Que nome dar a isso?

Tempos se vão na distância dos anos.
De repente me vi menino.
Era bem novo ainda.
Uns seis, sete, mais um a frente.
Era dezembro em sua metade.
Dia sete assoprei mais uma velinha.
Era um punhadinho apenas a iluminar a sala.
Não me lembro se na sala de jantar ou naquela mesa azulejada da cozinha.
A casa era aquela mesma. Que hoje só mora em meus pensamentos.
Ainda a vejo com meus olhos de criança. De fácil descrição.
Grades desbotadas pela idade. Não sei precisar quando meu saudoso pai a construiu.
Só sei quando me mudaram de Boa Esperança pra onde inda moro. Daqui pretendo me mudar pro mesmo campo santo onde a saudade me faz lembrar dos meus pais.
Aquela casa da Costa Pereira já estava lá. Número um cinco dois, logo a frente do velho hospital. Olhando de frente o velho clube. Não tão velho assim, pois sou um mês mais idoso que ele.
Aquela casa daquela rua onde cresci. Pena não ter nascido ali mesmo.
Tinha atrás das grades de pouca altura. As quais permitiam a um moleque travesso pular sem muito esforço. Um pequeno jardim.
Se minha memória não me atraiçoa, naquela terra de baixa qualidade de nutrientes minha mãe plantava plantinhas de pouca altura e de fácil manejo. Era alguma coisa que se chamava pingo de ouro.
A varanda da minha casa. Não somente minha, do meu irmão Fred, tempos depois veio a Rosinha a enfeitar nossa casa com seu sorriso doce.
Do lado esquerdo dessa linda varanda a gente podia descer por uma escadaria.
Ela nos levava ao andar de baixo. Um quarto enorme era onde as visitas poderiam pernoitar e se banhar num banheiro anexo.
Ah! Já ia me esquecendo de uma partezinha muito especial dessa morada onde passei parte da minha infância entrando porta adentro da juventude.
Era o escritório do meu pai onde a velha máquina de escrever morava.
A velha Facit hoje descansa num quarto superior da minha casa beira lago do Funil.
Quando ali pernoito olho pra ela e penso ela olhar pra mim.
Esse quartinho acanhado na parte baixa da nossa casa tinha uma mesa ampla onde meu pai punha ordem a desordem de suas muitas petições advocatícias.
Era muito gostoso ouvir o tique taque da velha máquina de escrever. Ele era bom datilógrafo. Supimpamente melhor que eu digitando esse teclado negro do meu computador.
Subindo as escadas, as mesmas que descemos.
Entramos por uma porta de ferro, bem enferrujada. Que dava na velha varanda que olhava pra rua a ver os passantes.
A porta principal da nossa casa da Costa Pereira, de ferro tinto na cor da minha saudade. Tinha duas bandeiras que se abriam ringindo tal e qual se podia ouvir o mugido das vacas à hora de se despedirem das crias depois da ordenha matinal.
Entramos sala principal adentro. Calçada de tacos, em bom estado, fora alguns a serem trocados. Um par de poltronas gastas compunham essa sala. Uma mesinha de centro, não sei se de vidro ou madeira.
Foi nessa mesma sala onde pranteei meu pai à sua morte. Depois de pertinaz enfermidade ele se foi em meus braços chorosos já médico feito.
Uma copinha fazia coro à sala de visitas. Ali celebrávamos, em família, os aniversários de minha irmã Rosinha.
Entramos agora na cozinha propriamente dita.
Não tão pequena que não coubéssemos todos reunidos.
Mas como coração de mãe cabe mais de quatro câmaras: dois átrios e dois ventrículos.
Na cozinha de nossa casa cabiam todos nós e mais alguns convivas.
Naquele espaço acolhedor tinha uma mesa de azulejos coloridos. Talvez fossem restos das sobras de alguma casa igual a nossa que meu pai aproveitou.
Daquela cozinha gostosa, que saudade da comidinha que minha mãe, minha babá Tenta ( Hortênsia), pra ser mais exato. Faziam a nos fazer pensar em comer e repetir aquelas gostosuras todas.
Mais um corredor nanico nos levava aos dois quartos.
A suíte era dos meus pais, anexo um banheiro interligado feito depois.
Nosso quartinho era ao final do corredor. Duas camas lado alado.
Acredito que a minha era a esquerda. Do meu irmão Fred do outro lado.
Uma pequena escrivaninha era onde estudávamos. A janela dava pra rua de baixo, de nome Horácio Carvalho.
Nos meus tempos de menino ali era um cafezal. Hoje moram muitas casas inclusive clínicas médicas onde militam bons profissionais de saúde.
Bem me lembro daquela data fatídica e ao mesmo tempo esperada.
Era ainda dia claro. De um clarume ensolarado como amanheceu hoje.
Um ano na cama. Feridas pelo corpo esquálido, escaras rasantes e profundas desfiguravam meu querido pai. Que sofrimento nele via. Em nós também percebíamos.
Minha mãe foi uma heroína junto a ele.
Naqueles idos anos, se existiam cuidadores minha progenitora decidiu assumir o riso de ela mesma cuidar do seu marido.
Seu sofrer durou um ano inteiro. Mais do que necessário, acredito.
Fui presença na ausência do nosso pai.
Paulo José de Abreu morreu nos meus braços. Nem pude dar nele um abraço antes em vida.
Naquele mesmo quartinho, que era nosso. Não na minha cama nem do meu irmão.
Fechei os olhos do nosso pai.
Os meus lacrimejaram como agora.
Que nome dar a isso que me faz chorar a qualquer motivo?
Saudade, sensibilidade, digam-me qual palavra exprime melhor o que estou sentido?
Vou terminar antes que inunde minha sala com essa enxurrada de lágrimas que teimam em cair sem que nada possa fazer para impedi-las…

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