Descrença

Dizem, com enorme sapiência, que a gente só acredita naquilo que se descortina aos nossos olhos.
Mesmo assim descreio de tudo aquilo que meus olhos vêem.
Dantes, em meninozinho ainda, cria naquele senhorzinho meio gordinho, já bem passado de certa idade, tendo sua cara roliça coberta por uma barba nevada, vestindo uma roupa vermelha bem apertada na sua barriga, que vinha da Lapônia, um país bem distante do nosso viajando num trenó puxado por renas aladas e aqui chegava depois de uma longa viagem entrando pelas chaminés quase ficando entalado no conduto daquele cano estreito com seu saco gigante cheinho de presentes a dar as crianças.
E euzinho era uma delas, bem pequenininho, ávido por chegar a véspera do dia vinte e quatro para vinte e cinco. E eu mal pregava meus olhinhos de tanta ansiedade esperando, no dia seguinte, desembrulhando aquela montanha de presentes deixados pelo bom velhinho debaixo daquele pinheirinho todo enfeitado de bolinhas coloridas. Aquela bicicletinha de rodinhas amarelas ou aquele patinete deixado escrito naquela cartinha manuscrita cheia de senões ao papai Noel no qual cria de verdade.
E, com o passarinhar dos anos, vendo minha infância sendo devorada pelos anos famintos, deixei de acreditar naquele bom velhinho gorduchinho.
E, depois de certa idade, já naquela idade batizada de aborrecência, entendam adolescência, pois entendo que os adolescentes só dão trabalho aos seus pais. As minhas descrenças iam somente aumentando.
Acabei descrendo do que diziam as pessoas. E nem vendo mais, com venda nos olhos, meus olhos enxergadores acreditavam no que viam.
Via um fantasma com cara de poucos amigos. E, ao abrir mais meus olhos percebia que aquele fantasminha era deveras um lençol branquinho depois de lavadinho estendido no varal por minha mãezinha a espera de que o sol o fizesse secar.
E minhas descrenças continuaram vida afora.
Uma vez adulto feito tantos desfeitos me desencantaram.
Acordava bem cedinho na intenção de trabalhar como médico formado inconformado com a falta de bom atendimento a saúde dos menos aquinhoados pela sorte madrasta.
Ia de hospital a outro nosocômio. Não tinha parança nem noites de bom sono.
Foi então que minhas descrenças na natureza humana aumentaram mais ainda.
Existem pessoas boas e as que dizem ser boazinhas como certos políticos que, as vésperas das eleições aparecem como assombrações na casa dos possíveis eleitores prometendo emprego decente aos seus familiares. Se eleitos satisfeitos com os ótimos ganhos recebidos pelos cargos os quais pensam ser vitalícios viram as costas as promessas feitas em campanhas. E se derrotados pior ainda. Dão uma banana bem dada e dizem impropérios aos seus afetos e desafetos.
As minhas descrenças continuaram vida afora até a essa hora em que cheguei.
Desde aqueles saudosos anos, vinte e seis somam amontoados no meu calendário.
Há inexatos vinte e seis anos meu pai faleceu em meus braços.
Depois de pertinaz enfermidade ele se fez ausente naquela casa que já não existe mais somente em minhas lembranças mais ternas.
Foi nesse dia enlutado que deixei escrita a minha primeira crônica de nome REQUIEM A UM PAI SEM LIMITES.
Depois não parei mais.
Hoje elas contam mais de vinte mil escritas. Com a de hoje uma a mais.
Mais de vinte livros editados entre coletâneas de crônicas e romances.
Quantas despesas tive com essa mania de escrever e publicar e lançar livros.
Não contabilizo cifras e sim decepções ao esperar pessoas que diziam estar presentes aos meus incontáveis lançamentos e suas promessas não foram cumpridas e suas falas eram só papo furado.
Meus mais de vinte lançamentos, quando esperava ter a casa lotada mais e mais me desiludia.
E como da trabalho, como de um obreiro pedreiro terminar uma construção, tijolo por tijolo, laje suspensa abaixo do telhado. Ao final de um tempão, finda a obra, o pobre pedreiro e seus ajudantes nem podem entrar na casa nova. Ficam à espera de os novos donos os convidarem ao um cafezinho somente. E se cansam de esperar, pois o convite não vem.
Hoje, depois de amontoar setenta e seis velinhas no meu bolo de aniversário.
Depois de ter escrito um número infinito de crônicas e seis romances.
De ter essa trabalheira todinha de deixar aos olhos dos leitores essa montanha de livros.
De acreditar nas palavras falsas dos pseudo amigos, da onça eles o são, que dizem estar presentes aos meus lançamentos e não comparecem em pessoa e nem ao menos me procuram aqui para comprar esse ou aqueloutro livro.
A minha descrença nos seres ditos humanos aumentou soberbamente.
Creio sim na fidelidade e na verdade que não dizem os animais, mas eles todos, mesmo não dizendo em palavras nos seus olhos vejo a pura verdade…

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