Pena, foi apenas um sonho…

Não sonho tanto.
As noites pra mim perderam o encanto.
Elas me metem medo, deveras.
Quando menino, molequinho esperto, de olhinhos vivos e perninhas ligeirinhas. Serelepe moleque. Passando férias de fim de ano na fazenda do tio Zito. Aquela localidade rural se chamava Três Barras. Embora não estivesse presente ali nasceu meu pai e outros Abreus. Hoje todos moram noutra fazendinha de nome Fazenda Céu Azul.
Assim que a noite despontava na sua escuridão.
Euzinho, cercado de primas lindas vindas de Varginha. Se não estou errado era o único varão. Um bendito era o fruto entre as mulheres, meninas ainda.
Fingindo-me de valente, metidinho a corajoso.
Sabedor, pela boca falante do meu querido tio Zito. Que pra gente contava historinhas de assombração e mula de dez cabeças. Pena que ela perdeu as dez ficando sem nenhuma.
Ele prometia a gente. Reunidos no rabo do fogão a lenha ainda com achas crepitantes. Aquele que fosse a tal cruz da Francelina ( era uma cruz assombrada por uma bruxa malvada morta e incinerada com esse nome ).
Ele iria presentear com uma linda bezerrota nascida feita pra vaca leiteira.
Todos nos calávamos. Eu mais ainda. Azar o meu sorte da platéia. Como ninguém se manifestava a favor ou desfavor sendo desfavorável. Uma das primas, sabendo que eu era falso valente. Mal sabia elazinha que no mais tardar dos anos seria eu um contador de histórias. A danadinha levantou minha mãozinha sem que eu quisesse. Fazendo entender ao nosso tio que eu estaria disposto a ir nessa mesma noite a tal cruz. Não tinha como recusar. Inda mais sonhando em ganhar aquela linda bezerra. Que um dia me faria entender a razão de o leite ser branco oriundo de uma vaca preta.
Saía da casa do nosso tio Zito Abreu borrando de medo. Estava um breu do lado de fora. Eu menino ia tateando na escuridão. Alguns vagalumezinhos me acompanhavam iluminando meu caminho. Quando me aproximava da cruz via uma alma depenada se mexendo. Não era a Francelina coisa nenhuma. Era mais uma das minhas ilusões que hoje me fazem tamanho bem. Já que minhas inesgotáveis inspirações me fazem sonhar tanto pensando um dia ser escritor.
Como disse, tanto em criança, pena menino mais não ser. Nessa idade provecta em que cheguei. Espero chegar a mais de cem, desde que lúcido, andarilho, sonhador.
Tenho medo das noites. Não as amo como amo o clarume dos dias. A luz do sol me enche de amor. O frescor das madrugadas me inebria. Acordar cedinho me faz melhor escritor.
Isso de sonhar pertence aos poetas que não sou. Sonhos pra mim são apenas ilusões.
De nada adianta sonhar que nosso porvir vai ser melhor. Os amanhãs nos irão provar o revés.
Pra que sonhar tanto se os entretantos estão aí juntinhos a nós?
De que adianta sonhar com paz. Se guerras se mostram ao lume dos nossos olhos?
Tem por que sonhar com um mundo melhor? Se esse nosso mundo tão lindo estamos fazendo dele escombros, ruínas, montanhas mais e mais reduzidas a fiapos do que elas foram?
Pra que sonhar tanto… Se quando sonho os meus se transformam em pesadelos, sonhos ruins que me provocam atropelos.
Há poucos minutos subia a rua.
Era inda madrugada. Um relógio luminoso me dizia com seus ponteiros irrequietos: “vai devagar veinho. Pra que acordar tão cedinho? Vosmecê não tem idade pra andar sozinho de madrugada. Algum assaltante pode te levar a dentadura, sua bengala, seu andador. Cuidado com os mal intencionados. Talvez o senhor tenha boas intenções de um dia se casar ou se juntar de novo. Mas cuidado com a panelas idosas. Todos dizem que elas fazem comidas boas. No entanto das entre tantas balzaquianas. Uma vez na sua cama, ou na delas. Quando tentar transar tira pro lado as tranças delas. As trancinhas podem engastalhar onde não devem. E tu podes fracassar ao empinar tua pipa murcha. Que não sobe nem com reza mansa”.
Fazia um certo incerto friozinho. Não tantinho como ontem, quatorze graus, à sombra daquele relógio.
Eu subia e não assoviava, na velocidade de tartaruga manca. Não tanto Rubinho Pisando no Barricelo. Nem rápido demais com uma cena triste de nossa vida quando da morte do nosso ídolo Airton Senna.
Foi a terceira vez que a vi.
Estava escuro, mas vi que era ela mesma.
Não sabia o que fazer para acompanhá-la na velocidade mansa de sua bike preta.
Era uma ciclista madrugã como eu madrugão.
Não tive dúvidas, era uma bela moça, mulher, não mais menina.
Elazinha usava um enorme fone de ouvido. Não deu pra escutar qual música ela ouvia.
Seus lindos cabelos eram louros. Não brancos como os meus ralos.
A calça que ela usava era do tipo fitness, bem colada no seu enorme bem feito traseiro.
Naquela hora bem cedinho como gostaria de estar na sua garupa ou ser aquele selim da sua bike.
Pena não ter dado tempo de dizer a ela ou montar ao lado dela na bike.
Tentei falar com aquela belezura mas ela não meu deu ouvidos.
Ah! Se ela me desse tempo. Descesse de sua bicicleta, me desse um tempinho pra dizer a ela o quando a admiro. Como me sentiria nas nuvens como um urubu planando nas alturas aproveitando as correntes de ar pra voar.
Mas ela não parou, se me viu encantado na subida da rua nem se lixou e me senti um lixo naquele momento.
Belisquei-me doidamente, sem saber se aquela moça linda da bike era sonho ou real.
Até agora, nessa hora temprana de seis e dez minutos. Desse dia vinte e oito de outubro.
Será que tudo que vi, aquela moça linda como uma manhã de primavera. Flores despetaladas de um lindo ipê amarelo. Caídas na relva ressequida do meu jardim.
Teria sido apenas um sonho? E nada mais?
Belisquei de novo o teclado desse meu computador.
Ele deixou escrito: “sim senhor. Foi apenas um sonho. Mais um devaneio seu”.

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