Seria numa maternidade? A mãe das lágrimas deitada num leito de hospital. Depois de nove meses esperando o bebê chorar ao ver sua mãe pela vez primeira e não poder dizer como te amo mamãe.
Seria na rua já que a mãe lacrimejando não pode esconder sua tristeza em ter aquele filho tão esperado. Sozinha, abandonada numa calçada qualquer. Desiludida da vida depois de o pai do seu filho a ter deixado em prantos. Mesmo a ele implorando que não fizesse aquilo.
Seria por ventura de uma desventura. Lágrimas nasceriam em cascata de uma cachoeira que rolou ribanceira abaixo. Depois de uma tempestade que deixou todos em pânico. Pensando ser a hora do final do mundo?
Nasceriam lágrimas de um momento de desespero de uma infeliz donzela. Ao pensar que aquele mocinho. Que ela amava de montão. Mas ele não a amava tanto. Nem um cadinho pequenino. Um milésimo ínfimo do amor que a ele dedicava?
Brotariam lágrimas, entremeadas de um riso incontido. Quando um bom homem da roça.
Seu Manoel, depois de um despertar sonolento. Ao abrir a janela do seu quartinho na casinha onde morava sozinho. Viu sua melhor vaca trazendo seu bezerrinho do matinho onde ele foi nascido. Seu Manoel não teve como conter o choro e de seus olhos brotaram gotas salinas de nome lágrimas. Eram lágrimas não de tristeza . Sim de felicidade genuína.
Nasceriam lágrimas de parto normal? Ou seria preciso internar a mãe das lágrimas num hospital. Rasgar-lhe o ventre fazendo nele um incisão infra umbilical. Incisar a pele. Ir subcutâneo adentro seccionando músculos e aponevroses . Ao chegar ao útero gravídico perfurar sua parede tendo cuidado de não ferir o concepto. E ver as lágrimas do pai, ao lado, ter uma síncope de pura emoção.
Lágrimas podem nascer de pura incontida felicidade. Eu mesmo já derramei tantas que acabei perdendo a conta.
Lágrimas de tristeza vi, nos meus olhos, quando da perda dos meus pais.
De alegria ao ver meus filhos nascerem. A seguir derramei segundas e terceiras lágrimas quando meus três netinhos nasceram.
Outras foram da mesma forma de felicidade inteira. Quando, da maternidade que nomeio gráfica ou editora. Recebi livros de minha lavra, tantos que são.
Foi um dia desses que o garotinho Donatelo achegou-se a mim.
Donatelo não lhe era o nome. Ele se disse chamar assim.
Ele não era mais um garoto. Já foi menino, estudioso, ladino.
Já passou pelos bancos de uma escola. Já se formou no segundo grau.
Inteligente, desgracioso e feinho. Filho de uma mãe sem ter conhecido o pai.
Ele não é fácil de se lidar.
Como eu pessoinha de inteligência dir-se-ia sobrenatural.
Bom papo, exímio no trato com computadores e celulares.
Prestativo extremado.
Sempre que preciso dele ele se faz presente.
Fala mansinho, de choro incontido, de vez em quando aqui aparece vindo do nada.
Eu como ele fazemos de nossas pernas rodas.
Ele até já me ensejou crônicas minhas. Sempre usando como título seu nome:Donatelo.
Em dois lançamentos de livros meus ele esteve presente sempre com sua enorme disponibilidade.
Sorriso sem graça, dentro daquele corpicho descarnado. Mais parecendo um Dom Quixote sem seu Sancho Pança. Donatelo espichou magrinho, pernas longas, pele clarinha como lençol limpinho estendido no varal a tomar sol do meio dia.
Ele não parava de emprego a outro.
De família pobre, não diria miserável. Seu sonho era continuar seus estudos. Graduar-se quem sabe em arquitetura. Sem deixar seu computador sofrer isolado no seu quartinho escuro. Já morando fora da casa paterna.
A derradeira vez que o vi ele morava numa casa em construção, sem pagar aluguel, já que não tinha onde desmaiar morto. Ele mesmo me disse, sempre respeitoso e solícito: “doutor Paulo, moro aqui sozinho. Quem me faz companhia é minha amiga tarântula, a quem chamo Donatela”.
Me consta que ele estava empregado como consultor em informática num ajuntamento de casas que chamam de condomínio.
Mas esse bom trabalho que lhe dava sustento ele perdeu.
Perdeu com ele a chave do seu novo apartamento. Que a ele prometi ajudar na mudança inclusive na compra da mobília nova.
A partir de então ele ficou a lamber embiras. Mais pobre que o desafortunado Jó nos seus piores dias.
Foi ontem, de tarde, que nos encontramos.
Não me lembro onde foi nem a hora exata.
Me preparava para deixar o ambiente onde estávamos.
De roupa trocada, mochila às costas, ia ao meu apartamento.
Donatelo achegou-se a mim enrolado numa toalha.
Lembrei-me. Estávamos saindo da sauna.
Notei-o triste melancólico.
Percebi duas lágrimas escorrendo lentas dos seus olhos.
Não deu pra identificar se lágrimas de verdade ou gotas de suor já que ele recém saiu do forno daquela sauna super aquecida.
Mas ele chorava de verdade. Lágrimas verdadeiras não falsas como notas feitas em casa.
Sem jeito, tentando entender sua tristeza. O que o fazia chorar.
A ele indaguei: “o que está acontecendo meu amigo Donatelo? De onde nascem suas lágrimas? Posso te ajudar?”
Ele me respondeu descendo mais lágrimas dos seus olhos tristes.
“Meu bom amigo doutor Paulo Rodarte. O senhor bem me conhece. Sabe que sou um chorão. Sou um sentimental, como o senhor. Acontece que tenho de sair desse clube que amo tanto ou mais que o senhor ama. O senhor vem aqui todas as tardes. Frequenta academia, nada de vez em quando. Essa Costa Pereira, que retrata tanto em suas crônicas, faz parte do seu passado e vive no seu presente. Minhas lágrimas, que o senhor vê agora, são verdadeiras. Elas não nascem dos meus olhos. sim aqui dentro no meu coração”.
As minhas, naquele instante, passaram a jorrar, em profusão, no mesmo lugar onde Donatelo me informou nasciam as dele.
Onde mesmo? No meu íntimo, no meu cerne que mora no meu amado âmago. Nesse órgão pulsátil de nome coração.