“Quero não!”

A vida escorria numa mansidão de dar inveja ao cara que vive numa imensidão de correrias, sem parança no seu dia após dia, dando pontapé no que via pela frente, sem sequer pensar no deixou pra trás, dizendo a todos com quem se cruzava: “corre meu amigo, não para pois detrás vem gente indolente”.
Nesse ínterim aquele senhor, na altura dos seus muitos anos, se contar quantos são ele não se irrita pois bem sabe e diz aos seus amigos e repete aos seus desafetos: “olha minha gente. Já deixei de contabilizar anos. Não mais faço anos nem asssopro velinhas. Eu e minha velhinha amada dona de mim é o que pensa ela. Mas eu não sou somente dela e de todas elas que me aceitam na cama não apenas pra dormir”.
Deram-lhe o epíteto de “Tô de Bem com a Vida”, em boa hora seu nome de verdade seja Jenésio com G e não com J.
Isso de mudar de vida ou de endereço, mudar de CEP, não era com seu Genésio.
Acorrentado naquele lugarzinho perdido no fiofó do mundo, aonde quem chega por certo errou de caminho. Ali tinha o umbigo soterrado no pé de uma bananeira que já deu cachos enormes.
Meio não, inteirinho acostumado a tirar seu leitinho quentinho assentadinho naquele tripé chamado por ele jocosamente: cuidado pra não cair, se assim acontecer e a vaca assustada de primeira cria chutar o balde e vosmecê cair o pezinho do tal banquinho pode enfiar no seu rabo.
Mas seu Genésio não tomava jeito nem com reza mansa.
Dormia a mesma hora das galinhas poedeiras ou em plena choca. Ao seu ladinho direito a pessoinha direitinha da sua dona roncava em altos decibéis.
Levantava preocupado com a vaca peituta, por ele chamada Danuza, que estava prestes a parir.
Ela era o seu xodó. A melhor vaca do curral. Quase uma novilhota ainda, mas parecia uma vacona produtora de cinquenta litros de leite frio só na primeira ordenha. Nas outras repetia o enchimento de dois ou mais baldes.
Tomado seu cafezinho magricela, como ele, mal acompanhado de uma broa de milho maduro dura e mofada que nem os ratos comiam com seus dentões pontudos.
Como estava uma madrugada friorenta de dar coceira a um esquimó esquiando no pólo norte seu Genésio encapotou-se mais que o costume. Por baixo da sua calça manjada que saía do cabide andando sozinha, o Tô de Bem com a Vida ia direto ao curral.
Assaz apoquentado com sua melhor vaca citada e bem falada no parágrafo acima.
A vaca Danuza já havia expelido sozinha, sem ajuda de uma parteira, boa parideira que se mostrou, uma linda bezerrota a cara do Seu Genésio. Até o focinho era igualzinho só faltava nelazinha o par de óculos de muitos graus.
Aquele tirador de leite da vaca preta que da leite branquinho não sei por que, na hora sorriu na sua banguelice desdentada, mostrando suas gengivas rosadas.
Não continha a sua satisfação por ser pai avô daquela lindinha bezerra que como a sua amada mãe deveria encher dez ou mais baldôes.
Ali, e não aqui na cidade, seu Genésio se sentia com um rei no seu trono, sem ser ameaçado de ser destronado do seu reinado.
A sua rocinha era pra ele um paraíso. De uma belezura de fazer cantarolar as olheiras de qualquer unzinho metido a besta da cidade.
Dali não se mudaria jamais. Não trocaria aquele pedaço de pasto sujo, um sarandi danado e enfezado, com uma infinidade de cercas pra remendar, nem que a porca grunhisse como a dona Eunice Irmã do seu Enedino também conhecido por seu Ladino, um velhaco que dava nó aperreado em pingo d’água.
Foi num sábado retardado que com ele troquei de ideias.
Apeei na sua rocinha antes que o galo cantasse para não acordar seu Genésio da dona dele.
Peguei os dois deitadinhos agarradinhos fazendo não sei o que.
Nem me interessa dizer a vocês.
Esperei um cadiquinho para puxar prosa com ele.
Seu Genésio se pôs de pé esfregando os olhos remelentos numa rabugentice só.
“E aí veio, continua morando nesse lugar num é? Agora sou corretor imobiliário, compro vendo e troco qualquer coisa de lugar. Tenho uma proposta a te fazer. Foi por isso que vim nesse fim de mundo imundo. Quer fazer uma troca comigo? Uma catirazinha simplesinha, uma permuta, um escambo, uma troca como melhor entender. Te ofereço uma linda fazenda lotado de gado de uns tantos alqueires de terra nua e crua. Ou um apartamento na Vieira Souto juntinho a praia do Leblon onde ocê nunca foi. É pegar, lavar as mãos ou largar de ser bobo que sei que tu és”.
Seu Genésio coçou a pioenta, espantou os piolhos, deu uma fungada na cacunda da sua dona e respondeu mal educadamente, pensando na sua vaca recém parida com quem tinha um causo de amor e paixão sem igual: “quero não, daqui só saio dentro de um caixão.”
Tá certo ou num tá?

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