Só se for de muita precisão

Ontem estive gastando sola do meu tênis novo andando pelas ruas da cidade.

Como de rotina minha caminhonete branquinha limpinha fica estacionada defronte ao meu prédio aqui pertinho nesse beco sem saída por onde subo nas madrugadas a cada manhã.

Nessa minha andança não tão longa quanto as corridas que fazia e pretendo voltar a fazer subindo morro e deixando outros bem atrás. Na intenção de deixar com meu contador os documentos ajuntados para que ele possa declarar minha renda mixuruca no ano que não deixou saudades tamanha falta de dinheiro circulando na praça.  Como não sabia a exatidão onde era aquele escritório fui pedindo ali e aqui o endereço do tal. Confesso não ter sido fácil encontrar aquela porta fechada e ter de interfonar várias vezes até que uma alma caridosa fizesse a caridade de abrir aquela porta pra mim.

Documentos entregues e pé nas calçadas também conhecidas por passeios sem muito ou nenhum asseio.

Batendo pernas com meus pés juntos desci a rua de muito movimento aquela hora tardia.

Deparei-me, com meus olhos inquiridores, com muitos vendedores nas lojas bocejando de sono a espera de fregueses que nas lojas vazias de pessoas e lotadas de mercadorias esperavam impacientes compradores entrarem e não apenas pescoçarem produtos e tirarem do bolso dinheiro ou fizessem pix para desovar tamanha quantidade de mercadoria.

Não percebi movimento nenhum de fregueses dentro das lojas. Em contraste gritante ou mudo com o número considerável de caminhantes pelas ruas. Com a grana curtinha, com a crise que bafeja nas cidades, pessoas somente compram mercadorias de extrema precisão.

O dia das mães se avizinha chegando de mansinho no próximo domingo.

Como não mais tenho a minha costumo chamar minha querida esposa de minha mãezinha; embora muitos digam que ela, de aparência tão novinha mais parece minha filha.

Joãozinho, menino esperto e educadinho, perdeu sua amada mãezinha aos cinco aninhos.

Desde então foi criado, e bem, por sua avozinha.

“Que menino bom”, diziam na escola e todos que o conheciam.

No dia de ontem, quando estava na metade do meu trajeto entre aquela rua movimentada onde deixei os documentos relativos a declaração de renda com o contador já bastante atarefado com outros que já estavam entregando seus documentos na mesma intenção minha. No meio do caminho não tinha uma pedra e sim esse menininho de nome Joãozinho.

Notei-o olhando,  com seus olhinhos claros, a vitrine de uma loja onde estavam expostas roupas de mulheres. E como elezinho admirava um especial vestido branco feito por uma especialíssima modista. Era com certeza um artigo de alto custo e de ótima etiqueta usada pela granfinagem da cidade.

Parei um cadinho ao lado daquele menino que me chamou a atenção não sei por qual razão.

Talvez, devido ao meu tino observador de escritor doutor, ele me trouxesse inspiração para um texto que por certo iria nascer nalgum dia.

Dei-lhe um afetuoso abraço sem sequer conhecê-lo.

Ele, a princípio assustado e a seguir, por ter me apresentado através do meu site paulorodarte.com, mais tranquilo e seguro. Segurou minha mão e me confidenciou que desejaria dar de presente a sua avozinha, já que não mais tinha sua mãe ao seu lado. Aquele lindo vestido exposto na vitrine daquela loja elegante bem situada naquela rua movimentada da minha amada Lavras.

Antes de me anunciar à balconista daquele estabelecimento, bem acompanhado daquele menino que me pareceu ser uma pessoinha da prateleira de cima.

Já que gostaria de ajudá-lo na compra daquele caro vestido.

Para me decidir pela compra antes ao Joãozinho menino fiz um breve interrogatório.

“Menino, percebo que você tem bom coração e se trata de gentinha, além de educada, deve ser bom de escola. Vi que está admirando esse lindo vestido né? Tem a intenção de fazer dele presente a sua mãe? E você me parece não ter como comprar essa linda vestimenta, pois ele deve custar os olhos da cara, não? Embora não conheça sua mãezinha ela deve ser linda como a minha que está no céu a orar por nós. Quem sabe posso te ajudar.  Tenho cá comigo meu cartão de crédito e posso comprar esse vestido a prestação. Basta que me respondas a essa pergunta que lhe faço agora: “vocezinho gosta muito de sua mãezinha como eu ainda gosto muito da minha, não é isso”?

Joãozinho me olhou nos olhos e me respondeu meio tristonho: “e como eu gostava muito de minha mãe. E ainda a amo muito apesar de não mais poder abraçá-la e dizer o quanto gostava dela e como ela me faz falta. Minha mãezinha morreu quando eu tinha cinco anos. Não sei quem é meu pai, pois ele nunca deu as caras e nunca procurou a gente. Fui criado e bem por minha querida avozinha de nome Marieta. A qual chamo carinhosamente de tia Eta. Hoje passamos  necessidades pois nossa única renda vem da sua aposentadoria que mal alcança um salário mínimo. A gente só compra alguma coisa se for de muita precisão. Não podemos nos dar ao luxo de fazer extravagâncias. Vivemos os dois num barraco no alto do morro que quando chove nem dormimos direito com medo de nosso barraco despencar lá em baixo. Esse lindo vestido de alto preço não faz parte do nosso orçamento. Minha querida tia Eta bem sabe disso. O maior e melhor presente que gostaria de dar a minha mãezinha  seria de novo tê-la ao meu lado e dizer a ela  o quanto sinto sua falta e quantas saudades sinto dela”.

Despedimo-nos com um longo e afetuoso abraço. Acabei não comprando aquele vestido pro meu recente amiguinho Joãozinho.

Aquela rica vestimenta realmente não era de muita precisão…

 

 

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