveu o recém nascido numa mantinha verde. Da cor exatinha de uma folha de couve. Dessas verdinhas produzidas numa hortinha miúda. Adubada com esterco bem curtido. O pezinho dessa couve cresceu. Subiu às alturas quase arranhando o céu. Folhas graúdas, verdes como grama bem verdinha. Livres de lagartas famintas. Nada como uma boa feijoada bem acompanhada de tirinhas de couve temperada. E laranjas bem docinhas fatiadas em pedacinhos. Pra que a gente repita algumas dez vezes. Enchendo pratos pra depois lavá-los ajudando a dona da casa para que o trabalho dela minimize.
Joãozinho, depois de limpinho pela cuidadora presente ao seu nascimento.
Foi entregue perfumado, não com aquele odor nauseabundo de placenta vencida.
O regaço de sua mãe o recebeu carinhosamente com um afetuoso e grudento beijinho nas suas nádegas roliças.
Como naseu em alto apgar foi dispensado de ir ao berçário.
Onde prematurinhos eram deixados. Pois careciam de tratamento semi intensivo. Respirando oxigênio pelas suas narininhas entupidas. Até que pudessem respirar o ar impuro das cidades por conta própria e risco incalculado.
Aquele feio bebezinho teve alta da maternidade um dia depois de nascido.
Pasmem! Aquilo que despontou choroso do útero da mãe. Passando pelo canal do parto dias antes.
Em nada se parecia uma criança normal.
Sua cor era verde, tal e qual uma folha verdinha de couve.
Quem o visse logo nele poria o nome de Hulk. Dado ao seu tamainho diminuto melhor seria Hulquinho.
Uma vez em casa qual a cor predominante do quartinho do bebezinho?
Foi elezinho mesmo que escolheu, como não sabia falar e somente chorar.
Apontou seu dedinho para uma cortina. Qual a cor exata da cortininha? Verde da cor da folha de couve. Igualzinha aquela nascida e espichada numa horta de couve num pé de couve bem adubado. Livre de agro tóxicos como manda a vigilância insanitária do globo rural (insano né?).
Quando Joãozinho completou um aninho foi feita uma festinha dada de presente por uma tiazinha que morava numa rocinha pertinho de Ijaci.
Ela também amava tresloucadamente o verde.
Tudinho nela era verde, em tons sur tons.
Seu sutiã, quando ela usava, suas tetas eram tão grandes que. Quem, desavisadamente olhasse pro seu par de mamas. Um falastrão iria perguntar ao seu acompanhante, por sorte ou azar, muito enciumado. Esse boquirroto linguarudo iria perguntar a ela e a quem estava ao seu lado: “quantos litros de leite a senhora dá? Na primeira tirada”?
Ah! Não carece dizer que esse cara, que não sou eu, seria processado por ter chamado a comadre de não se sabe quem de vaca. Eu, se fosse julgador absolveria esse pseudo injuriador. E voismecês, também?
O rega-bofe do primeiro aninho do menino de cor verde, igualzinho a cor verde da folha de couve do pé da mesma verdura.
Foi todo decorado em verde. Desde a anilina da cobertura do bolo. As velinhas idem em verde. Os docinhos, brigadeiros, olhos da sogra, pé de moleque, tudo era tinto em verde.
Um tio torto, parente longe da mãe do aniversariante. Seu Antenor, sujeito de riso contido e muito sisudo. Dada a dentadura que usava, dantes era banguela rindo mostrando gengivas rosadas. Imaginem: sorria verde, um sorrisão tinto da corzinha exata da pastaria depois de uma chuva criadeira que caiu na rocinha dele.
Todos presentes, não os ausentes, deram presentes baratinhos ao Joãozinho molequinho.
Um sujeito, que entrou de penetra na festa, presenteou ao menino, um embrulho embrulhado em papel verde. Qual não foi a surpresa surpreendente do bebê feioso ao ver, dentro da caixinha verdinha uma baratinha vivinha voando, batendo asinhas, rumo a janela da casa.
Anos deixaram um rastro verde no ar poluído da cidade onde Joãozinho morava.
Ele crescia em anos e diminuía em tamanho pra cima.
Aos sete, na escola, uma escolhinha onde tinha, nos fundos do refeitório. Uma enorme horta de couve.
Descarece dizer que o menino, sempre vestido em verde. Era o responsável pela horta de couve.
Ele, mesmo não sendo mudo, mudava as mudinhas de couve de um canteiro a outro.
Ganhava sementinhas de couve na venda do Seu Ari, um comerciante sovina que não fazia graça pra ninguém. E só dava sementes pro menino se ele lhe desse uma ajudinha na sua loja.
A hortinha de verduras aos cuidados do pequeno João era um sucesso retumbante e revigorante.
Tudo nela era verde. Desde a cerca divisória. Aos canteiros verde musgo. Ao regador de um verde esmaecido amanhecido tardiamente.
Parece que foi ontem que por lá passei.
Era cedo, madrugada pedindo novo dia pra acordar.
A portinha da horta do Joãozinho, feita em bambu verde amarelo, estava aberta e entrei.
Queria colher couve pra acompanhar a feijoada que a enjoada da dona Tiana estava preparando.
Andando descalço pela horta, pra não machucar as verduras .
Num cantinho, protegido por muito verde.
Vi um pé de couve diferente.
As couves não tinham talo. Eram verdinhas que davam um gosto verde na minha boca.
Todos os pés de couve vestiam uma calcinha curta e meias soquetes tais e quais eram usadas antigamente pelas estudantes de colégios de freiras.
Um desses pés de couve, o menorzinho, sorriu pra mim.
Parecia inté que ele me conhecia de algum lugar.
Não sabia eu que pé de couve falava. Até então.
Naquela horinha escutei uma vozinha desafinada que dizia assim.
“ Oi doutor Paulo Rodarte. O senhor não se lembra de mim? Sou Joãozinho. Fui operado de fimose pelo senhor um mês atrás. Eu gosto tanto de verde, de couve, que acabei renascendo nesse canteiro. Não mais quero ser gente. Sou agora esse pezinho de couve que o senhor está vendo”.
Acabei desistindo de levar pra cozinha da dona Tiana couve pra acompanhar a feijoada.
Não fiquei triste por ver a metamorfose daquele menino.
Se ele está feliz em ser um pé de couve eu também fico.

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