“Quanto mais a gente veve”, bem dizia o cumpade Tião.
“Mais a gente leva burduada nos costados. Coitadin da gente. Nois apanha mais que panhadera de café. Num cafezar enfezado. Se nois discuida e desleixar nosso fio sortinho disbaixo de uma moitinha de café. Uma cobra inxerida pessoarmente peçonhenta vai dar bote na nossa botina furada e morde nosso dedão do pé discarço”.
Não levem ao pé das minhas letras estropiadas esse parágrafo acima.
Sempre, como escritor, cronista e romancista. Tenho pela não somente minha Última florzinha do Lácio, inculta e não menos bela. A maior admiração e apreço. Tenho pela nossa linda língua portuguesa não somente descabida e injustificada admiração. Nutro por ela uma fome de poeta, que não sou. Como tento não maltratá-la tanto como tentam fazer aqui nesse nosso país que aos meus olhos mais parece um continente e não somente um país dividido entre norte, oeste leste e sul. Com uma imensa orla. Pessoas boas ao lado de outras nem tanto. Pena que as piores tentam mandar no nosso timão. Desse barco à deriva quase náufrago num mar onde calmarias nos fazem pensar em sossego. Infelizmente as tormentas nos têm atormentado. Quase nos levando a pique. Espero não depois das eleições que se avizinham.
Que data é hoje? Dezoito de outubro?
Que cai nesse lindo domingo desse mês que sucedeu setembro.
Já escrevi incontáveis textos que tentam celebrar com louvor e reverência o dia dos médicos. Esculápio da mesma maneira nos dava ideia da grandeza e magnitude que um dia fomos. Pena não sermos mais.
Dantes vestíamos branco. Cor da pureza, da delicadeza, da finesse e da leveza de sentimentos.
Hoje esse branco encardiu. Não sei a razão. São muitas à minha concepção não experta.
Inda sou especialista em Urologia. Não em emitir conceitos sobre coisas que não me dizem respeito. Mas respeito aqueles que pensam o contrário.
Quem sou eu para tentar explicar os caminhos tortuosos que a medicina tomou?
Seria a razão de serem forjados médicos a cada esquina como se fossem pães recém saídos do forno de uma precária padaria?
Ou mesmo pela baixíssima qualidade do ensino médico. Vendo escolinhas valitas abrindo suas porteiras deixando passar o gado desembestado, faminto, naquela correria como tenho visto uma manada de gado nelore fugir do laço mugindo de saudade dos bons tempos em que a gente. Esculápios becados, diplomados em boas faculdades. Depois de seis anos debruçados aos grossos compêndios de medicina. Varando noites insones em plantões intermináveis. Mal nos dando tempo de olhar no espelho e vermos. Ao redor de nossos olhos olheiras profundas sulcarem-nos a face envelhecida prematuramente.
Já vesti o branco diáfano da cor.
Não era de nosso costume ajalecarmos. Nem usar gravatas. Nossos sapatos eram brancos como da mesma cor eram nossas meias.
Não tínhamos nossos nomes gravados acima do nosso jaleco : “doutor fulano, cicrano, professor doutor( sem titulação devida pois não tínhamos doutorado nem mestrado)”
Éramos simplesmente médicos bem formados. Não necessariamente bem informados sobre política, futebol ou religião. Já que cada um tinha sua fé. E tínhamos de tomar muitos cafezinhos, por vezes mornos. Nem quentes nem frios. Para suportarmos a dureza de plantões. Pular de hospital a outro na intenção pura e simplesinha de ganhar mais um cadinho. Ainda bem que não éramos inda casados e não tínhamos mais boquinhas famintas a dar de comer.
A medicina, pra mim e pra muitos, perdeu a cor branca de nossas vestes. Perdeu não somente a cor e o sabor.
Agora pululam médicos em cada esquina. Aquele mocinho imberbe, de cara lisinha como bumbum de nenê. Com quem me encontrei na rua, no dia não sei quando foi. Ao me apresentar a ele perguntei: “quem é você? Mora aqui em Lavras? O que faz para ganhar a vida tão novinho que é?”
Ele me respondeu apressadinho, dizendo não ter tempo de falar comigo: “sou doutor Pedrinho. Recém formado em medicina numa faculdade de preço altíssimo.Tive de pedir ao banco um empréstimo bem alto. Agora tenho de me desdobrar em dez sendo apenas um a pagar a conta do banco. Quase nada sei de medicina. E não sei como vou aprender”.
Saí de casa inda bem cedinho. Como de costume.
Na rua fui perguntando, a um e a outro: “o senhor sabe que dia é esse? A data do mês eu sei. Dezoito de outubro, domingo. Mas, nesse dia dezoito, como em outros dezoito de outubros. Qual a data que se celebra”?
Ninguém sabia. Incluso eu.