Nessa madrugada, um dia depois do seu aniversário. Não que tenha me esquecido dessa importante data pra todos nós. Mesmo que não sejamos lavrenses aqui deixando nossos umbigos enterrados. Pra mim o melhor lugar de sepultar nosso cordão umbilical é debaixo dessa linda árvore mais que centenária. Por onde passei inda pouco. Já declarei o amor que sinto pela bela Tipuana. Até já a convidei para bailar naquele clube ali pertinho. E sabem o que ela me respondeu: “vai se catar seu velho escritor. Se você, na idade que tem. Tiver força o suficiente para me tirar de onde estou. Sem molestar meus galhos ainda rijos. Deixando minhas muletas encostadas a esse banco. Não aquele banco defronte onde seu pai foi gerente e gestor competente. Me levar, com cuidado. Não me arraste por favor. Quem sabe aceitarei seu convite. E iremos dançar o resto da noite uma valsa dolente sob um som não estridente de uma orquestra afinada”.
Deixemos a Tipuana dormir.
Quando passei por ela a pobre estava fazendo meia noite. Eu, entrão, acabei por acordá-la sem querer desejando muito. Ela jogou flores aos meus pés. Junto às flores veio um enorme galho. Para que eu não quebrasse o galho dela acabei me despedindo. Não num adeus e sim até amanhã se eu quiser.
Ruas vazias, ainda meio feriado.
Lavras , aniversariante, no alto dos seus muitos anos. Como se trata de uma senhora muito respeitável. A elas não se deve perguntar idade. Bem sei que muitos mais que meus setenta e seis.
Foi ontem, treze de outubro, uma terça-feira como tantas passadas.
Descendo a rua a passadas lentas. A seguir de uma caminhança furibunda pelas ruas da cidade.
Costume que espero não me desacostumar jamais.
Em pleno feriado esticado com o de segunda.
Num passeio de pouco asseio aqui pertinho.
Descendo pelo lado esquerdo.
Observava o movimento.
Doze desse mês celebra-se o dia das crianças. Entre elas me incluo.
O contínuo vai e vem das ruas me encantava.
Lavras estava em festa. Não vi banda de música a celebrar seus bem andados cento e noventa e cinco anos. Desde que nossa digníssima Lavras do Funil foi levada à categoria de vila. Isso a treze de outubro de um mil oitocentos e trinta e um.
Noutra hora, cento e cinquenta e oito anos quando de vila passou à cidade. Em vinte de julho de um mil oitocentos e sessenta e oito.
Na descida de ontem percebi um monte de pessoas dormindo pelas calçadas. Recostadas a bancos da praça. Muitos enroladas a cobertas surradas e mantas por certo doadas por pessoas caridosas.
Era um cenário comum em cidades brasileiras e menos no estrangeiro.
Dizer a razão disso não me atrevo. Não me sinto capacitado.
Antes da Tipuana, perto de outra árvore irmã.
Não sei se irmãzinha mais nova ou mais velhinha. Já que não lhe perguntei a idade.
Dei com um rapazola cochilando no meio da praça.
Era bem jovem.
Se lhe perguntasse a idade certamente ele responderia, se fosse educado: “meu senhor. Por que queres saber minha idade? Tenho os anos que me convém. Nem mais nem menos de cem. Minha idade só a mim conta. Eu lhe perguntei a sua?”
Seria melhor calar minha boca. O que não fiz de teimoso e curioso de conhecer um cadinho sua história.
Mesmo temendo represália daquele jovem mal dormido continuei minha fala.
“De onde vens? Se não queres dizer tua idade pelo menos me diga, por favor. Tu és de aqui mesmo? Ou simplesmente de passagem (caprichava na segunda pessoa não intencionalmente. A seguir passei à terceira). Você, qual seu nome? Deve ter um, ou não? Tem algum documento de identidade? Votou na última votação? Tem onde morar ou mora na rua? Estuda ainda ou já parou? É usuário de álcool ou droga? Bebe socialmente ou para incomodar vizinhos? Tem família ou é andarilho? Tem-se como pedinte, sem teto, ou uma pessoinha normal? Já pagou cadeia, experimentou a dor da borduna do guarda? Praticou algum esporte antes? Já jogou futebol? Fostes craque ou perna de pau”?
O jovem desgrenhado, sujo, camisa rota aberta ao peito espadaúdo.
Moreno de sujo e acredito branco depois de um bom banho. Hábito que penso não cultivar desde tenra idade. Numa fala macia. Mal abrindo a boca que se mostrou desdentada. Ainda recostado àquele banco que lhe serve de leito. Puxando a coberta por certo dada por uma alma caridosa que por ele passou e nele enxergou um zero seguido de número nenhum. Balbuciou qualquer coisa que me pareceu isso. Até que numa linguagem escorreita.
“Olha, meu senhor. Não sou de dar atenção a qualquer passante. Faço-lhe uma exceção. O senhor me parece pessoa boa. Não sei quem tu és e tu não me conhece e nem sabes de onde vim. Não vou te pedir documento de identidade. Por certo o senhor deve ter o seu e eu nem seinde joguei fora os meus. Talvez tenha sido numa lata de lixo numa cidade onde estive a última vez. Vim do nordeste tentar a vida como jogador de futebol. Nasci numa cidadezinha do Ceará cujo nome até já me esqueci de tanto tempo que faz. Vim de pau de arara num caminhão lotado de jovens como fui. Se pensas que inda sou se engana. Deixei minha juventude se perder nas drogas. Nesse vicio fatídico no qual me enveredei. Era de verdade bom com a bola nos pés e na cabeça. Goleador nato e mal nascido. Não tive infância. Minha falecida mãe me renegou quando bebê. Não morri naquele sexto de lixo por pura sorte. Uma senhora passante me viu chorar e me adotou. Na capital São Paulo fui aproveitado num time de base do mesmo nome. Onde até que fui muito bem. Pena que minha incipiente carreira nos gramados teve um final infeliz. Graças a desgraça de más companhias. Num dia de festa por termos vencido uma aguerrida partida contra um time adversário. Não me lembro qual. Um colega, viciado em crack me ofereceu um cachimbo improvisado. Dentro dele umas pedrinhas. Aspirei aquela fumacinha. Entrei num torpor muito gostoso. A partir de então não parei mais. Hoje estou aqui, meu senhor. Sem lenço, lençol nem documento. Dormindo ao relento sem nenhum alento em continuar vivendo. Como, como os cães restos de sacos de lixo que eles furam. Por vezes a fome aperta e sonho com um bom prato de comida boa. Igualzinha aquela daquela senhora boa que me criou numa cidadezinha do Ceará onde nasci, sem querer”.
E, antes que eu pudesse me despedir.
Aquele jovem que diz ter perdido a juventude anos antes.
Antes que ele voltasse a cochilar naquele banco da praça assim fechou sua fala: “eu era um craque de bola. Um jogador promissor de futebol que bem poderia estar jogando no exterior. A exemplo de outros ícones como Messi, Cristiano Ronaldo e tantos mais. Agora o senhor está diante de um ex craque vivendo numa cracolândia da vida”.