Não me tenham como egocêntrico

Egocentrismo, palavra forte, que nos coloca no centro. No meio, pra mim um lago seco no meio do nada.
Quem sofre dessa doença pensa ser o dono, o ditador, o presidente, o mandatário maior de um reino, de um país, ditando as regras a serem seguidas por todo mundo.
Eu no centro, em priscas eras, ainda estudante, dos melhorzinhos. Adorava dançar no centro acadêmico da minha faculdade de medicina na nossa linda Belô. Onde a meu entender viviam as mocinhas mais bonitas de nossa linda Minas Gerais. Talvez cuíca de todo mundo.
Podem me ter como tal. Embora não me tenha como o maioral.
Minha altura não chega a metroemucado. De salto alto, coisa que não uso e nem abuso. Já que não sei andar descalço sempre uso um bom par de tênis ou uma crock quando em casa.
Minha estatura era menos de metro e setenta.
Devo estar encolhendo da ponta da cabeça à sola dos pés.
Pois que, da última vez que fui ao médico. Não eu e sim um colega experto no bom sentido. Não de espertalhão, embrulhão, sacana em linguagem mais direta. Ele me pôs na balança, essa que fica em pé, não deitada num ladinho de sua sala acanhada. Meu peso foi lido por ele: setenta e oito quilogramas. Minha altura medida de pé, não assentado. Girou e me fez girar de tontura em miserentos metro menos de setenta. Altura maior que já cheguei. Desde menininho, deixando a juventude me dizer adeus. A fase adulta me fazer adúltero. E a senilitude conspirar contra meu desejo de ser um dia um homem alto. Não da altura de um poste ereto onde fios de luz são dependurados. Sim de uma altura suficiente para beijar uma moça alta sem precisar subir numa grande escada.
Isso de comentar tanto sobre estatura me fez lembrar de um sabido professor gamonense que enfim. Não sei quantos anos ele tinha quando foi levado à sepultura.
O pequeno, em estatura, grande em inteligência e sabedoria. Emérito, muito meritoso, professor Sinval Silva. Mais careca que eu, não sei a que altura chegava.
Sempre dizia aos seus alunos com sua voz professoral: “meus alunos, sabem vocês disso? Se não passem a saber agora! A verdadeira altura de um homem se mede do alto dos sobrolhos aonde começam os cabelos do alto da cabeça”. Vem de aí meu conceito. Verdade que dos carecas elas gostam mais. Somos mais inteligentes na altura não?
E por que não me sinto eu no centro? Se preferirem egocêntrico entendam isso.
Primeiro não me dou nem à esquerda. Menos ainda do lado dextro. Se me taxarem de sinistro o sino toca.
Não me sinto atraído muito menos traído pelos petistas.
Que se danem os tais que pensam que vão ganhar a eleição.
Me contento com minha discreta ereção que me facilita, e muito, chegar aos píncaros da glória quando copulamos eu e a linda dona Glória (Glorinha seu nome de guerra, embora ela seja de paz).
Se me convidarem, mesmo me intimarem e eu não ficar intimidado. A assistir de camarote a um jogão do Atlético e o antes bom time do Cruzeiro. Quando morava na antes linda capital mineira. Agora essa cidade mudou tanto que não a reconheço. Aí, menos pior. Ia sim ao Mineirão a ver o time da camisa azul massacrar o rival com homéricas goleadas de dez a zero.
No gol do Cruzeiro defendia o goleiro da camisa amarela. Que era chamado de Vanderleia (tem ou não acento no segundo e?) Nossa linda cantante não sei bem se nascida aqui na nossa amada Lavras. Ou apenas passeou pela maternidade sem ter visto. Pela vez primeira a luz do dia aqui onde mora a Tipuana. Essa linda mulher arbórea. De raízes profundamente fincadas na terra fértil de nossa praça principal. Perto da tal onde sempre passo e tento lhe fazer a corte. Implorando de joelhos, se preciso for, que não a cortem nunca. Se o fizerem irão ver um punhal afiado e pontudo ensartado dentro do meu peito carente e descrente de amor.
Não me tenho, em absurdo, como eu no centro. Que seja no meio de um campo de futebol. Não me atrevo a ser juiz. Já que posso ser chamado de gatuno. Prefiro correr pouco, pelas laterais de um gramado bem cuidado. Sonho ser um reles bandeirinha, macho. Bom que se diga.
Não me achem que seja eu. Adepto do egocentrismo. Nem eu mesmo sei quem sou. Nessa minha trajetória indefinida nesses meus muitos anos. Hoje me divido ao meio. Metade de mim escreve. A outra pensa ainda ser médico.
Não me sinto nem no centro nem de outro lado. Sinto-me melhor descentralizado.
Quando corro, na velocidade de tartaruga manquitola abengalada. Não me sinto como sendo o dono da estrada. Paro sempre no acostamento não para descansar e lamentar. Amo-me por inteiro embora minhas metades me amem meio a meio.
Assim como não me sinto a derradeira e a melhor bolacha do pacote. Permito e dou o direito de outros abrirem o pacote e se deliciarem comendo as maiores.
Não penso nunca ser o maior nem o melhor. Dou-me por feliz em ficar na coluna do meio. Nem no final nem no comecinho.
Ontem, de noite, uma pessoa muito querida, amor passado da minha vida. Mandou-me uma missiva dizendo que iria assistir ao debate televisivo. Ao vivo e colorido. Entre os dois canditados à presidência. A ela deixei escrito, em letrinhas miudinhas e cheinhas de carinho: “ me desculpa. Não estou preocupado com tais embates. Esse tipo de discussões não me apoquentam. Se fosse um poetinha maior como Quintana. Poetando não digladiando em versos com outro poeta a exemplo de um Castro Alves ou outro de igual quilate. Aí sim. Ficaria até tarde a assistir. Pena que em horário nobre não passam esse tido de prosa boa. Essa prosa gostosa que somente bons escritores sabem prosear.
Por gentileza não ponham sobre minha mesa que não estarei presente.
Não me sinto nem me assento eu no centro dessa mesa. Melhor deixar escrito como meu saudoso mestre professor Russi dizia com sua enorme sapiência: “assentar simplesmente não. Conferir nádegas ao assento”.
Nádegas a declarar.
Se eu fosse me preocupar, com o que outros dizem de minha pessoinha. Que já me aposentei. Se ainda estou vivo ou não. De pronto encomendaria meu caixão.
Se me sentisse eu no centro. De uma discórdia. Dentro de um ringue de box. Ou mesmo no meio de uma rinha de galo.
Não sei se iria rir ou tentar apartar essa briga que não é minha. Deixaria a vocês, petistas, comunistas ou direitistas aplicarem um soco inglês na fuça dos querelantes.
Sentir-me-ei bem melhor como estou.
Avesso a tais pensamentos comuns a vis mortais.
Olhando, me admirando por dentro. Sem guardar ressentimento de qualquer que seja.
Não que seja egocêntrico. Longe de mim esse pensamento.
Tenho-me como um julgador que decide. Nem pró réu. Muito menos pro meu ladinho que penso não me assentar ao lado do meu advogado de defesa.
Nesse quase ocaso da minha vida.
Em absoluto não faço pouco caso de ninguém.
Muito menos de mim mesmo.

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