Inda bem que nem no ano que vem vai haver eleição. Verdade? Se não me ajudem a desmentir.
Pelo menos é isso que penso e acabei de escrever.
Já disse e não me canso de repetir.
Escrever sobre política, futebol e religião. Se me pedirem. Me pagarem muito bem lhes digo um sonoro NÃO.
Acontece que a crônica retrata o cotidiano. Versa não em versos sobre assuntos ou temas em baila.
Como estamos no apagar da luz de um pleito eleitoral. Ganhou esse ou aqueloutro não me interessa. Embora já tenha me manifestado em duas crônicas dantes: questão de princípios e talvez tio Chico tenha razão. Meu voto não foi meu e sim inspirado nessa criança linda, bom menino, aplicado nos estudos. Bom esportista e eclético nas amizades. Gael entrou comigo numa cabine onde estava dona urna ligada à eletricidade. Ele mesmo, com seu dedinho teclou o número treze onde apareceu a cara manjada do candidato vencedor na acirrada disputa.
Minha intenção primeira era votar no candidato opositor.
No entanto, por sinal de amizade e muito apreço ao meu filho e sua esposa. Maior ainda ao Gael. Deixei que ele me indicasse, com seu dedinho lépido. Esse que chamam Lula. Espero que não seja um molusco. Mais um animal invertebrado. De corpo mole, pertencente ao filo Mollusca. Como os caracóis, caramujos, lesmas, ostras, mexilhões, polvos e lulas.
O polvo é considerado um dos invertebrados mais inteligentes. Capaz de aprender e resolver problemas.
Espero, por ter votado nele, mesmo que meu voto tenha sido influenciado não por mim. Venceu de fato o pleito esse de nome de molusco. Ele, nosso próximo e atual presidente pelo menos tenha a inteligência de um polvo ( nosso presidente se gaba de falar a língua do povo). Como um sábio polvo tenha a clarividência de resolver os imensos problemas que afligem nossa querida nação brasileira.
Pra vocês quais os principais sinais de amizade?
Primeiro, como sou eu que estou escrevendo. Vou listar os meus.
Na espécie humana (embora muitos que se dizem humanos enxergam a humanidade por uma frestinha de uma janelinha muito estreita ).
Um abraço apertado, um suspiro bem dado pode ser indício seguro de uma grande amizade.
Ajudar a quem precisa num momento de dificuldade. Estender as duas mãos a ajudar. Mesmo a um desconhecido a se levantar. Da mesma maneira quer dizer a mesma coisa-sinal de amizade desinteresseira (existe essa palavra?).
Oferecer um ombro amigo. Mesmo que ele esteja dolorido, como o meu direito. No meu julgar também indica amizade.
Visitar uma pessoa, mesmo que seja à hora da novela. Tocar a campainha na casa de alguém (como as crianças fazem no dia das bruxas. Cópia dos estadunidenses). Entrar naquela casa ou apartamento. Levando as picanhas, um saco grande de carvão e cervejas bem geladas. Pra mim é amizade genuína e compromissada apenas em comer picanha. Tomar cerveja e dormir no sofá até a festa acabar. Isso é que é ser amigo.
Emprestar, sem juros, uma grana alta. Sem exigir fiador. Indubitavelmente é sinal explícito de amor a um amigo.
Mas entre essas pessoinhas admiráveis. Mesmo aquelas que latem e mordem. Se me pedirem indicação de um amigo. Fiel, devotado, que não se esquiva nos momentos mais difíceis. Sempre ao nosso lado estão. Que não fazem distinção entre ricos e sem tetos dormindo, ronronando ao relento. Quem são nossos maiores amigos?
Vou fazer essa pergunta em forma de múltipla escolha. Como nos bancos escolares.
A, padres, freiras, monges e símiles?
B, gente da roça, urbanos, puritanos e mundanos.
C, mocinhas, mulheres de saia, de calças compridas ou sem calcinha.
D, cães, vira latas, de boa raça. Ou cãezinhos de madames?
Pra mim sem dúvida é letra D.
Acertei? Que nota me dão?
Hoje, cedinho como costumeiro. Saí à rua antes das quatro da madrugada.
Como sempre caçando crônicas. Tentando encontrar um tema para minimizar minha teimosia em escrever tanto.
Pertinho de onde moro parei perto de um relógio vizinho a uma pracinha.
Ele mostrava as horas- quatro da madrugada.
A temperatura era de quatorze graus, friozinho né? Não pros esquimós.
Passei perto da Tipuana. Não a convidei pra almoçar pois, de outra vez ela me disse estar em dieta arbórea. De tão velha que é passou a comer apenas folhas e adubo que admiradores jogavam nas suas raízes.
Não se via umazinha alma viva ou morta nas ruas desertas. Se andasse pelado não seria preso por atentado ao pudor.
Entrei porta aberta de uma drogaria onde não vendem drogas (embora, como médico ache que certos remédios sejam verdadeiras drogas).
À porta um cãozinho me estranhou e latiu pra mim.
Outros dois cochilavam dentro daquela loja tida como farmácia e drogaria.
Nem se lixaram com minha presença madrugã.
Ali passei uns minutinhos numa prosa esclarecedora sobre o resultado das eleições com um farmacêutico madrugão como eu.
Os dois cachorrinhos continuaram seu soninho sem que eu tivesse a descortesia de acordá-los.
Um deles, o mais peludinho, era chamado Raul. À feminha não fui apresentado.
Deixei a drogaria sem experimentar nenhuma droga. Nem comprei qualquer remedinho que me fizesse mal como o Sonrisal.
Já do lado de fora, ao atravessar a praça. Outro cãozinho passou a me acompanhar me olhando. Como a pedir que o adotasse ou o alimentasse.
Era um viralatinha que pensava ser de raça. Branco de pintas amarronzadas, muito dócil e amistoso.
Dei uma paradinha na Santa Casa na intenção de estreitar laços de amizade com colegas ou atendentes daquele meritório nosocômio.
O cãozinho me esperava educadamente do lado de fora.
Estava escuro ainda. A hora beirava alguns minutos antes das cinco.
O cachorrinho me seguiu até a porta do prédio onde tenho meu consultório.
Como se fosse um amiguinho bem chegado.
O tempo todo abanava o rabinho. Olhava pra mim como se quisesse dar nome à minha crônica matutina.
Ao entrar no prédio. Fechar a porta de vidro pra que ele não me acompanhasse.
Pensei ter ouvido dele um latido desse jeitinho carinhoso.
“O senhor não quer ser meu amigo? Tenho te seguido desde a drogaria. Aqueles dois cães que o senhor viu dormindo não são meus amigos. Ao contrário, desafetos. O senhor deve ter muitos amigos né? Tenho te observado dias antes de hoje. O senhor anda muito. Proseia com um, tenta vender sorrisos aos que se sentem tristes. Sei que o senhor além de médico é escritor. Daí a sua compulsão em acordar bem cedinho. Procurar, com seus olhos inquiridores inspiração para deitar em seus inúmeros livros. Sabe qual o sinal de amizade que tento lhe passar? Vim abanando meu rabinho desde quando te vi sair da drogaria.”
Agora, quando ando pelas ruas, e vejo pessoas passando por mim.
Direi a elas bons dias, boas tardes e até noites.
E vou deixar crescer meu rabinho.
Aprendi esse bom costume com esse esperto cãozinho que na madrugada de hoje me seguiu até aqui.