Me segura os dois pés

Parece sandice, beirando a insanidade, loucura varrida mesmo, nesses dias frios de junho em seu comecinho. Deixar a cama, enrolado em cobertores quentinhos, ao lado de minha dona, a mandona dona Rosemirian, melhor chamá-la de Rosa. Uma rosa ainda linda embora já tenha passado dos muitos janeiros.
E euzinho, médico escritor Paulo Rodarte, dantes fazedor de arte, hoje artista da arte escrevinhatícia. Perdoem-me os entendedores dessa nossa última Flor do Lácio Inculta e ainda bela mesmo por demais agredida em sua belezura. Quando insiro novos vocábulos que penso enriquecer mais ainda nosso lindo idioma. Cometo atrocidades e leviandades em assim proceder fazendo neologismos não Roseanos como fazia o grande João Guimarães Rosa. Os meus chamo de Rodarteanos.
Euzinho, miudinho e encolhidinho como minha esposa, modista de tesouras cortantes e cheinha de entusiasmo pelas modas que mudam ao sabor dos tempos. Quando visto uma calça nova e digo a ela que a tal está comprida e carece encurtar a bainha. Elazinha, atenta ao que entende de melhor qual seja a moda, afirma que não é a calça que está comprida e sim eu que tenho encolhido.
Pra me fazer mudar desse costume só me atando ao pé da cama, com uma corrente bem grossa presa a um cadeado não enferrujado como eu, somente desse jeito vou ser um sujeito mais acomodado. Mais comportado que quando menino levando bronca da linda professorinha que só por que olhei por baixo da saia delazinha fiquei de castiguinho sem poder assistir aos desenhos desanimados daqueles lindos tempos de antão.
E como tenho estado presente a tantos óbitos e falecimentos de tanta gente mais velha e a maioria mais jovem que os meus setenta e seis, beirando os sete no final do ano.
Cansei-me de ir a velórios velar defuntos que nem sabem que ali estou.
Estou cansado de ver viúvas derramarem lágrimas de crocodilos gigantes sorrindo ao engolir sem mastigar as presas com seus dentões pontudos e grandões.
Enfarei-me ao presenciar outras madames chorando, não a perda dos seus queridos amantes e sim por não mais desfrutarem dos seus ricos rendimentos já que a principal guarda a chave do seu cofre a sete chaves e não abre seu cofrinho pra ninguém mais.
Estou cansado de tanto prantear mortos, deixar escritas páginas e mais pensamentos, enaltecendo, deixando escrito em letras grandes e miúdas: “como era bom o tal fulano de tal que pensava ser o tal”.
Certo é, quando se morre todos os defeitos são esquecidos. As virtudes poucas, se o morto as tinha, serão aumentadas até chegarem ao cume da montanha mais alta do mundo. Já os defeitinhos, minúsculos e miudinhos, jamais serão lembrados nunca mais nessa vida que ora termina e noutra hora recomeça.
Não há como nos livrarmos da última morada.
Hoje moramos ou numa espaçosa residência, ou num barraco dependurado no morro sujeito a ser desmoronado e cair, durante uma tempestade avassaladora, despencar lá em baixo entre arranha-céus que quase arranham os céus. Num futuro incerto vamos mudar de morada e acabar morando no céu entre os anjos, também chamados querubins, anjinhos da nossa guarda de honra que os tenho aqui dentro do meu coração.
Tenho meus dois pezinhos bem seguros dentro desse meu par de tênis que comigo anda mais que notícia nada boa.
Segura o pé da no mesmo que refrear a sofreguidão e segurar no guidão da bike para não despencar ladeira abaixo.
Ou mesmo ter mais calma e sossego para não ficar desassossegado à hora de tentar dormir.
No trânsito tirar o pezão pesado do acelerador e desacelerar para não causar acidentes naquela encruzilhada da estrada que não vai te levar a lugar nenhum a não ser a morte.
Nas comprinhas compridas de final de ano segurar o pé da no mesmo que segurar a gastança do seu bolso para não ficar endividado bem antes do final do mês que mal começou.
Em sinopse segurar o pé quer dizer moderar, diminuir a intensidade de algumas de suas ações. Muitas delas intempestivas e apressadas demais mesmo nesses tempos bicudos quando o dinheiro anda em falta e as dívidas caminham afoitas na pressa do afogadilho dos afogados e afobados.
Já fiz setenta e seis aninhos.
Bem sei que a perspectiva de vida nossa já ultrapassou em passos rápidos mais alguns anos. Dizem as estatísticas que a do brasileiro gira em torno da minha idade- 76.
Estarei no meu desfecho? No ponto final da minha caminhada nesse planeta tão lindo e tão agredido e cheio de feridas não cicatrizadas?
Seria a hora de passar numa funerária e encomendar o meu caixão?
Ou deixar pronta uma fogueira, já que estamos em junho mês das festas juninas, onde, na tal fogueira verão meu corpo ser incinerado como uma Joana D´arc foi há tempos consumidos pelos tempos que lá se vão?
Tenho de segurar a inquietude dos meus pezinhos andarilhos.
Senão terei de ir com eles dois, calçados com meu par de tênis, esse que estou usando, dentro do meu caixãozinho branco. Melhor que ver esse tênis que amo tanto ser queimado numa fogueira de São João.

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