Meu consultor sentimental

Há tempos pra cá. Na minha nova situação de procura parceira.
Demos um tempo até a volta de outro tempo eu. Já que tanto tempo faz que estamos juntos e resolvemos desjuntar nossa união. Jamais pensaria em me divorciar de minha amada família. Como amo meus filhos que me deram três netinhos de presente. Admiro e respeito muitíssimo essa pequena grande mulher a qual devo muito. Espero quitar minha dívida que deve montar a uma quantia estratosférica antes que meus netos me ajudem a amealhar uma quantia suficiente para pagar a ela tudo de bom que ela fez por mim.
Agora me sinto só. Por mais que tente não aprendo.
Penso não mais ter idade, entrando quase nos sete oito. Para aprender a cozinhar. Lavar roupa nem minhas cuecas sei botar pra lavar na máquina. No tanquinho muito menos. Passar roupa lavada tenho medo de o ferro estar muito quente e vai acabar sapecando minhas poucas roupas. Faxinar, felizmente deixo a uma faxineira muito boa que de repente apareceu no meu novo apartamento.
Viver sozinho tem suas vantagens.
Não ter com quem brigar é uma delas. Paredes não me contradizem. Por mais que as insulte elas nem mudam de lugar nem cor.
Mas, levando à balança. De um lado pesando as vantagens e desvantagens entre uma e outra.
Tenho por mim que antes mal acompanhado melhor ficar dando adeus a ninguém que te aporrinhe.
Minha experiência nesse tipo de vida é bem recente.
Não faz nem um mês que me sinto só.
Dizem que a vida seria insustentável não fossem as mudanças.
Mudar só de roupa não basta. De corte de cabelo, também não.
De mulher é bem mais complicado…
Desde quando nos apartamos. Não apenas de apartamento. Tenho tentado fazer de um casamento falido o começo de uma grande amizade.
Não abandonei minha parceira e nem pretendo jamais.
Se ela precisar de um médico. Mesmo que não seja devido a uma cólica renal. Estou de plantão ao seu dispor.
Se ela carecer de um ombro amigo ofereço meus dois.
Passei sábado inteiro e metade desse domingo na minha casa beira represa.
Se existe lugar mais bonito me indiquem. Se for zero oitocentos melhor ainda.
Aquela vista magnífica da sacada do meu quarto nada mais inspirador.
A companhia que não ladra quase nada dos meus amigos Clo, Bia e seus dois filhotes ainda sem nome. Nada mais repousante e consolador.
Não tenho andado nos meus dois cavalos. Não por não querer e sim por não ter mais um peão para cair ao meu lado numa cavalgada.
Mais três amigas ruminantes, prestes a me fazer voltar a tirar leite. Fazendo-me retornar aos trintanos de pensar que todo médico podia ser fazendeiro. Que bom ver as três novilhas paridas a dar de mamar aos seus gabiruzinhos.
Por estar solitário não tive como botar meu barco e meu Jet Sky na represa. Iria me faltar ajudantes para mergulhá-los na água barrenta da represa do Funil.
Nem a linda piscina me viu entrar nela.
Agora, nessa estada prolongada na minha casa beira represa.
O que me salvou a manhã de sábado.
Foi descobrir no meu amigo caseiro. Meu fiel escudeiro Tom Zé.
Esse sujeito ijaciense. Bom de braço e melhor de prosa. Ah! Se pudesse, quando ele abre a boca. Não pra comer e sim para me dar ordens e conselhos. Se tivesse um zíper, uma atadura de fita crepe. Ou mesmo uma mordaça das grandes. Taparia sua enorme boca e deixaria sua língua presa lá em cima do seu palato duro superior.
Foi ontem cedo que ele se meteu a ser meu “consultor sentimental”.
Sabedor da minha ansiedade. Da pressa que me consome. De sempre querer e não poder ter as coisas a hora que desejo. De não deixar pra depois o que tem de ser feito nessa hora.
Das minhas tentativas malogradas de tentar conquistar uma nova mulher.
Das exigências que tenho feito para encontrar a tampa perfeita da minha privada.
Das minhas tentativas frustradas de repartir minha solidão em duas metades que não precisam ser exatamente iguais.
Tom Zé, sobre Pedroso. Gente boa e bom conselheiro.
A partir de ontem nomeado meu consultor sentimental.
Ele não me deixou retrucar. Só faltou me amordaçar.
E desfechou essa saraivada de conselhos na minha cabeça ocada.
“Me escuta, apenas ouve e não me contesta. Para de cantar moças com sua prosa ruim. Vai mais devagar que a louça é frágil e pode quebrar. Não se exponha tanto. Não diga nunca a uma mulher que gostaria de tê-la na cama no primeiro encontro. Espera o segundo ou o terceiro tempo. Nunca tente alisar suas pernas com sua mão boba. Nem coça o saco ao lado da mocinha que pode não ser mais moça virginal. Não vai beijando na boquinha delazinha. Ela pode não gostar pois está de batom novo. Jamais a convide pra jantar. No primeiro encontro, se ela for novinha e não balzaquiana. Prefira uma burgueria. Se for num restaurante granfino nunca propor a ela dividir a dolorosa. A cama deve ser em última instância. Só se for para dormir ou tirar um cochilo. No escurinho do cinema. Quando o lanterninha vier te indicar a poltrona onde vais assentar. Cuidado para não conferires sua nádega no colo de outra pessoa. As mulheres de hoje não são como as de antigamente. As novinhas usam camisinhas femininas. As veinhas pensam que camisinhas são pra se usar sobre os seios”.
Meu novíssimo consultor sentimental não parou de falar até que a tarde escurecesse. E o dia anoitecesse.
O pior sucedeu quando lhe fiz uma visita a sua casa. Estava com enorme desejo de chupar jabuticaba.
Encontrei meu consultor dos sentimentos brigando com sua nova velha ficante.
Estavam quase às vias de fato sem nenhum direito ele tentava dar um direto na fuça dela.
Ela revidava dando-lhe um pontapé certeiro no traseiro.
Depois disso tudo destituí meu conselheiro sentimental do seu cargo.
Tom Zé voltou a sua velha função de caseiro. Meu amigo, um faz tudo. Um mal necessário a cuidar do meu paraíso rural.
Não mais vai ser meu consultor em assuntos do sentimento.
Nossos papéis se inverteram.
Agora sou eu seu consultor sentimental…

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