Pra nós, madrugões assumidos e não consumidos por muitas horas de sono.
Que saímos da cama e de nossa morada antes de outros ganharem a estrada.
Que nem bem as madrugadas assinalem quatro horas já estamos de pé, de cara lavada, dentes escovados, cabelos penteados, roupas vestidas as mesmas da semana passada, despedimo-nos da esposa ou aquela que ainda dorme ao nosso lado, seja no frio ou intenso calor a rotina é sempre a mesmice costumeira, essa supracitada.
O tarde pra gente, que pensa que o dia começa cedinho e termina a mesma horinha de sempre. É comer qualquer coisinha antes da hora do almoço. Nosso desjejum é sempre frugal.
O meu café da manhã se compõe e se decompõe no meu intestino dessas iguarias: “duas bananinhas cortadas em pequenos nacos, um litro inteirinho de leite das vaquinhas pretinhas, não sei a razão de o leite sair branquinho. Uma pitada generosa de Malthodextrina. Tudo isso batido no liquidificador sem sequer me provocar nenhuma dor. Tomo aquela mistura de uma só vezinha naquele copo gigante aproveitando o ensejo tomando meus remedinhos. E aqui chego ligeirinho a fim de começar bem a semana e o dia inspirado como tenho sido.
Voltando ao título titulado mais acima, nunca é tarde, como tentar explicar a vocês o que penso sobre esse assunto.
Antes tarde do que nunca. Sabido dito popular.
Aquele que pela primeira vez o escreveu devia estar muito inspirado a suspirar num lugar magnífico.
Deus ajuda a quem cedo madruga, num é?
E ELE tem me ajudado desde que passei a me entender por gente.
Assim pensava de cabeça feita meu amigo Zito Vaca.
Por que vaca? Podem me perguntar?
Explico a seguir, espero que leiam até o fim.
Zitinho, ainda menininho pequeninho, nascido e mal criado na rocinha que foi do seu avozinho e elezinho passou ao filho que ainda é pai do Zitinho.
Aos seus doze aninhos enrabichou por uma menininha sua vizinha de nome Minnie (me desculpem, troquei os nomes dos personagens principais). Muito parecida aquela ratinha namoradinha do camundongo Mickey.
E eles não só acordavam bem cedinho como deram a patada inicial no namorido, ele aos quinze e elazinha aos quatorze.
Naqueles verdes anos aquela relação foi apenas mão na mãozinha dela, um afagando os pelos do outro. E nem ainda ficaram pelados. Assim que o garotinho Mickey fez dezoito e Minnie três a menos, numa matinha feita matel Minnie acabou perdendo o selo da sua castidade, ela em baixo de um cupim morto e Mickey montado nela.
Não carece dizer que o pai da Minnie, ao saber que sua filhota havia sido desvirginada por sua própria vontade e não fora estuprada, exigiu ao pai do Mickey que ele e ela ajuntassem os panos.
Foram-se anos em meio a milhares de desenganos.
Mickey e Minnie, no começo tudo corria as milhares de fores coloridas.
Depois a relação degringolou-se e azedou de vez pra sempre.
Aos setenta e seis, na festa de aniversário Mickey começou a assoprar as centenas de velinhas na cozinha e terminou entre tapas e tabefes na sala de visitas.
Foi um pandepa (existe essa palavra ou fui eu quem a criei?) . Até hoje não sei.
Aquele consórcio matrimonial começou mal e agora está bem pior.
Tanto Mickey e Minnie não se toleram. Ele aos setenta e seis e elazinha aos setenta mais três.
Mickey diz aos seus amigos que dorme com uma inimiga que só falta comer seu fígado.
Minnie vomita os mesmos palavrões insultuosos.
Quando um chega a casa o outro foge as carreiras como o demo quando vê a cruz.
Entre ofensas, xingamentos, lamentos de ambas as partes, discussões acaloradas que nem um ventinho do ventilador da conta de atenuar. Aquele convívio estava prestes a terminar.
Foi nesse final de semana que estive de olho no olho esquerdo do velho Mickey.
Ele estava pitando um paiero apagado à porta de sua morada. Dentro da casa felizmente não estava Minnie briguenta até com a própria sombra.
Fui eu quem puxou prosa com ele. Tentando entender o imbróglio.
Sabia, na contramão das ilusões perdidas que aquele casamento estava afundando como o Titanic soçobrou em águas profundas no Atlântico norte. Aquela relação conflituosa estava por um triz ou risca de giz. E me disseram ainda que Mickey estava de olheiras profundas na bunda linda de uma vizinha viúva de fresco com muita lenha pra queimar e seu fogo nunca iria apagar.
“E aí velho amigo, como ta tu? Dona camundonga vai bem ou menos pior? Ocês entraram num acordeom ou ainda vivem como gatos e sapatos furados na sola? A sua relação num tem jeito não né, num é melhor cada um caçar seu cantinho sem cantar e brigar mais”?
O velho Mickey, não esse mouse que uso no teclado do meu computador, me lembrando a sua idade provecta de setenta e seis, quase sete, terminou sua fala me dizendo laconicamente sem mentir: “tá difícil suportar as macacoas da minha mulher. Não aturo mais a Minnie nem ela a mim. Estou quase chegando nos oitenta, falta só um cadinho. E tô apaixonado pela bunduda da minha vizinha que enviuvou há um cadinho de dias apenas. E ela me da bola e tem uma bolada no banco. Eu aos setenta e seis, quase sete, estaria velho demais para começar nova vida ao lado de outra”?
Pensando e repensando cá comigo.
Seria não! Nunca é tarde demais para recomeçar e poder respirar uma brisa fresca das madrugadas…