Já fui menino, uma criancinha linda, alourada, pele branquinha como sal ao sol, de altura que hoje não chega a metro e mucado, menino feliz até cinco aninhos, quando pra essa cidade fui levado, levado da breca, nos ombros esguios do meu pai.
Já se foram muitos anos desde quando vi a mocidade dizer adeus a minha pessoa.
Naqueles idos janeiros, eis que esse mês primeiro do ano deixa entrar fevereiro, euzinho, conhecido por Paulinho da minha mãezinha Rute, aos dez aninhos não me continha de alegria ao passar dezembro de ano, com notas boas e mostrava ao meu pai, naquele boletim onde minhas notas não iam nunca abaixo de sete e chegavam aos dez facilmente. Salvo na não amada aritmética, em português sempre era elogiado por minha professorinha, pois fazia redações escorreitas e já inventava palavrinhas inserindo-as em nosso rico vocabulário. Nada pra mim tinha uma beleza superior a nossa derradeira flor do Lácio Inculta e Bela. E quando se aproximavam as férias de final de ano, tinha pra mim dezembro inteirinho, seguido de janeiro inteiro e metade de fevereiro pra folgar e passar dias maravilhosos na fazendinha de minhas tias avós Mariana e Leonor.
Naquela minha juventude não transviada, naqueles tempos idos não se tinha o costume de usar drogas tão nocivas. A maconha era fumada as escondidas. Desconhecia os malefícios da cocaína e sua parenta próxima a heroína. Droga essa que nada tem de heróica, pois pode destruir famílias inteiras. E levar o viciado ao autoextermínio.
Assim que vi assoprar em minha direção a fase adulta, no meu conceito a mais produtiva quando ajuntamos uma boa soma de dinheiro e junto a nós passa a dividir a cama outra pessoinha a qual juramos compartilhar bons e maus momentos. E nos piores, quando nos desentendemos e o diálogo escasseia as brigas incendeiam nosso lar. Melhor um virar pro canto a continuar a rusgar.
Já no mais tardar dos anos, quando a velhice nos fizer surdos de andar claudicante, olhar em direção ao vazio do nada. E nossos filhos que dizem amar-nos com todas as forças do seu coração. De repente nos retiram à força daquela casa que edificamos em nossa mocidade com tamanhas dificuldades. Na intenção de naquele lote vazio construir um arranha céus que tenta tocar o céu onde em breve estaremos.
Aí, mais uma vez de tudo que tínhamos nada mais nos resta. A não ser a saudade dos velhos tempos.
Em que éramos jovens e um dia crianças. Brincando descalços na enxurrada enlameando-nos da cabeça aos pés. Chegando a nossa casa envergonhados de nosso atraso e da nossa roupa imunda da cor de barro. E, temerosos da reprimenda de nosso pai entramos porta adentro na surdina fazendo-nos de surdos aos seus xingos.
Daqueles tempos bons quase nada mais resta a não ser nossas lembranças guardadas em nosso álbum de fotografias amarelecidas pelos tempos. Algumas delas tenho às minhas costas. Euzinho, meninozinho lourinho, vestido num terninho azul marinho, nos meus pezinhos um sapatinho branco e com meu dedinho indicador, com se fosse uma arma apontada pro nada, disparava um tiro certeiro em direção ao meu futuro naqueles verdes anos ainda indefinido.
Em outro retratinho estava eu amparado por minha querida tia Cida Rodarte, já falecida como sua Irmã minha amada mãe Rute, que nesse sete de junho aniversaria, naquela Boa Esperança onde nasci, mas tenho minha Lavras meu berço onde agora e sempre irei morar. Até me chamarem a morar no infinito.
Numa outra fotografia se podia ver euzinho peladinho dando de comer as galinhas brancas. E quase perdi minha fimose que só veio a ser perdida anos depois pelo bisturi afiado do doutor Silvio Menicucci pai da nossa prefeita.
Numa quarta fotografia, nesse enorme porta retrato que tenho a minha frente, vejo minha amada e não esquecida mãe em plena juventude, antes de conhecê-la, lindamente vestida, usando um suspensório da mesma cor de sua saia e uma camisa branca logo abaixo de seu rosto lindo.
A derradeira foto, nesse mesmo porta retrato gigante mostra-nos a todos nós três. Eu de bracinhos alçados ao céu, nos ombros do meu pai. Ele, num terno cinza, magrinho, quem sabe no começo de sua carreira no Banco do meu Brasil, todo garboso, ao lado de minha mãe, vestida num lindo vestido branco, num local onde atrás se via um arvoredo, talvez na mesma Boa Esperança de antão.
De quase tudo que tinha nada mais me sobram senão doces recordações.
E como é bom recordar. Lembranças pra mim tem o sabor doce de um beijo açucarado que minhas avozinhas me davam quando eu as tinha ao meu lado.
De tudo que ainda tenho teimo em não me desfazer de tantas coisas boas que ainda penso ter pela frente.
Contento-me com um pouquinho só. Desde que não me impeçam de pensar no passado. Nas lembranças tantas que não deixo de me imaginar menino. Lourinho, peladinho dando milho as galinhas branquinhas naquele galinheiro telado que penso ser na horta dos fundos daquela casa onde passei parte da minha infância ao lado dos meus queridos pais.