Tenho por mim que milagres acontecem desde que tenhamos fé nalguma entidade superior que não se deixa ver, mas existe.
Zé Cebola, que em verdade se chamava José de Arimatéia qualquer coisinha mais.
Alcunhado desse apelido Zé Cebola, por ter em sua rocinha uma enorme plantação de Allium cepa, uma planta cultivada pelo seu bulbo que cresce em camadas sendo usada como tempero. Sendo de fácil cultivo e exigindo solo bem drenado rico em matéria orgânica e pelo menos uma insolação de seis horas ao dia. E a colheita da cebola própria ao consumo se da em três a cinco meses depois do plantio.
Zé Cebola, Cebolinha em menino, por mais que tomasse banho não perdia o cheiro daquela planta que cultivava numa enorme plantação nos fundos de sua casinha.
Cebola ia à missa aos domingos num arraialzinho que ficava pertinho de sua rocinha vestindo a sua melhor beca que se tratava de um terninho azul marinho bem manjado por ser o mesmo com que se casou e logo se separou em prantos da sua amada Dorotéia. Que mulher bonita e mais que elegante aquelazinha. Uma fulaninha mal falada nos arrabaldes devido à fama de mulher dama. Que dantes de conhecer o Zé Cebola rodava bolzinha nas ruas de baixo meretrício.
Doroteiazinha se perdeu aos doze aninhos. Dizem ter sido um priminho o primeiro a nela enfiar o piupiuzinho já bem grandinho. Depois desse incidente infantil nunca mais elazinha se deixou tocar por qualquer unzinho. Ensimesmada por ter sido violada na sua violinha tão prematuramente ainda imatura longe de madurar.
O consórcio entre Zé Cebola a Dorotéia pouco durou. Aquele odor fedido de cebola nele impreguinou e nunca mais o deixou. Esse não foi o único motivo da separação, já que corria as mil bocas que Dorotéia, já na lua de mel, nele meteu um chifrão do tamanhão daquele de um alce dos maiores.
Zé, a partir de antão passou a morar na própria companhia a qual repartia com dois cães mansinhos e uma maritaquinha mudinha.
E ele aprendeu a cozinhar, a lavar sua roupa suja, faxinar a sua casinha, dormir sem roncar ou soltar flatus.
E o Zé Cebola dizia aos passantes: “viram. Nada melhor que prosear com as paredes. Elas não te retrucam nem falam mal de você pelas costas. Desde que Dorotéia me deixou, me apunhalando pelas costas, aprendi a fazer amor comigo mesmo. Pra mim basta sonhar que os devaneios se tornam realidade”.
Aquele era ano de eleições. Outubro se avizinhava rapidamente.
Candidatos apareciam do nada naquele lugar ermo e vazio. Gentinha que nunca deu as fuças por ali pedia voto aos não devotos e nem devotados que nunca votaram dantes.
As estradas que tinham de enfrentar os moradores daquele lugarejo estavam em péssimas condições. Quando chovia muito os carros atolavam no barro grudento. Quando a seca mugia os mesmos encalhavam na poeira.
Um dos candidatos ao cargo maior da comunidade, deixe escrito a prefeito imperfeito. De nome Tião Enrolado. Candidato a cão de data ainda desconhecida. Por ali apareceu num dia de muita chuva.
O velho velhaco Tião, pra mais de enrolado, contou essa prosa ruim.
“Oia com seus olhos, não com os meus. Estive agarrado com meu carro de boi na subida daquele morrão topetudo. Tive de desatrelar dois bois de guia, o fortão Marruco e o outro boi o Eunuco Capado do meu carro de boi que ficou sem seus melhores bois. E eles dois fizeram upa pra me desatolar e acabar de subir o morro. Quase morri de susto ao chegar lá em riba do cupinzeiro morto. Tô soltando a alma pela boca do meu trombone, dando trombada em cada árvore que passar pelo meu caminho desencaminhado”.
Zé Cebola ouviu aquela ladainha sem emitir um pio. Caladinho não se manifestou nem um cadiquinho miudinho.
Mas o candidato a prefeito mais que imperfeito continuou sua falação sem fim nem começo.
“Se eu for eleito ao pleito despeitado vou jogar asfalto pretinho nessa estrada lamacenta ou poeirenta. Irei deixar elazinha limpinha como bunda de neném depois do banho e sua mãezinha nessa bundinha jogar talquinho cheirosinho. Não somente irei dar um jeito nessa estrada desajeitada e mal amada. Vou ainda calçá-la de pedrinhas de brilhantes para qualquer amor passar. E vou ainda dar um jeito em quem não tiver jeito de melhorar. Vou endireitar as curvas e retar melhor as retas. Irei, se eleito for, tirar a cedilha do c pra ocês não se confundirem ao digitar c cedilha desse jeitinho ou doutro. Não vai faltar emprego por aqui ou acolá. Todo mundo vai ficar imundo sem tomar banho eu prometo e não cometo atrocidades com nenhum cachorro fuçando lixo. Vou, se prefeito for eleito, tirar todas as taxas dessa pequena comarca sem marca tanto de nascença ou de descrença em mim. Pra finalizar vou por um ponto final nas minhas promessas vazias de nada. E não me chamem de Tião Enrolado pois não sou de enrolar ninguém”.
Esse ano irão de convir comigo.
As eleições se avizinham. Não confundam eleição com ereção.
A gente pode, durante o ato sexual, perder a ereção.
Mas convenhamos. Perder a eleição jamais…