Essa mania de passar horas e outras os pais comprando figurinhas, os filhotes abrindo os pacotinhos a verem quais são repetidas, depois colar naquele álbum difícil de completar aquelas figurinhas de jogadores famosos e desconhecidos que irão disputar a copa do mundo.
Tem sido a febre bem alta do momento. Eu mesmo tenho gastado fortunas que não tenho comprando pacotinhos pra meus netinhos. E ainda não olhei uma a uma as tais figurinhas. Desconheço quem é aquele ou aqueloutro. Nos meus tempos idos, no meu álbum de figurinhas figuravam as carinhas de Pelés, Garrinchas, Zicos da Gávea, Tostões que valiam milhões, e outros jogadores que hoje jogam peladas no céu.
Desde algum tempo tenho o costume de andar pelas ruas usando o que tenho de melhor em segundo lugar, em primeiro fica meu cérebro irrequieto. Quem ocupa o lugar mais alto do pedestal onde ficam os campeões? Minhas pernas equilibradas nos meus sofredores dois pezinhos. Que me fazem andar mais que canela de cachorro vadio.
Digo, en passant (de passagem num escorreito português de aqui mesmo), que sou o decano da Urologia aqui na nossa cidade, essa Lavras que amo tanto. Não sei se ela corresponde a minha paixão. Já que paixão não correspondida dói como um punhal nos fere o coração e não nos mata naquela hora e nos deixa sofrer por dias a perderem de vista.
Aqui apeei nos anos idos de um mil e desconheço qual ano foi.
Passarinhei vinte anos sem dormir quase nenhuma boa noite de sono. Operava nos três hospitais e voltava a eles quando minha presença era pedida de joelhos das operosas enfermeiras postados no piso duro das enfermarias para que euzinho reoperasse meu paciente impaciente que se levantou sem ser permitido e deixou a sonda entupir de tantos coágulos que não saíam pelo orifício estreito da sonda uretral que ele usava no pos operatório imediato de uma cirurgia difícil de próstata hipertrofiada.
Essas incontáveis noites insones me fizeram ficar como hoje estou, dormindo quase nadica de nada e acordando em plena madrugada para aqui estar a essa hora.
Como o tempo apaga nossas memórias.
As pessoas se esquecem de vultos importantes de nossa história.
Mas conservam a memória afiada e não se esquecem dos tais influenciadores digitais que não influenciam nada de bom a ninguém.
Quando, andando pelas ruas como sempre faço, paro um passante e a ele pergunto com meu site paulorodarte.com de prontidão: “o senhor ou senhora sabe me indicar um bom urologista nessa cidade? Estou velho e preciso examinar a minha próstata”.
A pessoa a quem fiz essa pergunta, como não me conhece acaba respondendo desse jeito educadamente: “ah sim. O senhor vai por ali, dobra esquina aqui pertinho e encontra o consultório do doutor Fulano que pensa ser o tal. Ele é muito bom mesmo e já operou meu pai. ”
A seguir abro minha página na internet e me apresento como o doutor Paulo Rodarte, médico e escritor de várias obras literárias, graduado em medicina na UFMG naquela turma boa de 1974.
A pessoinha inquirida no meio do passeio, pois se ando nas ruas os carros me atropelam, ao reconhecerem esse interlocutor que não é locutor, me olham de cima abaixo e me respondem surpresas: “o senhor é o doutor Paulo Rodarte, mesmo? Pensei que tinhas morrido ou se aposentado de vez pra sempre. Verdade, o senhor operou o avô do meu tataravô que já avoou pro céu faz um tempão. Nossa, ao te ver me pareceu ter visto um assombração.”
Como tenho mais um livro editado entre tantos a serem vendidos. Muitos encalhados, quase mofados nas prateleiras dessa estante atrás de mim.
Na intenção de vender alguns deles aqueles com quem me cruzo nas ruas.
Com minha pasta manjada dependurada no meu ombro forte.
De vez em sempre paro alguém com essa prosa ruim perguntando aqui e ali aos homens de bem ou nem tanto desse jeito desajeitado numa fala veloz como um raio: “quantos anus você tem?”
A pessoa, via de regra, responde cinquenta e cinco ou mais ou menos anos ( lembrem-se falei depressa anus).
Me apresento como médico especialista em urologia. E ainda por cima escritor.
Abro minha pasta cheinha de livros novos e velhos.
Explico educadamente que, quando a pessoa passa dos quarenta e cinco ela deve fazer o toque sem retocar a maquiagem naquela posição esdrúxula que Napoleão perdeu a guerra.
Quando a pessoa não me vira a cara, e se mostra atenciosa com esse velhinho meio ou inteiro doidão.
E entende meu chiste e não fica zangada como a maioria dos entrevistados.
Tendo vender meu produto que se chama livro.
Se ela compra tudo bem. Se não que mal que tem?
Voltando ao titulo acima- vai que cola?
E a pessoa, que não é descolada compra meu livro e ainda elogia dizendo ter gostado de mim e dos meus livros, sinto-me como o mais feliz dos mortais, prestes a me tornar imortal.
Sonhar não faz mal e só muito bem…