Questão de princípios

Quem ainda não viveu. Não sofreu. Não se apiedou de ninguém.
Não postou os joelhos no chão duro do asfalto a pedir uma bênção ao nosso paizinho do céu. Não orou contrito a uma santinha pela qual tem enorme devoção.
Pra mim essa pessoa não tem princípios. Nem meio e nem vai chegar ao fim.
À princípio nasci.
Não foi aqui e sim numa linda cidade hoje banhada por uma linda represa.
Cujo nome enseja uma boa esperança. Que lhe deu o nome de Boa Esperança.
Ainda esperançosa criança vim ter à minha madrasta. Essa cidade que não troco nem se me pagarem uma boa grana. Pois tenho por mim que mãe é quem cria. Se desdobra em carinho e desvelo mesmo que aquela criança não tenha nascido em seu ventre. E por uma acaso não de um, descaso. Toma nos braços aquela infeliz criancinha que foi abandonada pela mãe num momento de desatino. Por ter sido mãe sem querer. Num ato de amor sem prevenção acabou por ver dentro dela germinar essa sementinha que seria mais tarde um homenzinho ou uma linda mulher.
Meu princípio foi desse jeitinho.
Filho primeiro de um casal em começo de sua vida matrimonial. Ainda me vejo. Detrás de onde estou escrevendo. Eu meninozinho, vestido num terninho azul marinho. De dedinho em riste apontando não sei pra onde. Lourinho de fartos cabelos. Naquela fotografia, numa pracinha de Boa Esperança não da pra ver quem me acompanhava.
Por certo uma tia, minha saudosa mãe. Penso que meu pai estava a trabalhar no Banco de nome Brasil.
Pulando alguns anos. Aos cinco completos, pela janela, nesse dia chuvoso. Vinte e cinco de outubro, dia de eleição em segundo turno. Olhando pela janela desse meu sétimo andar. Prédio das clínicas entregue apenas a mim. A me acompanhar minha enorme inspiração.
Percebo, se levanto as persianas e abro as janelas.
Mesmo que a chuva entre por elas.
Olhando à esquerda vejo a rua onde cresci. Abaixo outra de nome Horácio Carvalho. Não tão cheia de casas, clínicas médicas, moradas de parentes. Uma dessas moradoras merece menção especial. Minha primeira professora dona Beliza, mãe de outra amada mestra dona Biló. Que penso agora darem aulas no céu junto aos meus pais.
A Costa Pereira não me sai dos pensamentos.
Incontáveis vezes já deixei escrito e não canso de repetir: “por onde andam meus colegas dessa rua? Amigos de folguedos? Que como eu foram crianças, jovens um dia, adultos que constituíram famílias. Idosos que faleceram como regra vai acontecer comigo.
Dei uma volta breve pelo meu princípio. Meio, sorte minha não ter chegado ao fim.
Mas não é examente sobre essa sinonímia da palavra princípio que gostaria de ter escrito.
Princípios. A mim parece principal. Como o principado de Mônaco é morada da realeza. Gente famosa, endinheirada. Que nada a braçadas em piscinas lotadas de cédulas de milhares de euros, dólares que pessoas idolatram. Pra mim não tem tanto valor como o prazer que me da a escrita. De pôr um ponto final num texto. De ver editados um monte de livros como os tenho às minhas costas nessa estante testemunha ocular de que eu seja inda médico. E quem sabe mais um cadinho escritor.
Princípio, que outro sinônimo dar a essa linda palavra que se insere no nosso rico idioma?
Tanto pode significar começo. No meu texto se adequa.
Como pro lado de valor moral, ética, retidão, honestidade, integridade, decência, probidade, caráter, honradez (obrigado querida IA pela inestimável ajuda).
Hoje, repito, vinte e cinco de outubro, domingo, quase não se pode ver a azulice do céu devido à cinzentice do alto.
Dia de escolher quem vai assumir o timão de nosso barco.
Espero seja um comandante que não se venda a nenhum país de primeiro mundo.
Que não use venda nos olhos e enxergue pro lado de ricos, menos abastados, trabalhadores rurais. Que gente das cidades não façam pouco caso de quem produz.
Que o presidente eleito seja empossado no primeiro dia do ano novo.
Que o perdedor não se sinta muito dolorido com a derrota.
Seja quem for não faça uma oposição sempre do contra e destrutiva.
Que aceite a derrota e não se revolte com isso.
Que seus seguidores, sejam petistas ou bolsonaristas.
Não sejam como aqueles arruaceiros que entraram pela rampa do palácio do planalto depredando tudo numa revolta sem causa. Eles sim, merecem punição exemplar.
Saí da minha nova moradia mais tarde que o costume.
Por sorte levei meu guarda chuva.
Mão chovia tanto aquela hora matinal.
Céu emburrado, trovões anunciavam chuva mais tarde.
Sempre usando as pernas fui ao local onde iria votar.
Trovejava como agora. Aqui no meu consultório, abrigado ouço raios riscarem o céu e trovões ofenderem minha baixa audição.
Não tenho medo de chuva nem de raios ou trovões.
Desde que não seja uma tempestade, ou furacão que cause maior destruição.
Como gente da roça, que não sou embora me sinta.
Amo de montão um chuvica mansinha. Que deixa a terra molhada pronta a ser arada, adubada e plantada.
Na universidade onde estuda meu netinho Gael ele e seu pai me esperavam.
Até então não sabia em quem votar.
Gael, menino esperto, bem melhor esportista que seu avô.
Entrou comigo na cabine de votação.
Ele mesmo escolheu, com seus dedinhos espertinhos.
O número que idenficou a cara do candidato escolhido.
Dele, que não seria o meu.
Sou, e já deixei manifesto meu repúdio a escrever sobre política, futebol e religião.
Respeito as crenças, opiniões, mesmo elas sendo distintas das minhas.
Definitivamente não irei brigar. Tanto com as torcidas ensandecidas ou em disputas futebolísticas. Menos ainda em igrejas, templos religiosos não irei jamais colocar minha fé em discussão. Se um petista, comunista, fascista, me chamar pra briga não revido nem esmurro aquele que me desafia.
Voltando à cabine onde a urna eletrônica hoje mora.
Foi meu netinho Gael que, com seu tirocínio inda incipiente.
Como amo as crianças. Se me fosse possível fazer um pedido a quem quer que seja o faria com certeza.
Com essas exatas palavras nascidas dentro de minhalma: “por favor, crianças. Não cresçam nunca”.
Pena que Gael vai crescer.
Em quem eu voto. Mesmo sendo esse voto de agora cedo não meu sim do meu netinho.
Por uma questão de princípios não vou revelar.
Revelo sim. Que vença o melhor não pra mim ou para vocês. De esquerda ou direita, pra mim tanto faz.
Meu princípio foi em Boa Esperança, onde nasci.
Meu meio está sendo aqui.
Meu porvir não sei quantos anos mais ou onde vai ser.
Pro Gael, pro Theo, pro Dom, e pras outras crianças do meu Brasil.
Um futuro pra mim incerto. Já que não tenho tanto futuro assim.
Por uma questão de princípios.
Que a ética, a idoneidade, a decência, a honestidade.
Sejam princípios que norteiem o coração de nosso futuro presidente.
Seja ele quem for.

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