Alergia do Seu Zito

Esse senhor, bem rodado em anos.
Nem se lembra mais de quantas velinhas assoprou na sua vida.
Quem o conhece não se esquece dele jamais.
Não apenas por sua simpatia, amor ao trabalho pesado. Ele a enxada parece terem sido feitos um para o outro. Mãos caludas, sorriso branco muito franco. Não é de falsear verdades nem tem costume de ludibriar quem nele acredita. Se ele fala podem crer. Em sua vida corrida nem sabe o significado da palavra Fake.
Aquele senhor pelo qual não apenas eu e todos que tem a ventura de conhecê-lo. Sabedor que somos de sua idoneidade moral. Sua enorme fidalguia. Sua lealdade aos amigos.
A educação que tem como norma de vida.
Seu Zito não dá ouvidos às paredes nem elas a ele.
Desde criancinha mora na roça.
Ali nasceu e não se esqueceu da bananeira onde tinha seu umbigo enterrado.
Dizem, nas cercanias, que a cada lua cheia ele aparece de noite ao pé da mesma bananeira.
Não pra ver se ela já deu cacho. Sim para rezar centenas de padres nossos e aves marias.
Desenterrar seu velho umbigo. O que restou dele depois das minhocas terem comido a metade. Com aquilo na mão leva o cotinho ressequido do seu cordão umbilical pertinho do seu novo umbigo. Que sai pra fora a toda hora sendo devido a uma hérnia devida a tanto esforço que ele fez e ainda faz. Pasmem! Não é que a hérnia volumosa murchou? Entrou pra dentro e nunca mais voltou?
Seu Zito, epitetado de Bão de Braço, pois tem os dois muito fortes e poderosos.
Se arregaça as mangas as mangueiras se enchem de manguinhas madurinhas. Que mangas ubás deliciosas sua mangueira produz. As jabuticabeiras de sua rocinha nos fazem salivar pela doçura de suas frutinhas pretinhas agarradinhas no pé de jabuticaba bem madurinhas que estão agora. Nem carece trepar no pé. É só agachar, esticar os braços, levantar uma das mãos e chupar.
Avizinhava-se não aquele vizinho chato.
Era uma quinta feira, vinte e dois de outubro, alguns poucos dias depois a gente tinha de votar.
Seu Zito, dada a sua idade provecta. Mais de oitenta quase noventando (não inventa palavras não doutor escritor).
Era dispensado de ir à urna por ter idade suficiente para entender que não se deve meter o bedelho em podriqueiras como política. Mesmo assim ele comparecia com seu título mais velho que aquela serra baixa que já foi alta e acabou minguando devido ao fogo que a comeu pela metade.
Ele não era de se queixar de doenças.
Nem se lembrava mais quando foi que teve de procurar um médico.
Sua netinha amada, Luna. A única alegria que lhe restava na sua vidinha insossa era essa menininha carinhosa. Que amava seu avozinho mais que eu amo a escrita.
Luninha ( não confundam com Lulinha, por favor), sempre ao seu lado fazia lembrar o seu avozinho. Já que sua cabecinha muito ocada na maioria das vezes se esquecia o que havia comido no almoço. Mas, na janta (Janja não) nunca.
Era sempre a netinha Luna que dizia ao ver o esquecimento do amado avô: “vozinho querido. O senhor não se lembra de ter consultado com o doutor Rodarte semana passada quando ele lhe fez um toque e o senhor não gostou? Eu estava ao seu lado na cadeira a frente dele. Quando doutor Rodarte de Abreu levou o senhor à sala de exame eu não fui atrás. Fiquei bem comportadinha na sala dele. Aproveitei pra dar uma lidinha num dos muitos livros que estavam enfileirados sobre o tampo da mesa. Que bom escritor doutor Paulo Rodarte é viu vovô? Quando eu crescer quero ser igualzinho a ele. Além de médica escritora. E ouvi os impropérios que o senhor disse a ele quando ele enfiou o dedo no seu fiofó. Que vergonha Seu Zito”!
Não carece deixar escrito que Seu Zito não tinha alergia de nadica de nadinha.
Nem aquelas folhinhas de aroeirinha do sertão faziam encalombar sua pele branquinha.
Micuins nele, mesmo se grudados nem coceira coçava tempos depois.
O avozinho da lindinha Luna não tinha nenhum tipo de alergia.
Nem sua finada sogra, mais chata não havia, quando ela o xingava irada. Seu Zito não retrucava, saía às carreiras de perto. Se ficasse o pau quebrava na fuça da megera da sogra.
Nem a antipatia da danada dava alergia no resistente Seu Zito.
Agora, quando o assunto é eleição (não confundam com ereção. Coisa que Seu Zito pensava que ainda tinha e era só ilusão. Na hora do pega pra rosetar a coisa não subia nem assoviava. Nem ia às alturas que nem balão).
No domingo (vinte mais cinco ), dia de nossa opção de escolher um ou outro que vai tentar pôr no prumo nosso rumo. Coisa pra mim missão mais que impossível.
Na boca da urna ( não fúnebre nem funerária).
Deparei-me com uma cena sinistra.
Uma garotinha linda trazia seu avô preso numa coleira como se ele fosse um pit bul dos mais raivosos.
Seu Zito estava todo encalombado, do saco ao andar superior.
Comichava e se coçava de dar dó.
Era cada calombo no seu lombo de pensar em levar ele depressa ao pronto socorro para lhe dar socorro antes de seu óbito iminente.
Como médico, não especialista em alergia e doenças da pele e fâneros.
Como já tinha votado embora não seja bom de voto nem devoto de nenhum santinho de pau oco metido a bonzinho como certos políticos às vésperas de eleições.
Tentando dar uma ajudinha à netinha do pobre Zito. E a ele mesmo.
Fiz uma sucinta anamnese a ele mesmo assim.
“Seu Zito, me responda, por favor. Vosmecê já foi meu cliente. Se lembra daquele exame de próstata que infelizmente pro cê, parece que doeu muito, pra mim nadinha de nada. O senhor quase bateu na minha cara? Por sorte sua netinha estava a espera lendo uma das minhas milhares de crônicas e não deixou o senhor chutar meu saco. Agora, nessa hora, o senhor parece não estar nada bem. Todo cheio de calombos, coçando muito. Até a parte mais embaixo. O senhor, na consulta, não sei quando foi. Se foi particular, por convênio ou pelo SUS. Me disse não ter nenhum tipo de alergia. Num é verdade ou fake”?
Nunca vi um home, novo ou veio como seu Zito, ficar tão irritado.
Ele, todinho encalombado me respondeu soltando fumacinha pelo rabo rabicozinho.
“Qué memo sabê (desse jeitin memo). Tô pur dimais, num di menos, injuriado. Vim nessa pocilga votá, sem precisão. Dantes infelizmentemente. Não estou mentindo. Antes de entrar nas urna. Melhor teria sido num caixão. Entrei de gaiato numa discussão com um petista de camiseta vermelhinha cor de sangue, não azul. Qui prosa ruim. Pior num tem. Ô sujeitin isquisito. Num é que ele teimava e tentava ganhar tudo no grito. Só via a fuça dele. Num inxergava um palmo adiante do seu narigão. Curuz credo. Daí, tá vendo meus calombo?. Tenho verdadeira urticária a petistas. E como eles me irritam. Me fazem coçar mais que picada de micuim”.
Pra mim tá mais que justificada a alergia do Seu Zito…

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