Mentiroso quem diz a uma mãe, quando o filho nasce, querendo agradar a ela: “que gracinha do seu filhinho! Que menina mais linda”…
Quando a gente nasce nada mais feio.
Mais parecemos, recém nascidos, um filhote de cruz credo querendo sorrir desdentado.
Depois, felizmente, meses nos vendo com olhos salpicados de ternura e bondade. De feiosos que fomos nos tornamos mais que mais bebezinhos mais lindos que araras azuis voando rasteiras no Pantanal.
Se eu pudesse. E se curvassem a minha vontade. Sendo juiz togado. Baixaria um decreto lei com o seguinte teor: “a partir dessa data, dia das crianças, doze de outubro. Não mais permitiria que elas crescessem”.
Não que eu, feinho como sou. Sem gracinha como os chistes que tento fazer outros rirem.
Tenha sido nunca lindinho. Nem em Boa Esperança. De onde vim aos cinco aninhos. Menos ainda naquela rua de tantas lembranças onde aprendi que uma boa amizade vale mais que quase tudo nessa vida. Um cadinho menos que o carinho que meus pais tinham por mim.
Naquela manhã de outubro. Justamente no dia dedicado aos nossos filhos e netos. Dia de hoje. Segunda feira feriado.
Na rocinha onde o menino Pedrinho morava com seus pais.
O céu cinzento prenunciava chuva no cair da tarde.
Pedrinho, garotinho de uma ingenuidade e bondade sem alguém que se equivalha.
Elezinho era bom em tudo. Estudioso, só tirava boas notas. Ajudava aos coleguinhas em dificuldades. Era tido um aluno exemplar com futuro promissor.
Na rocinha onde morava a renda da família vinha das tetas das vacas.
Uns míseros litrinhos que mal chegavam a duzentos ao dia.
Para aumentar o orçamento das cinco bocas sempre famintas que viviam unidas naquela casa modesta. Quase uma choupana rústica. A mãe fazia queijos frescos. Criava porcos num chiqueiro sempre limpinho. E num galinheiro telado galinhas caipiras engrossavam a renda da casa com seus ovos salvos da fome dos bichos do mato.
Pedrinho era um menino que não se furtava a ajudar.
Era ele quem, na sala de ordenha deixava tudo limpinho cheirando a flores do campo. Se possível fosse.
Assim que voltava exausto da escola. Andando sempre com sua mochila às costas.
Deixava seu uniforme dependurado na cadeira do seu quartinho e ia ajudar nas tarefas da parte da tarde.
Nunca era visto sem nada a fazer.
Desdobrava-se em dez sendo apena um.
Naquela manhã do dia doze. Exatamente hoje. Quando celebra-se o dia das crianças.
Desabava do alto um temporal.
Não era uma chuvica dessas criadeiras que faz sorrir gente da roça que tem pelo seu roçado amor de verdade.
Era sim uma chuva da grossura de um tronco grosso de amoreira serrado em mourões de grande espessura.
Pedrinho, sempre pronto ajudar. Embora cansado de volta da escola.
Trocou de roupa pra não sujar o uniforme.
Vestiu uma calça remendada, pra muitos fora de uso.
Do lado de fora de sua casinha tosca já o esperava a mãe.
Na roça não se usa, para se abrigar da chuva. Isso que na cidade chamamos de guarda chuva. Ou sombrinha para as mulheres.
Quem mora na roça alegra-se com achegada bem vinda dessa água que vem do alto.
Desde que não seja forte em excesso.
Já no pasto, onde suas vaquinhas pastejavam.
Vendo vacas e suas crias tomando chuva; da grossa.
Pedrinho voltou à casa a passos lépidos.
De lá trouxe um enorme guarda chuva. Mais parecido a uma sombrinha de praia. Dessas que barraqueiros alugam aos banhistas.
Entrou por baixo da cerca de arame sob olhares de espanto de sua amada mãe.
Que a ele perguntou sem nada entender daquilo que seu filho estava fazendo: “menino! Onde você vai com esse guarda chuva enorme”?
A resposta veio numa cena linda.
Como as vacas tomavam aquela chuvarada. Podendo ficar resfriadas.
O bom garoto a elas cobria com seu guarda chuva. O maior que havia encontrado no seu quartinho.
Queria ter sido dotado com essa beleza toda…