Como tem chovido nesse começo de outubro.
A continuar assim o estóico, valente, homem da roça. Quem vive no campo sabe bem melhor que a gente, pessoas urbanas.
Que outubro é época de arar as terras. Dar revisão nas máquinas que têm pela terra em alta estima. Tirar os tratores de dentro da cobertura onde eles se protegem das intempéries.
Depois da terra arada passar a grade nela. Ir sulcando fundo ou rasinho fazendo sulcos onde sementes serão enterradas. E ver, se o tempo permitir. Sorrir a boa gente que vive na sua pequena propriedade. A qual, muitos da cidade não sabem que o alimento vem de lá e não das prateleiras dos supermercados. Que encarece, não graças ao suor que escorre da testa de gente obreira. Pra eles não têm sábados, domingos e feriados. Todos os dias são sempre iguais. Seguem felizes a mesma rotina. Que pouco muda a cada dia.
Acordar ao cantar do galo. Se ele não canta pessoas do campo levantam assim mesmo. Dispostas embora não tenham a mesa posta. Enfeitada lindamente com o mesmo desjejum americano do norte.
O comum é tomarem um cafezinho requentado. O mesmo deixado a ser esquentado na trempe ainda fumegante do velho fogão a lenha.
Se a fome apertar fazer acompanhar desse cafezinho magricela. Um naco de carne de porco guardado na lata de gordura oriunda do capado gordo morto no natal passado sob aplausos da netaiada que passava férias de final de ano na rocinha dos avós. Que saudade dos meus…
Quem vive nas cidades não imagina a trabalheira que dá matar um porco.
A punhalada tem de ser certeira com um punhal bem pontudo e afiado.
O matador não deve ter pena do bicho gordo. Tem de acertar a facada por baixo do sovaco indo direto ao coração sem dó nem pesar.
E nem ligar para os grunhidos do quase defunto que estrebucha soltando espuma pela boca cheia de dentes pontudos.
Depois vem o melhor do rega-bofe. Sapecar o bicho numa fogueira tal e qual uma Joana Darc. Que foi imolada numa quase igual por pensarem os franceses que a linda Joana era uma feiticeira malvada. Não um fadinha como a Sininho cúmplice do Peter Pan. Aquele garotinho que pensava não crescer. Mas um dia o capitão Gancho espetou nele sua mão em forma de gancho e ele chiou de dor.
A seguir o capado gordo. Morto, esfolado, é fatiado em duas metades.
Duas bandas como se diz na roça.
Desse porcão abatido sai linguiça, chorisso. As deliciosas suãs, quatro pernis, lombos e outras carnes mais. Inclusive aquela s que são guardadas em latas nadando afundadas na banha dele mesmo.
Quantas ladainhas, leréias, historinhas pra fazer boi ou vacas dormirem.
O que mais me causa prurido?
Não aquela coceirinha que micuins deixam na nossa pele quando picam.
Nem mesmo aquele prurido gostoso que bicho de pé nos faz coçar sem esquentar cabeça com nosso chulé.
Esse prurido pra mim é odioso.
Me deixa nervoso, irado, com uma vontade imensa de chutar o balde cheinho de leite branco da vaca preta.
Hoje, nessa madrugada chuviscosa, sete de outubro.
As três da madruga saí do meu ap.
Ainda melhor que não me esqueci do pai dos esquecidos (guarda chuva para os entendidos).
Como de rotina dei boa madrugada a minha amada Tipuana.
Mais uma vez ela me desdenhou.
Um dia a convido para um baile no Clube de Lavras. Se ela aceitar pra mim vai ser bom demais.
Pra ela não sei.
Quase onde estou, na minha oficina de médico escritor.
Andando por um passeio molhado. À esquerda subindo em direção a Santa Casa.
Parcialmente coberto por uma marquise e uma manta tosca.
Dormia um sem teto.
Não tive o atrevimento de acordá-lo.
Não sei quem era nem de onde veio.
Como é que pode?
Pessoas, como ele, dormem em passeios, em bancos de praças. E nós, que temos casas pra morar. Camas confortáveis pra tentar dormir. Geladeira cheia de coisas boa pra comer. E outras benesses maiores.
A exemplo meu, que não recomendo pra ninguém.
Sou cuspido da cama em altas horas.
Saio à rua em direções variadas.
No dia seguinte tudo se passa igual.
O que me causa coceira? Me irrita, me ojeriza…
Primeiro- encomendarem-me um texto. Não me peçam tal coisa.
Na minha inspiração mando eu.
A tenho livre como um passarinho que deseja muito voar sozinho.
Não me parem nas ruas para filar consulta. Aqui, no meu consultório, moram o urologista e o escritor. É o lugar ideal para uma consulta na minha especialidade.
Se me conhecem desde menino. Foram meus amiguinhos da Costa Pereira e adjacências. Aí sim. Podem me chamar de Paulinho. Filho primeiro da dona Rute Rodarte e do senhor Paulo José de Abreu. Se não prefiro ser chamado por doutor Paulo Rodarte. E ainda Expedito de Abreu.
No entanto dos entre tantos. Vendo aquele sujeito dormindo debaixo de uma marquise. Protegido por uma manta a qual dei nome de “manta do abandono”.
Dos muitos desabrigados desbarrigados que perambulam pelas ruas de nosso país.
Causa-me intenso prurido. Uma enorme ojeriza.
Assistir à grita dos estudantes de nossa conhecida universidade(UFLA).
Tida como das melhores de todo país.
Naquela balbúrdia de dias atrás. No lindo campus da universidade.
Digladiando-se, trocando insultos, não sei se houveram tapas ou bofetões.
Naquela ruidosa manifestação pós e contras o atual e o futuro governo.
A nossa querida UFLA não merece tal desatino.
Melhor se esses estudantes falantes não fossem tão delirantes.
Melhor se estudassem mais. Se comportassem bem melhor.
Ali eles têm de tudo. Penso eu, embora possa estar equivocado em meu julgar.
Alimentação graciosa ou a preços mínimos. Se têm queixas comam fora.
Estudo gracioso numa bela escola.
Me causou intensa ojeriza essa gritaria ensandecida de dias antes.
Essas palavras de ordens ditas ao sabor de uma revolta fictícia: “abaixo esses fascistas! Queremos nosso presidente atual de novo no próximo governo”.
Com a palavra aquele sem teto dormindo ao relento…
Pena que a essa hora ele deve estar ainda dormindo.
Seria bom se ele pudesse se manifestar.
Acredito que sua fala não me causaria tanto prurido.
Quanto a cena esdrúxula que infelizmente assisti dias atrás.