“Agora só me resta você “

O que nos resta na velhice?
Quando de mais idade. Nossas pernas não mais suportarem o fardo pesado dos anos.
Assim que nossa visão claudica. Nem usando óculos enxergamos mais um palmo adiante do nariz. Não nos lembramos de coisas de ontem. Aquelas do passado não as esquecemos jamais.
Uma vez velhos, abengalados, trôpegos em nosso caminhar. Quando nosso cuidador nos indica com sua voz bem postada e na altura suficiente para que a gente escute: “se o senhor quiser posso lhe dar banho. Te enxugar bem pra não ficares resfriado. De uma gripezinha a uma pneumonia pode ser um pulo para o cemitério. Cuidado se teimar em entrar sozinho no banheiro. Uma queda pode ter consequência de uma fratura de bacia. Não aquela baciona onde sua tia avó lhe dava banho. Quando ainda menino na rocinha da Cachoeira no município de Perdões. Quantos anos faz isso heim!”
A velhice um dia vem.
Pra uns mais cedo. Pessoas podem envelhecer aos trinta. Caducar em menos idade.
Velhos existem que pensam estar vivendo na infância.
Passam a usar as mesmas fraldas. Só que em tamanho bem maior.
Poucas coisas, mínimas, o velho leva vantagem sobre os novos.
Jovens quase não têm passado. O que passou pra eles quase não tem memória.
Velhos não precisam ir tão depressa. Pra que correria se ele pode cair e nem sequer andar mais.
Ser ou ficar velho, na minha estulta opinião. Acho absurdo dizer que com a idade a gente fica mais sábio. A caduquice, Alzheimer e outras doenças do envelhecer aí estão pra nos alertar.
Por vezes me sinto jovem. Criança andando de patinete, de velocípede, de bicicletinha de rodinhas cor de rosa sonho-me menino.
Pena que acordo em sobressalto.
Em menininho fazia pipi na cama.
Agora velho, se não corro ao banheiro, a história se repete.
E como contar a dona que ressona do meu lado que aquele líquido mal cheiroso não foi urina e sim água do copo. Onde descansava minha dentadura que. Por um descuido meu. Ao me levantar pra fazer xixi, como o pinico transbordava. Dei uma topada no criado falante. E acabou-se o que era doce. Aquele copo cheio pela metade de água derramou tudo na cama onde tentei dormir e mal consegui.
Foi agorinha mesmo nosso encontro.
Não foi agendado, nem combinado.
Se a conhecia nem me recordava daquela senhora. Acredito de mais idade que os meus setenta e seis.
Subia a rua principal de minha Lavras amada.
Era por volta, sem me revoltar, já que sempre ando cedo. Das quatro da madrugada.
Fiz um breve pit stop ao lado da mais velha que eu. Quem? Ou qual? Senão outra senão a Tipuana.
Como de quase sempre rotina entrei numa drogaria sempre aberta as madrugadas.
Lá não estava minha amiga Priscila. Outro funcionário estava atrás do balcão arrumado as prateleiras.
Apurei os olhos .
Percebi um cãozinho num cochilo gostoso deitadinho no piso de azulejos brancos.
O simpático funcionário daquela loja madrugã não sabia o nome do cão.
Enchi-me de valentia e, sem perguntar ao cachorrinho nomeei-o de Companheiro.
Ainda não sabia a razão.
Era inda madrugada. A rua principal estava às moscas e algumas baratas madrugãs.
Um ou outro carro, de faróis acesos, mais aceso estava eu. Por ali trafegava lentamente.
Em minutos, como estava de saída. Não queria comprar remédio. Nem pescoçar preços.
Ao olhar pro lado, esquerdo.
Vi uma senhora assentadinha a uma cadeira onde clientes esperam a vez de serem atendidos de mais idade.
Não sei se a tinha visto andando pelas ruas dessa nossa cidade.
Minhas lembranças não iam tão distantes.
Assentei-me ao ladinho dela. Talvez movido pela curiosidade de escritor. Que pessoinha educada a dona Alice. Seria esse seu nome? Ou por ela criado?
Do lado da dona Alice moravam algumas sacolas. Pertences dela, roupas, utensílios de higiene? Não pude e nem quis ver o conteúdo.
Aquela senhorinha despertou em mim alguma coisa a escrever.
Pedi a ela que me permitisse fazer uma selfie entre nós dois.
Ela simplesmente disse sim. “De onde a senhora veio dona Alice? A senhora tem casa própria? Mora de aluguel? Onde a senhora mora? Tem família ou vive só, como eu?”
Ela a tudo escutava sem nada responder.
Sempre olhando em direção ao cãozinho do outro lado da farmácia. Dona Alice nem quis saber quem eu era. Nem meu nome perguntou nem quem era a minha perguntona pessoa. Só eu sabia que era um enxerido qualquer.
“Vivo numa casa na parte alta da cidade. Pertinho da Copasa. Pago aluguel no dia certo. Ando muito pela cidade pois tenho medo de ficar sozinha. Meus filhos, se tenho netos, não sei. Eles nunca me procuraram. Nem quando fiquei doente e tive de ser internada, aqui perto na Santa Casa. Que tratamento de primeira ali recebi. Tanto das zelosas enfermeiras como do doutor que ajudou muito a me recompor. Devo muito a todos eles. Nem carteirinha do SUS tinha entre meus parcos pertences. O senhor está vendo esse cãozinho? Dei-lhe o mesmo nome que ouvi o senhor chamá-lo : Companheiro. Agora só me resta a companhia do meu Companheiro. Companheirão ele é”.
Despedi-me da dona Alice com esse pensar.
Se alguém me perguntar qual o melhor amigo da gente quem é?
Já tive cães. Não gatos.
Vacas me avacalharam a vida me dando enormes prejuízos.
Cavalos, tenho uma égua e um eunuco que faz companhia a minha Felicidade.
Devo muito a eles e eles me devem pouco.
Aos cães as minhas maiores honrosas homenagens.
Como me disse dona Alice: “esse cãozinho é a única coisinha boa que me resta.

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