Você tá feliz ?

Palavra estranha e ao mesmo tempo bonita essa tal Felicidade.
Dez letrinhas apenas dizem uma infinidade de coisas.
Seu antônimo tanto pode ser infelicidade, tristeza, amargura, estar num momento ruim, e outros tantos.
Uma infinidade de vezes já lhes perguntei : “onde encontrar a tal pessoinha que sorri o tempo todo? Ela tem endereço fixo, CEP, muda sempre, mora nas ruas, debaixo de pontes, viadutos?
Teria ela salvo conduto, passaporte em dia, viaja pra algum país estrangeiro? Navega em mares tranquilos ou soçobra em tempestades?
Seria a tal de qual nacionalidade? Se brasileira por certo, nesses tempos bicudos. Onde a crise arreganha os dentes mostrando ferocidade, imensa ira. Onde se podem ver lojas vazias. Comerciantes intranquilos indo à falência. Quando, como hoje, acordando bem cedinho. Meus olhos inquiridores enxergam coisas que não deveriam. Pedintes de mãos estendidas a mendigar migalhas. Sem tetos dormindo ao relento cavoucando sacos de lixo vendo cães rosnando inquietos preocupados por terem de dividir as sobras, famintos que estão.
Felicidade é aparentada à alegria? Seriam primas irmãs? Ambas sabem sorrir mesmo desdentadas mostrando gengivas rosadas em impensadas risadas a quem quiser olhar?
A gente pode encontrá-la numa choupana modesta? Num barraco dependurado num morro à mercê de um dia. Durante uma tempestade. Ver essa casinha desmoronar morro abaixo. Deixando ao desabrigo famílias inteiras a ver navios encalhados num banco de areia. Pena não ser num cenário paradisíaco numa praia das Bahamas ou no belo mar caribenho.
Teria felicidade cor? Se sim de que cor seria?
Cor de verde mata. De amarelo ouro?
Pra mim de preto, que enseja luto, ela não tiraria do armário uma vestimenta dessa cor.
Muito menos cinza.
Qual seria o sabor da felicidade?
Pras crianças a doçura de um doce de nome brigadeiro.
Pros jovens enamorados o gosto gostoso de um longo beijo bem grudado. Daqueles estalados. Quando os dois pombinhos arrulhantes deixam suas línguas grudadas não querendo desgrudá-las jamais.
Pros adultos adúlteros o sabor colorido de estar com a amante secretamente num quarto de motel. E passa a ter o gosto amaro de fel ao ser pilhado em fragrante pelo detetive a mando da esposa. Que fotografou o ato, tirando retratos que seriam cobrados bem caro a frente dos advogados, quando o juiz vai dar veredicto sobre a partilha dos bem na separação.
No caso dos anciãos o sabor da felicidade. Pra eles se avizinha o dia de finados. A felicidade não tem gosto de nada. Melhor ser dito que, quando ficamos velhos. Bem velhinhos, com nossos dois pezinhos na cova. Penso, quando em idade bem provecta. Sem tato nem nos lembramos mais de quem somos ou fomos. A gente não deve ir ao cemitério acompanhar sepultamentos. Pois, num descuido impensado. Já que não temos olhos na parte de trás. Aparece do nada um desafeto. A cova aberta e nos dá um empurrão adeus. Seu Tonho já era. Virou defunto sem ainda sê-lo sem ainda perceber foi enterrado vivo. De nada adianta gritar. Debaixo de sete palmos de terra escura. Somente os germens poderão ouvir antes de nos comer.
Avizinha-se aquela avezinha de nome dia dos mortos, finados. Fim da linha pra todos nós, vis mortais.
Dois de novembro, dia de finados, quando mortos são lembrados.
Quando o campo santo fica florido. Pena que as flores murcham sobre a lápide quente sob o sol escaldante de novembro. Sorte deve chover nesse enlutado dia.
Voltando ao tema felicidade. Antevendo acima o título “você está feliz”?
Tem gente que acha a felicidade na visita aos mortos.
Sentem-se revigorados a frente dos túmulos onde jazem ossadas, tufos de cabelos de entes queridos. Até derramam lágrimas a desconhecidos…
Essa pergunta feita no começo: “você está feliz?”
De olhos voltados ao nosso Brasil. Espero de coração aberto meu vaticínio não seja real.
Se a coisa está preta se preparem para pretejar inda mais a partir de agora.
Esse governo, que se despede e continua em janeiro por mais quatro longos anos.
Já anunciou cortes no orçamento, medidas restritivas em todas as áreas.
Se nossos mares não estão pra pescaria. Que piranhas vamos pescar no ano que vem?
Só se for piranha de barranco.
Exemplifico: quando, em tempos idos, fui pescar embarcado no Pantanal.
O então piscoso rio Miranda foi onde nosso barco nos levou a pescar.
Até que peguei uns bons douradinhos na correnteza usando molinete emprestado do piloteiro.
Quando esse peixe de escamas não dava peso nem medida tinha de soltá-lo de novo no caudaloso Miranda.
Quando dava peso e medida ia pra panela.
Piranhas glutonas, com suas bocarras cheias de dentes pontudos, eram fisgadas de novo a elas pedíamos que fossem nadar noutra freguesia.
Mas as pirainhas, mocinhas que rodavam bolsinhas no barranco do rio. Que cobravam bem baratinho por uma ficada com a gente. A elazinhas chamávamos de piranhas garotinhas mato-grossenses de vida fácil. Embora não pense que ser garota de programa. Ou puta seja mulher que tenha vida fácil.
Ainda sobre o mesmo tema.
Felicidade.
Em que fase de nossa vida seria mais facial encontrá-la?
Crianças riem à- toa. Choram ao nascimento. Mas logo que são postas no colo da mãe voltam a sorrir de novo.
Quando jovenzinhos sorrimos ao conquistar aquela mocinha que nos deu bola no rela do jardim.
Adultos tentamos encontrar a felicidade quando, casados ou amasiados, desse consórcio vem o primeiro filho.
Pra nós idosos a felicidade é encontrada quando nos lembramos onde está nossa dentadura que dormiu de dentes abertos dentro de um copo cheio d’água.
Foi no campo santo, onde vou estar na próxima segunda.
Passando visita a túmulos de amigos e parentes.
Num deles, onde estava, há tempos sem ver a luz do sol. Um amigo que morreu recentemente por um ataque cardíaco fulminante.
Tive um dedo de prosa com seu retrato posto sobre a lápide de sua sepultura.
Seu nome era Josias. Morreu cedo, bem antes da minha idade.
Eu falava e sua fotografia escutava (imaginava).
“Meu amigo Josias. Aí debaixo você nem imagina a fase ruim que atravessamos. Se melhorar piora. Tem tanta gente vendendo o almoço para comprar papel almaço. Nunca vi tanta miséria por ai e por aqui. Só farmácia, supermercados, loja de chinês, quase nenhuma mais vende. Meus livros então, se amontoam às minhas costas que estão doendo de montão. A tal felicidade, parenta da prima alegria, coitadinha dela. Está mais rala de encontrar que nota de duzentos. Agora dinheiro vivo nem morto acha. Só pix. Você sim, que morreu, deve, com certeza. estar muito feliz, não”?
Antes de me despedir do túmulo do amigo perdido, Josias.
Olhei pro retrato dele. Num é que vi um sorrisão nele?

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