Nessa madrugada de segunda-feira. Céu escuro, chove de pinguinho a espera do segundo.
Nesse começo de semana, quase outubro se despedindo.
Dia primeiro pós eleição.
Aqui cheguei a mesma hora costumeira. Salvo ontem, domingo quando fui. Acompanhado de um dos meus netinhos, Gael. Que entrou comigo no lugar onde a senhora dona Urna Eletrônica se esconde num quartinho clarinho. A salvo de olhares abelhudos de enxeridos votantes.
Foi ele quem meteu seu dedinho noutro teclado. Não esse do meu computador sofredor.
E sim naquele da tal dona Urna que nos mostra o número e a cara de candidatos a mandachuva de nosso amado Brasil.
Estava perto delezinho. Carinha de menino inteligente, bom com a bola nos pés. Melhor ainda dando raquetadas pelas quadras de tênis. Ou até mesmo pedalando sua bike fazendo micagens pelas ruas de onde mora.
Vocês, em meninos, crianças ainda, já experimentaram a sensação de atirar num alvo e alvejar outra coisa não aquela que estava na mira?
Respondo-lhes que eu sim.
Estava caçando passarinho com meu bodoque na rocinha de umas tias avós.
Numa rocinha onde passávamos férias de final de ano com primos de Perdões.
Que saudade daquela baciona onde minha tia Mariana, ou Leonor. Nos dava banho antes de dormir. Muge dentro de mim mais outras lembranças saudosas.
Daquele reguinho d água que fazia aquele carneiro ( não lanudo sim de ferro duro) fazer “tlec tlec”. Levando água pra dentro da caixa de água que era usada limpinha multiuso. A mesma água purinha onde a gente tomava banho. De muita serventia pra fazer comida.
Lembranças gostosas daquelas velhas jabuticabeiras que frutificavam duas, três vezes ao ano.
Por uma singela razão que lhe conto agora.
Nosso tio retireiro, Júlio, irmão mais velho das queridas Mariana e Leonor.
Fez com sua picareta (a ele nunca se poderia chamá-lo disso, como certos políticos com nome sujo na praça). Um desvio nesse corguinho que tocava o carneiro. Como se fosse uma pequena transposição do velho Chico. Para que a aguinha limpinha irrigasse as raízes das jabuticabeiras. Era lindo ver as flores branquinhas que tapavam os troncos. Esparramando-se pelos galhos mais finos. E dessas flores nasciam as frutinhas. À princípio verdinhas. Para pretejarem de vez em outubro. Estendendo-se novembro indo até dezembro, por vezes poucas.
Pena que a gente, de criança, perdemos a graça graças à desgraca de nos tornarmos adultos.
A rocinha da Cachoeira hoje desapareceu pra nós na fumaça dos anos.
Tias Mariana, Leonor, tio Júlio, com sua barba branca, quem me fez tomar gosto pelas vacas.
Vó Mariquinha, mãe deles todos. Pra mim agora mora numa outra rocinha. De mesmo nome Cachoeira. Entre suas vaquinhas, ouvindo o cantar daquele galinho garnisé que, empoleirado na cerca, com sua espora comprida tentando intimidar um galo dobro do seu tamanho. Sendo tido como dono do galinheiro.
Tantas lembranças, uma enxurrada de saudade escorre dentro do meu peito.
Hoje, ao entrar nessa minha sala. Onde atendo meus pacientes.
Ao acender as luzes, estava um breu no entorno.
Pensei ouvir aplausos de um lugar não visto de onde seria.
Apurei meus olhos. Limpei as lentes dos meus óculos.
Foi quando vi de onde vinha aquele frenético bater de palmas.
Eram meus peixinhos aquarianos me aplaudindo.
Os três feiosos cascudos me apupavam.
No entanto a maioria batia as nadadeiras pra mim.
Joguei a raçâozinha de sempre na superfície do aquário.
Os mais espertinhos vieram à tona e ainda estão comendo seu desjejum molhado.
Sem saber a razão dos aplausos, dos apupos não queria saber.
Puxei prosa com um peixinho vermelhinho, que trazia uma faixa escrita assim: “nosso presidente não é ladrão! Somos petistas sim senhor!”
E aquela turminha de bons nadadores continuava me aplaudindo.
Os cascudinhos, feios como tanajura sem bunda. Derrotados como bolsonaristas que se declaravam. Voltaram a se esconder debaixo das pedras do fundo. Eram eles quem me vaiavam.
E quem é tio Chico? Não o velho rio Chico. Esse grande rio que nasce em nosso estado. Atravessa quase metade de nosso país. Fundamental para os nascidos no mesmo nordeste de onde veio nosso presidente. Nessa hora e nesse dia reeleito.
Mais uma vez guinado a ser nosso mandatário pelos próximos quatro anos. Isso se não morrer dantes.
Ainda bem me lembro dele, tio Francisco Rodarte, no seu proverbial cochilo depois do almoço.
Na sua casa parede a meia com a casa onde cresci à Costa Pereira número um cinco mais cinco.
Aquela casa fronteiriça ao portão do LTC. De grades baixas e pingos de ouro plantados no jardim que minha mãe zelava. Encostava noutra casa.
A casa do meu tio Chico Rodarte, marido apaixonado pela linda tia Sonia. Que lhe sobrevive em outra morada onde vez em quando lhe faço uma rápida visita.
Como essa minha tia era amiga da minha mãe Rute. De mesmo sobre Rodarte, de Abreu por parte de meu pai.
Tio Chico de vez em sempre, vestido sumariamente numa cueca samba que nem sabia qual era a canção. Assaltava nossa geladeira sempre farturenta.
Eu, jovenzinho ainda nem fazia BO. Pois bem sabia que ele era notório conhecedor das leis. Que deixou como legado ao seu filho Negis. Além do mesmo sobrenome a fama mais que justificada de bom orador. Um dos mais respeitáveis advogados especialista em tirar ladrões, que se dizem inocentes. Até que se prove o contrário não contradigam meu querido primo. Se ele subir num púlpito e começar a discursar nem o diabo o vence e convence os jurados de que lado está a razão.
Meu querido tio Chico foi meu primeiro revisor. Depois ele se cansou e me suplicou assim: “por favor, meu sobrinho. Você não se cansa de escrever tanto? Me deixa descansar em paz a hora depois do almoço. Volta de agora a vinte, trintanos. Melhor procurar outra pessoa pra corrigir seus senões.”
E acabei indo de tanto ele, querido tio Chico me puxar as orelhas me perguntando se eu tinha a pretensão de ser escritor. Até hoje não sei…
Engraçado, achava graça quando ele me dizia ser sempre lulista. Foi inté taxado de comunista em tempos idos.
Quando candidato a deputado quase foi eleito.
Azar de Lavras e sorte minha. Pois não perdi meu tio querido e ganhei mais um prefácio dele num dos meus livros.
Bem me lembro de quando ele aqui esteve. À minha mão direita, falando alto para que eu escrevesse essas linhas. Quem quiser ler esse introdução ao meu livro de numero dois : “À Sombra dos Ipês Contestações e Devaneios” procure aqui comigo.
Ontem deixei meu querido neto Gael votar por mim.
Esse menino inteligente, com um futuro promissor.
Inda é muito cedo pra vaticinar o que ele vai ser.
Espero que não apenas mais um homem grande. Como eu não sou.
Que tenha a retidão de seu pai, meu filho Stenio.
A garra, a inteligência de sua mãe Vanessa.
Foi ele quem votou por mim no candidato de número treze.
Talvez inspirado pelo meu amado tio doutor Francisco Rodarte.
Que ele nem conheceu.
Luís Inácio Lula da Silva foi o vencedor.
Gael, junto comigo, me influenciou a votar no mesmo candidato da preferência do meu querido tio Chico Rodarte.