O colhedor de histórias

Desde cedinho Toninho já tinha como certo ser professor.
Nascido e ainda vivendo numa rocinha pertinho de nadica de nada.
Num lugar ermo distante léguas de qualquer cidade.
Menino estudioso, dono de um coração de ouro. Bem comportado na escola que ficava a um tiro curto de espingarda de onde morava.
Toninho, bom menino, melhor filho e neto dedicado ao seu avozinho Tonho. Não perdia um só dia de aula.
Assentava-se a uma carteira bem perto, na primeira fileira naquela salinha daquela escolinha que agora se mudou, deixando um vazio imenso, uma lacuna impreenchível nas cabecinhas ocas de todos aqueles que ali estudaram.
Quiseram os anos, poucos se bem me lembro, de quando o não mais menino Toninho recebeu seu diploma no fim da primeira série do curso ginasial.
Naqueles tempos idos, muitos esquecidos no seu baú de guardados, Toninho via acender-se uma luzinha piscante ao fim de um túnel escuro.
Enfim deslumbra-se ao ver seu sonho quase realizado.
Naqueles tempos perdidos na lembrança, naquela região sem muitos recursos. Onde quem procurava um médico para se tratar de uma doença de maior gravidade, tinha de pegar o caminhão leiteiro. De carona entre os latões sacolejantes. No meio de uma turma que ia a cidade próxima com a mesma finalidade. Em lá chegando era descarregado numa pracinha do centro. Muitos idosos passavam da banda ruim mareados dado ao balanço do caminhão caindo aos pedaços prestes a ser aposentado de tão velho que era.
Toninho, jovenzinho estimado por todos, caridoso e servil. Sempre pronto a oferecer seus préstimos. Aos dezesseis anos conseguiu se formar professor.
Era uma novidade boa naquelas paragens, pois até então nunca de viu um moço dando aulas numa escolinha rural. Toninho foi o primeiro e não mais o derradeiro.
Mas não parava por aí, naquela modesta escolinha perdida no meio de um pasto sujo. Perdida numa encruzilhada que não levava a lugar nenhum. Os devaneios delirantes do mocinho Toninho.
Por amar demais os livros, quando via um deles não desgrudava os olhos até a última linha e a derradeira palavra.
Toninho, professor tido em alta estima não somente pelos seus alunos e outros que dele ouviam falar sempre palavras encomiosas.
Aos vinte passou a dar trabalho as suas pernas.
Deixou o carro velho de lado. Doou a sua bicicleta semi nova a um dos seus alunos mais dedicados. E graças as suas pernas passou a ficar de bem com vida.
Tornou-se um andarilho como eu. Era irrequieto como eu sou. Não tinha parança como eu me considero.
Aquele que procurasse o professor Toninho não o encontrava em casa. Na escola, assim que terminava a última aula dela azulava.
Andando pelas ruas, sempre de olhos abertos observando o cotidiano, olhos atentos e esbugalhados. Toninho, como eu, não perdia um só detalhe do que via.
Enxergava até o que não via, olhava tudo até nas entrelinhas.
Como digo ser eu.
Foi hoje cedo que passamos um ao lado do outro. Numa rua aqui da nossa cidade.
Toninho ia por um passeio e eu no sentido contrário.
Ao vê-lo distraído, admirando o entorno, próximo a uma escola de bom conceito formadora de homens de bem. Falei alto o seu nome “Toninho”!
Ele parou de repente, sem saber que era eu. Tirou seu fone de ouvido da mesma marca que o meu.
Vi antes que ele puxava conversa com um passante, sem saber quem ele era.
O mesmo fato acontece com minha pessoa. Igualzinho somos, ele e eu.
Parecemos até almas gemelares.
O que no une, Toninho e eu?
Ambos somos colhedores de histórias, cronistas observadores que enxergam mais que os demais.

Deixe uma resposta