Pequeno Gael, você e meus outros dois netinhos, Theo quase um neto grandão. Dom logo vai passar a minha altura, são pra mim um tesouro, pois tenho netos como pedras preciosas, diamantes brutos a serem polidos pela vida, coisinhas lindas pelos quais tenho o maior chamego.
Não sei por quanto tempo tenho a acompanhar suas trajetórias, ver de perto seus sucessos e tentar consolá-los em suas derrotas.
Pequenino Gael, que vai com certeza ser uma grande pessoa no tempo certo. Que pena não estarei ao seu lado nas vitórias, como quando levava seu pai, meu filho primeiro era vencedor nas aguerridas partidas de tênis não somente aqui na nossa cidade como em localidades vizinhas. E, ao falar com ele ao telefone quando em terras do Tio Sam, na tentativa inglória de fazer dele um tenista profissional, quando ele treinava naquele centro tenístico por onde passaram campeões, a exemplo são citados a linda russa Sharapova, Pete Sampras e outros mais. Ao telefone, com a voz embargada de saudades a ele perguntei: “meu filho, é isso que deseja pra sua vida futura? Tem chances de se profissionalizar”?
E ele me respondeu com uma vozinha distante: “não meu pai. Foi ótima a minha oportunidade de treinar aqui nos States, mas a vida de um tenista profissional requer, além de muita dedicação, de um talento enorme, apenas um entre milhares serão campeões. Eu volto ao meu Brasil amadurecido, melhor homem quase feito, e um tenista de primeira linha que vai ser advogado ético e sobretudo, um filho agradecido”.
Meu pequeno neto Gael.
Meu grande filho Stenio.
Bem me lembro daquela vez, anos nos dizem faz um tempão, quando, numa reunião entre amigos, você, antes de ter como filho lindo essa criança não menos linda de nome igual a um tenista francês que se despede das quadras nesse Roland Garros que estamos assistindo, comentou não sei se em tom de pilhéria: “não é fácil ser filho de pai famoso”. Coisa que nunca fui e a ele respondi em tom de seriedade: “não é fácil pra mim ser pai de um filho decente, caridoso, competente no que faz e faz bem feito”.
O que dizer a você meu filho, marido exemplar de minha norinha gauchinha estudiosa menina mãe do meu netinho Gael, que pena me corrói por dentro, desse lar abençoado não despontar para a vida mais uma tenista menina a fazer duplas nas quadras com eu de um lado, Gael meu parceiro, seu pai do outro lado e meu saudoso pai Paulo José de Abreu com quem disputava animadas partidas em dupla nas quadras de terra batida naquele clube aonde ainda vou no cair das tardes com imenso prazer.
O que vou deixar escrito a você meu filhote grandão. Nesse 28 de maio, quase junho chegando, dia esse que amanheceu ventoso e não frio ainda como se anuncia o inverno mostrando seu hálito gelado. Data essa que você, meu filho amado aniversaria, mesmo não demonstrando todo amor que me consome as entranhas. Raras vezes te abracei e te disse carinhosamente nos ouvidos pra somente você escutar: “como admiro sua seriedade, sua erudição, sua competência na mesma profissão de seu avô, meu pai, por seu livre arbítrio escolheu ser defensor intransigente e inteligente das leis, não um advogadozinho porta de cadeia como pululam por aí maculando a nobre estirpe dos causídicos que atuam nos foros como meu menos saudoso tio doutor Francisco Rodarte.
O que vou deixar escrito a você meu filho Stenio, cujo nome primeiro fui eu mesmo que lhe dei, naquele dia primeiro que você veio a conhecer a imundície desse nosso mundo. Sei que você tenta limpar a sujeira em que pisamos com suas pegadas idôneas, com seu par de tênis ensinando jovens a praticar esse esporte pra mim dos melhores, aquele que exige mais dedicação e erudição.
O que seu pai não famoso como você disse naquele dia entre amigos. Diria a você, que tem pela advocacia o mesmo trato honesto como foi meu pai escrevendo na velha Facit suas petições inspiradas e escorreitas. Naquele quartinho modesto naquela casa da Costa Pereira que não existe mais apenas mora nas minhas lembranças eternas.
Diria hoje, vinte e oito de maio, dia do seu aniversário, meu filho querido por todos incluso por mim e sua mãe. Que a gente bem sabe da sua idoneidade moral e do seu carinho pelos mais necessitados. Quantas vezes presenciamos suas atitudes corretas inspiradas na leitura consciente de Nietzsche, o mesmo nome que batizou seu amado cão labrador que hoje jaz sepulto na represa de Camargos juntinho ao meu querido Border Collie Pirunguinha.
Deixo escrito a você Stenio, espero que Gael um dia possa ler essa crônica em voz alta pra mim mesmo enquanto ainda possa escutar sem aquele aparelhinho que permite aos de audição debilitada. Enaltecer as inúmeras qualidades do seu pai que assopra um montão de velinhas menos que as minhas setenta e seis.
Finalizo deixando escrito a você meu filho STENIO, em maiúsculo sim como você merece, nessas bem traçadas linhas onde escorrem os mais puros sentimentos. Todo meu apreço e admiração pela pessoa boa que tu és.
Se pudesse, e meu tempo permitisse, me alongaria mais em dizer-lhe tudo que me vai por dentro.
Bem sei, como seu pai, que você não quer presentes nessa data especial pra todos nós que o amamos tanto mesmo não demonstrando em atos e bravatas.
Gael, que tem o pré nome de um tenista que no ano em curso se despede das quadras.
Que você siga o exemplo de retidão do seu pai meu filho Stenio.
É o que posso lhe deixar escrito meu filho primogênito. Não apenas e tão somente no dia de hoje, e nos outros tantos que teremos pela frente.