É o que mais dói

Hoje, treze de outubro. Aqui na minha cidade ainda transcorre mais um feriado.
Até parece que Lavras foi feita só pra mim.
Não sei se penso ser melhor assim. Assado prefiro um frango bem feito. Se possível do meu jeito. Pra comê-lo bem temperado ou fritinho à passarinho. Em pedacinhos miudinhos. Bebendo uma cerveja estupidamente gelada numa de uma garrafa suada. De onde mal se permite ver o conteúdo.
Eu, médico escritor de muita sensibilidade. Que sente dor sem a menor possibilidade. De uma simples topada no dedo do pé faz careta que enfeia inda mais a feiúra que se mostra em minhacara.
Que me enterneço só de ver uma gota de suor despencar do rosto cansado de um obreiro pedreiro de uma obra qualquer.
Que me condôo ao ver uma criancinha sem teto sem poder comer seu doce predileto.
Me causa enorme desconforto. Andando cedinho pelas ruas vazias. Ao ver nas entrelinhas dos meus olhos enxergadores as dores do mundo. Tantas que são e não deveriam.
Nessa véspera das eleições no segundo turno. Candidatos se digladiarem midiáticos tentando mostrar suas opiniões. Ao revés de nos mostrar seus planos para dar rumo ao nosso desgovernado Brasil. Perdem tempo em ataques, ofensas, dizendo impropérios ao candidato opositor. Muitas delas verdadeiras ou mentirosas.
Causa-me enorme pesar ao ver. Nas minhas caminhanças furibundas pelas ruas, estradas asfaltadas, vicinais, poeirentas ou barrentas. Gente obreira à procura de emprego e se iludir com promessas vãs de candidatos. Que batem as suas portas à caça de eleitores. Fazendo de conta que não se importam em entrar naquelas casas humildes. Tomar um cafezinho frio mesmo requentado pouco por falta de gás na cozinha. Uma vez do lado de fora. Pisando duro com seu sapato novo recém engraxado com aquele engraxatezinho menino que dormiu na rua.
Em absoluto não me causa nenhuma dor. Nem contrariedade alguma. O que me aconteceu há dias. Quando, a uma hora inda madrugada. Depois de tomar café numa padaria pertinho de onde moro na atualidade. Um rapaz, o qual conheço de pouco. Sei da sua lisura no trato com as pessoas. Atleta renomado que é. Ao me ver naquela casa dos pães. Respeitosamente me abraçou e me disse não confidencialmente: doutor Paulo Rodarte. O senhor é um ícone em nossa cidade. Pessoa que muitos conhecem não somente seu lado médico. Os mais letrados bem sabem a leveza de sua pena”.
Dói-me inda muito a perda dos meus pais. Perdas outras, de amigos, aparentados, me causa enorme dor.
Constrange-me muitíssim o mal caratismo. Tenho pena dos que não sentem pena dos menos afortunados.
Causa-me prurido na minha pele branca e fininha. Ao ver que, não somente na nossa cidade. Como noutras em nosso Brasil. Fecharem as portas casas livreiras. Bibliotecas sem frequentadores. Cinemas sem frequência. Teatros às moscas. Museus falidos sem patrocinadores a ajudar a conservar restos de nosso passado.
E, nessas ruas apinhadas de pessoas lojas fecharem as portas. Os laboriosos asiáticos de pele amarela inflacionando aluguéis. Ocupando lugar de nossos patrícios que, por não conseguirem vender seus produtos pedem concordata. Não concordo com essa dura, nua e crua realidade. Que não só me ofende a dignidade como me machuca o sentimento.
O que muito me dói é a insensibilidade dos poderes constituídos. Os quais políticos vencedores. Que tiveram nossos votos. Uma vez elegidos fingem que não nos conhecem. Nos fazendo de trouxas nós mesmos que acreditamos em seus propósitos. Promessas vazias que nos enchiam de esperança em dias melhores. Que nunca vieram.
Machuca-me as entranhas. Fere-me os sentimentos. Ao ver de perto ou de longe abrir portas centenas, milhares de supermercados, farmácias, lojas fitness. E ver de portas fechadas, pedindo falência. Livrarias lindamente decoradas com milhares de livros físicos. Pobres deles…
Têm futuro incerto. Um dia serão como dinossauros, peças embalsamadas de museus.
O que mais me dói é a ingratidão, a irresponsabilidade. A incompreensão que grassa como erva daninha pelos jardins da vida.
A intolerância tanto religiosa como a descrença em um ser superior que não se deixa ver em pessoa faz doer muito meu coração e adjacências.
Mas percebo a presença Dele ao meu lado. Quem sabe ditando meus textos. Deixando meus dedos a vontade para digitarem juntos meus infindáveis escritos.
O que mais me dói é comprovar vendo a insensatez daqueles fanáticos que priorizam o fanatismo político e fazem vista grossa as intenções verdadeiras e reais dos opositores.
Pra mim tudo vale a pena se a alma não se apequena.
Agora, nessa hora exata de seis e cinquenta e um minutos. Dessa terça- feira treze de outubro.
Ao invés de me doerem os dedos. A minha coluna que muge de dor por estar vergada sobre meu próprio peso. De estar com meus olhos doendo e lacrimejando.
Não me dói nadica de nada.
Sinto, por dentro e por fora uma sensação maravilhosa de alegria.
Um regozijo enorme por terminar mais uma crônica.

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