De que adianta?

Junho amanheceu soltando fumaça branca pela boca.
No feriado de quatro de junho a temperatura descia aos quase zero graus e não subia mais do que cinco.
Lá pelas oito um solzinho esquenta frio punha sua carinha de fora a fazer inveja à azulice do céu.
Nesse feriado, quando se celebra dia de Corpus Christi, data essa que ocorre sempre numa quinta feira, exatamente sessenta dias após o Domingo da Páscoa, data essa onde ocorrem procissões e feriados municipais ou estaduais, pelo calendário do governo federal esse dia é considerado ponto facultativo nas repartições públicas federais.
Mas dias normais e de folgar dava no mesmo para o infeliz trabalhador o Zé Filipinho, solteirinho ainda não por falta de vontade de ajuntar os panos com uma fulaninha que lhe desse bola e não lhe enchesse a sacola. E sim por falta de grana mesmo.
Zé não tinha parança em emprego. Não por falta de desejo de labutar. Muito trabalho não o intimidava. Nem um cadiquinho de nada já que Zé Filipinho era pau pra todo tipo de obra.
Desdobrava-se em dez sendo apenas um.
Numa hora era retireiro, noutra se metia a padeiro. Nas poucas horas de ócio fazia bico bicudo como um tucano come pinto, servindo de servente de pedreiro e carpinteiro também.
Zé Filipinho era solteiro como dito antes no parágrafo de cima.
Aos mais de trinta, quase desdobrando a serra chegando aos quarenta ele já se sentia capaz deixar na terra unzinho meninozinho ou meninazinha linda seus genes os quais desejava que não fossem tão deletérios como os dele.
Naquela gelada madrugada de quatro de junho Filipinho acordou mais tarde que o costume.
Abriu a janela do seu quartinho pra mais que insalubre de tanto mofo e baratas caras correndo pelo assoalho sem asseio. Olhou pro céu e deu de si mesmo que já era passada da hora de tirar leite das vacas pretas que davam um leitinho branquinho sem que ele soubesse a razão.
Ao chegar ao curral quase caiu de costas no chão duro atapetado de bosta de vaca mole melhor que fosse dura.
Naquela hora ingrata ali chegou, sem se anunciar, seu patrão resmungão.
Aquele velho caduco e ainda por cima eunuco deu-lhe um ponta pé bem doído no seu traseiro e o fez ver navios num porto seco a ver as ondas se debruçarem na areia da praia e naquela horinha maldita despediu-o em injusta causa.
Zé de repente se viu na rua bem amargurado.
Sem emprego, sem dinheiro, sem a sua amada dona De Outra Hora, já que não tinha hora pra mais nada. Zé, perambulando pela cidade desconhecida, com uma tabuleta no peito onde se lia: “me ajuda por favor. Sou trabalhador, não petista e nem comunista e não estou na lista negra nem branca. Não sou um zero a esquerda e não sou direitista nem dentista”.
De nada adiantavam suas súplicas naquele semáforo apagado. Os carros passavam apressados e nem abriam as janelas com medo que Zé fosse um ladrãozinho pezinho descalço e fosse surrupiar seu relógio que não era nenhum Rolex de maior valor.
Dias se ajuntaram nos calendários da vida.
Zé Filipinho ia de mal a pior. Como não tinha teto nem telhado onde se abrigar dormia onde podia. Ora fazia hora numa esquina movimentada e dormia naquele mesmo passeio sem nenhum asseio. Outra hora tentava se esquentar da geladeira que fazia frio na rua dormindo sonolento sem nenhum alento a porta de um restaurante onde matava a fome com os restos que lhe davam.
Nessa madrugada gelada de quatro de junho, um frio de fazer esquimó desistir da pescaria naquele lago gelado com medo de o gelo partir e ele partir pra dentro d’água e ali morrer congelado.
Zé Filipinho, lá pelas tantas da madruga,tiritando de tão gelado, batendo queixo duro e escondendo o nariz entre suas duas mãos frias e azuladas de tanto gelo. Sem ter onde morar e nem jantar. Sem emprego e nem trabalho que lhe desse sustento. Sem nenhuma perspectiva de dias melhores.
Nisso apareceu uma turma da prefeitura oferecendo grossos cobertores bem sujos e usados quase mofados.
Zé acordou sem ter dormido direito, com seu pezinho esquerdo apoiando nele se ergueu assustado e assim disse à equipe da prefeitura que lhe hipotecava ajuda.
“Vocês querem me dar uma coberta? Só isso para me amparar do frio? E, se pensam que vou dormir um soninho gostoso enrolado nesse velho cobertor se enganam. Não quero nada de graça. Sou trabalhador embora desempregado. Preciso sim não apenas dessas cobertas muitas rotas e de segunda mão. Careço sim de um emprego decente e que de novo, como bom brasileiro, seja reintegrado ao mercado de trabalho e que possa consumir e não ser consumido pelas injustiças que grassam por aí”.
E Zé Filipinho terminou sua fala com isso: “de que adianta me darem essa coberta? Careço mais a sua cobertura e dos poderes constituídos para que eu possa de novo ser um cadinho feliz”.

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