Isso ninguém me tira

Hoje gostaria de ter minha Lavras só pra mim.
Talvez tenha me expressado mal.
Depois de uma noite chuvosa. Da minha janela percebi pingos grossos de chuva a despencarem do lado de fora. A rua molhada, uma enxurradazinha ainda escorria junto ao meio fio.
Da mesma maneira de dantes. Arrumei minha cama. Aprendi a fazer sozinho já que hoje vivo comigo mesmo. Olhei o relógio e ele marcava menos dez minutos das três da madrugada.
Tem sido esse meu costume desde tempos curtos a contar de hoje.
Vesti a mesma roupa dependurada no cabide. Desacostumei-me às vaidades de outrora.
Quase mais não me olho no espelho. Se o faço minha intenção não é pra contar rugas. Sulcos que saem dos meus olhos e descem ao lado de minha boca. Não mais faminta como dantes. Nem mesmo para ver de perto olheiras profundas resultados de noites indormidas. Ou mesmo para dizer ao tal espelho: “por favor. Não olhe apenas para meu exterior. Não critique meu sorriso gasto. Não faça pouco caso dos anos que já vivi. Bem sei que menos anos me restam adiante. Não importa. Se algumas portas se fecharam antes pra mim. Outras se abrirão no meu porvir”.
O que da gente não conseguem tirar?
Anos, idade, independente de nossa vontade vem o tempo e nos tira.
Posses, bens matérias, contas bancárias ( polpudas ou não) , uma vez finada nossa vida nem nossos restos mortais podem ir ao banco e tentar retirar.
Saúde, bem de mais valor que eu, como médico e um dia paciente. Se nos tiram por vezes nem os maiores recursos da medicina serão capazes de fazer nossa saúde perdida ressurgir das cinzas e de novo dar lugar a um perfeito bem estar.
Paz, quem me dera. Se a tirarem de mim algum dia. Em meio a esse turbilhão de pensamentos. Dessa hiperatividade que em mim pede guarida. Pra onde irei morar nesse mundo tão conturbado. Se pra todos lugares pra onde pretendo ir só guerras. Armas empunhadas. A espera que um dia finalmente algum pacifista nos acene com a bandeira branca pedindo paz.
Tudo isso pode lhes parecer chover no molhado. Ou tentar deixar enxuto um bloco de iceberg que se desgarrou do pólo norte e vagueia sem destino aos mares do sul.
Na faculdade de medicina. No derradeiro ano, final do curso. Início doutros .
Já que ninguém sai médico por completo após seis anos do curso.
Apenas a faculdade nos habilita à prática em meio expediente.
Uma vez diplomados, inexperientes. Imberbes medicozinhos. Podemos dar plantões em hospitais. Errar seguidas vezes. Dobrando noites, madrugada adentro. Sendo taxados de omissos, incompetentes. Carregando em nossos ombros inda frágeis culpas maiores que não temos.
Essa triste, dura realidade. No pós faculdade formadora de esculápios novinhos.
A medicina abriu suas portas a dois colegas.
Doutor Pedro e Paulo não foram colegas. Mas se graduaram na mesma universidade.
O primeiro, Paulo, recebeu seu canudo na turma de 1974, dezembro. Precisamente dia sete, data do seu aniversário.
Doutor Pedro, mais novo acredito, menos vinte. Ou mais.
Por ironia do destino os dois forjados na mesma especialidade Urologia.
Doutor Paulo, após dois anos se especializando na bela Belo Horizonte. Sempre sonhando com novos horizontes, antes de terminar a especialização tomou novos rumos.
Madrid o recebeu com um friozinho morno. Era setembro na Europa.
Um ano se foi em terras espanholas. Não aprendeu a tocar castanhola nem foi às touradas de Madrid.
Sonhador aquele doutor. Inda portador de um belo topete que hoje não consegue lhe disfarçar a calvície. Tentando pitar sem tragar um belo cachimbo. Nos pés nunca descalços um par de tamancos brancos próprios a usar nos quirófanos (centro cirúrgico) espanhóis.
Pra nossa amada cidade trouxe inovações na sua especialidade.
Sempre presente a todos congressos de Urologia aqui e além mar.
Anos poucos depois de sua chegada. Depois de na infância ter passado férias e feriados nas rocinhas de parentes.
Decidiu investir o que tinha e da sua família numa rocinha que nunca lhe deu lucro.
Vinte e seis anos antes do agora. Já bem maduro, sempre desajuizado.
Caiu de amores pela escrita. Como pela vida no campo da mesma maneira ali deixou a marca de sua botina nas cavalgadas que lhe davam imenso prazer.
Tudo que tinha, os ganhos que a medicina lhe dava. Foi gasto em publicações de livros. Até na presente data conta com bem mais de vinte livros, Espera chegar a muitos mais.
A sua rocinha prejuizenta ainda existe, em partes desiguais.
A primeira, onde passou mais de trintanos não mais lhe pertence.
Foi passada nos cobres a um preço bem camarada.
A segunda, beira represa, inda lhe pertence. É onde ele vai aos finais de semana recarregar as baterias da sua caminhonete que fica parada à porta do seu novo apartamento a espera de aos sábados rodar.
Já doutor Pedro, excelente especialista. Menos sonhador, pés no chão.
Que veio fazer crescer inda mais nossa especialidade.
Investiu certinho seus rendimentos.
Ao revês de publicar incontáveis livros que nunca deram dividendos ao seu colega doutor Paulo.
Passou a comprar imóveis bem mais lucrativos.
Perdeu até a conta da enorme quantidade de apartamentos alugados espalhados por toda cidade. Outras mais creio eu.
Hoje os dois colegas ainda exercem sua nobilíssima lida.
Doutor Paulo em menor escala. Divide-se em duas metades: de médico e escritor.
Dizem que a segunda supera a primeira. Creio ser verdade. Com as palavras meus leitores.
São duas caras de uma mesma moeda.
Doutor Paulo escolheu a menos lucrativa. A da escrita e ficar em paz com sua rocinha tão inspiradora.
Doutor Pedro foi por outro caminho. Bem mais rentável e promissor aos que enxergam o mundo sob um prisma menos lírico e poético. Investidor em coisas mais lucrativas que o faz enricar mais e mais.
Levando aos dois pratos da balança esses dois colegas especialistas.
Doutor Paulo deve morrer primeiro.
Doutor Pedro anos depois.
Se alguém me perguntar qual exemplo melhor a ser seguido.
Qual caminho deve ser trilhado.
Aquele do doutor escritor. Que se sente em paz muito inspirado na sua casa beira represa. Em meio a gente simples da roça com quem muda sua fala erudita. Deixa guardado em seu baú de lembranças seus cinco idiomas em que se faz entender.
Ou na outra face da moeda.
Doutor Pedro, seu colega anos mais jovem. Com a sua poupança mais gorda. Seus investimentos crescendo a prédios imensos.
Vamos ao final da linha.
Dessa nossa estrada chamada vida.
Se perguntarem ao primeiro doutor. O ainda médico escritor.
O que o senhor pensa levar da sua vida?
Ele, eu respondo. E não titubeio em responder: “quando eu tiver de morrer. Já que isso é inconteste e inevitável. Não irei levar minha rocinha junto comigo no caixão. Nem casas ou apartamentos onde morei. Meus muitos livros podem ir comigo à última morada. Espero que eles todos caibam no meu ataúde. No entanto isso ninguém pode me tirar. Meu exemplo seguido ao meu pai e minha estimada mãe. O interesse que meus escritos deixaram nos meus leitores. Minhas andanças pela literatura. Isso espero ninguém me tira.”

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