Naquela madrugada de outubro.
Dia oito segue ao sete.
Seu Placedino, completos setenta e tantos. Ele perdeu a conta de quantos mais.
Parou a contagem aos setenta. Pensando voltar atrás.
Iludindo-se ao olhar no espelho. Sempre a ele perguntando curioso: “seu espelho espelho de todo mundo. Não somente meu. Quando olho pra você e ocê reflete minha imagem. Qual idade o senhor me dá? Mais do que os meus ou menos um cadinho?”
O espelho, que sempre espelha a verdade. Se mente não consente. Mente sim veementemente.
Responde à pergunta do velho Placedino desse modo desajeitado: “vosmecê me perguntou quantos anos lhe dou. Da minha face espelhada não sai nada de graça. Não lhe dou anos. Vendo minha resposta. Se tu fizeres um pix pra mim aí sim. A resposta muda de cara”.
Como o velho Placedino não tinha um tostão no bolso furado e toscamente remendado.
Não deu conta de fazer o pix. A resposta veio sim. Muito mesmo malcriada.
“Olha meu velho. Meu não, de mais ninguém. Desde que você foi chutado por sua dona. E agora vive só noutra morada. E nem sabe nada de coisa alguma. Cozinhar nunca aprendeu por que não quis. Dona Juvência, sua ex mulher, era bem prendada. Cozinheira de forno e fogão. Fazia cada roupa de caimento perfeito em mulheres fora do peso. Na cama não era lá essas coisas. Dizia gostar de sexo. Não com você e sim pensando noutro. Como tenho pena de você vou lhe dar um presente. Embora não seja seu aniversário. Você me perguntou quantos anos lhe dou. Como tu não me pagastes não te direi quantos. Ânus tu só tens um. Anos tua cara cheia de rugas, milhares”.
De fato e não de direito o pobre Placedino separou-se da dona Juvência há um cadinho de tempo bem curto. Mais que menos trinta dias.
O motivo, se a ele perguntam. Responde ter sido por impura incompatibilidade de grana.
Sua ex tinha uma poupança ( não seu enorme traseiro. Sim o que ela aplicava na poupança da Caixa). Uma soma que, se somada subia às alturas de um grande arranha céu.
Seu Placedino dizia-se muito inteligente. Igual QI não tinha nesse nosso mundo inteiro.
Mas, em verdade quem era mais sabida era sua dona.
O desinfeliz, quando marido, levava cada manta…
Dantes, quando morava numa rocinha. Bota prejuizenta nisso!
Quando se metia a tirador de leite. Mal sabedor da razão do produto saído das tetas das vacas ser branco de vaca preta. Se rês (o mesmo que vaca). De três peitos dar ou não a mesma quantidade do seu produto igual a de quatro perfeitos?
O ainda novinho, inda garoto, chamava-se à época Placinho. Quando os pés de jabuticaba davam frutos maduros. Placinho menino subia na jabuticabeira como mico sem estrela. Panhava (panhava mesmo. Não me corrijam, escrevo como quiser) uma bem madurinha. Chupava as mais docinhas e grandinhas. Como tinha muito marimbondo na jabuticabeira e um enxame de abelhas abelhudas. Para evitar briga Placinho propunha aos dois insetos alados: “vamos fazer um negocinho? Tem frutinhas pra todo mundo. As mais doces e maiores ficam no meu balaio. As podrinhas e azedinhas ficam com vocês. Topam”?
Descarece dizer que ele levou centenas de ferroadas na bundinha branca.
Vamos dar um pulo no tempo e passar ao atual discernimento.
Seu, não meu, Placedino e dona Juvência estão separados.
Ele aos muitos anos. Ela três a menos.
As brigas cessaram de ter acesso.
As diferenças de opinião ficaram em paz. Empate de zero a zero.
Na casa da dona dele. Não mais.
Seu Placedino sentiu-se como um canarinho da terra ciscando o esterco do curral. Sem ser encurralado pela ciumeira da antes que pensava mandar nele.
Viu a portinha da sua gaiola aberta e voou. Não pensando voltar ao ninho antigo. Jamais!
Agora vive solitário entre quatro paredes do seu banheiro.
Nesse mês de outubro o velho Placedino assopra mais um tantão de velinhas.
São tantas que se corre o risco de pôr fogo no apartamento apertado.
Por que deixei escrito entre quatro paredes no banheiro?
Trocando em miudezas privada sim. Que fica dentro do banheiro onde mora seu Placedino.
De uns dias pra hoje ele teve uma indisposição intestinal que o levou à insanidade. Bem maior sua própria loucura.
O dez vezes infeliz passa mais tempo no trono que andando nas ruas.
Não dá conta de pagar tantos papeis higiênicos. Tem usando folhas de jornal.
Uma vizinha, a qual cantava sem encantar a fulana.
Cada cantada mais pobre desinspirada que as minhas.
Compadeceu-se dele e fez um bolo de aniversário. Desses que nem criança come e lambe o dedo.
À festa do cumpleanos do Seu Placedino nem eu fui.
Na sala do apartamentinho nem moscas. Mocinhas e panelas velhinhas davam o ar da desgraça.
À hora de assoprar as velinhas o pobre aniversariante teve de ir às carreiras assentar ao trono (latrina, vaso sanitário, privada).
Ali passou da banda ruim.
De volta à sala para assoprar as velinhas mais um infausto acontecido.
Nova enchente de merda inundou a salinha esvaziando o recinto.
O bolo, dado de presente pela vizinha continuou com as velas acesas.
Eu lhes pergunto em dúvida.
“Quem vai assoprar as velhinhas do bolo do velho Placedino”?