“Maldita miopia que me fez enxergar o amor onde ele não existe”.
Nem sempre um par de óculos nos faz ver melhor.
Pra mim, que escreve tanto. Perdi a conta de quantas letras, palavras, livros já escrevi.
Dantes não carecia usar óculos na escrita.
Como cronista, escrevinhador. Enxergava além do que outros viam.
Pensava ver o que lindas moçoilas usavam abaixo das roupas.
Me iludia pensando que elas nem usavam calcinhas. Sutiãs eram dispensáveis. Anáguas, combinação, no meu entender imprestáveis, obsoletos penduricalhos. Peças de museus extintas como dinossauros.
Na minha estulta opinião. Não abalizada como uma bela baliza fazendo evoluções frente a uma banda de música. Que saudade da fanfarra onde eu menino tocava flautinha doce na banda do Gammon. Em excursões memoráveis nos apresentamos no velho Maraca. Em Santos também e éramos ovacionados com ovos podres por termos desafinado.
Essa miopia que não nos deixa enxergar o amor onde ele foi plantado.
Acontece em muitos casos. Inclusive o meu.
Era uma belíssima madrugada de domingo na rocinha do meu amigo chegado Zé Taturana.
Depois de uma noite chuviscosa o sol deu as cara bem cedinho.
Poças rasas d’água se deixavam ver na estrada.
Seu Zé, já bem andado em anos. Se a ele perguntassem quantos tinha ele logo respondia, sempre de ótimo humor: “anos tenho oitenta. Ânus apenas um”.
Desde a viuvez seu Zé, Taturana não era sobre. Sim por ter sido picado por uma taturana cachorrinha que doeu tanto que ele não se esquece delazinha. Inda hoje traz a marca do sapecado em seu braço direito. Uma mancha que não desmancha nem lavada com água quente e sabonete.
Ainda bom de cama. Não apenas pra deitar. Dormir ou cochilar. Sempre sonhando ter ao lado uma boazuda como aquela atriz da globo. De nome primeiro não me lembro bem. Só sei que ela de costas enche nossos olhos. De frente também. Boa dançarina e como requebra seu belo traseiro. Ai quem me dera e se pudesse. Já que me falaram que atualmente a bela está separada de um sambista e ainda não encontrando a tampa da sua privada digo a ela que sou candidato. “por favor, minha linda. Reserva pra mim um lugar na fila. Desde que não seja o derradeiro, espero’.
Desde quando perdeu sua amada Josefina, as duas pernas ela tinha muito finas.
Seu Zé, não se acostumando a dividir a cama com ele mesmo. Não tinha nenhuma paixão ou amor pelos travesseiros. Renegava transar com os lençóis. Sempre imundos que estavam cobrindo sua cama de casal onde moravam baratas caríssimas .
Zé Taturana, que tinha posses, uma boa grana escondida dentro do seu colchão de palha mofada.
Não perdeu tempo e foi à caça.
Não caçar de espingarda ou com outra arma cheia de munição.
Caçar mulher, dar um tiro certeiro, tanto podia ser no coração de numa balzaquiana. Numa mocinha não pudica. Numa puta não. Elas não tinham o costume de beijar na boca. Isso pro Zé era pior que a encomenda. De pedir ao motoboy pra trazer pipoca com guaraná gelado. Ele entender tudo errado e voltar com o bagageiro da motoca cheinho de pipoca doce e uma garrafa de kaiser quente.
Não havia cara metade que satisfizesse o exigente Zé Taturana.
Ele, senhor de mais idade. Nascido e mal criado na rocinha dos seus pais. Por quem tinha sonora admiração e respeito. Ambos falecidos anos antes.
Desde cedinho aprendeu que vaca de três peitos não dá leite como as de quatro perfeitos.
Pode dar sim, depende do retireiro.
Sabe de cor e de salto alto a razão de o leite sair branco mesmo a vaca sendo preta.
Se quando a danada da égua vai dar cio o que ela faz?
“Levanta o rabo e pisca a perereca”.
Zé saiu à cata de mulher.
Até encontrar a donzela.
Umazinhas não o encantaram.
Dorotéia não sabia abrir nem fechar porteira. Era uma porteira de tão burra.
A veia Tiana, uma mundana que lhe apareceu numa tarde sombria. Tossia, soltava flatus, chiava asmática durante o ato sexual.
Minuana era uma fulana zaroia. Espinhenta, molambenta. Inclusive não tinha pelo banho ema alta estima.
Duas dúzias Zé Taturana provou, e não gostou.
Até que lhe apareceu na porteira a bela Márcia.
Que mulherão abençoado por ELE e sua bela bunda.
Ela sim tinha tudo e mais um cadinho pra fazê-lo rir à- toa.
Derriére feito no compasso. Cinturinha fininha como pernas de seriema.
Olhar de uma doçura mais que a doçura do mel.
E o beijo da moça…
Desse de fazer grudar as línguas e desentupir a goela.
Foi amor à primeira cruzada de pernas da linda Márcia.
Nem deu pra ver se ela usava calcinha ou sem.
Logo a pediu em ajuntamento.
Elazinha a principio relutou, mas acabou aceitando.
Ao ajuntamento fui intimado a ir.
Desde que fosse o padrinho daquele conclave.
Ao rega bofe estive presente levando um cheque sem fundos de presente.
Não sei se ele foi compensado, pensei.
Depois do sim dito ao padre, pelo Zé e pela linda Márcia. Mais bela que nunca naquele dia.
Ao Zé Taturana perguntei: “ E aí amigo? Enfim encontrou a tampa que lhe faltava? Márcia Bela, com esse belo traseiro, com essa boca beijoqueira. É tudo que você queria?”
Ele me respondeu, ainda no altar, sem se desgrudar da bocona da bela Márcia.
“Olha, não poderia encontrar mulher melhor. Sabe qual sua maior qualidade? Não? Minha linda mulher. Essa que está me vendo beijar? Além de muitos predicados. De saber fazer um macarrão ao alho e muito óleo. De me lambuzar na cama quando fazemos amor. Ela ainda sabe abrir e fechar porteiras como poucas”.
Senti-me um papel ao vento nesse instante solene.
Vou procurar uma Márcia tão bela quanto ela.
Pra dar sumiço na minha solidão…
Será que vou encontrar?