Quem ainda não se sentiu como um vaso muito estimado feito em cacos a seguir de um acidente doméstico quando a servil empregada, distraída falando ao celular, deu um safanão na mesa na tentativa mal sucedida de ver esse lindo vaso, aquele mesmo onde uma maravilhosa flor de orquídea recém desabrochada depois de tanto tempo em hibernação mostrava suas lindas flores brancas a vista de quem a admirasse.
A secretária daquele lar ao ver esse lindo vaso feito cacos. Antes que sua patroa chegasse tentou colar os caquinhos e colá-los bem juntinhos. Mas sempre faltava unzinho para completar aquele vaso e deixá-lo como era dantes novinho em folha.
Assim se passa com certas mulheres. As mesmas, por acreditarem na verdade daquele amor que sentiam por seu parceiro de tantos anos. De repente foram traídas por ele mesmo e como sofreram pelo abandono. E ao descobrirem aquela trama, ele nos braços de outra. Fazendo amor voluptosamente tresloucadamente, sem pensar nas consequências daquele ato falho. Voltava a casa com a cara lambida como um cãozinho depois de uma arte por ter urinado no pé da mesa na sala de visitas. Aquela de estimação de sua dona. A mulher traída nunca mais foi a mesma. Os caquinhos do seu coração não ficavam como antes. A ferida da traição não cicatrizava e ela acabou tentando ajuntar os cacos, não daquele vaso onde desabrochava a orquídea branca e linda, mas sim do seu sentimento de perda, de ter sido atraiçoada uma vez na sua vida depois de incontáveis anos de união.
Inquietações, incertezas, dúvidas, indefinições, a mim me parecem sinônimos quase como irmãos gemelares.
Já tive centenas, talvez milhares tanto em criança, na juventude até essa provecta idade.
Em menino não sabia qual presente ganhar em duas datas próximas.
Deveriam ser dois ou mais de dez.
Em sete de dezembro celebrava dez aninhos naquele ano distante de um mil novecentos e cinquenta e nove. O dia vinte e cinco daquele mesmo ano se avizinhava.
Meus saudosos pais me perguntaram: “qual presente você quer ganhar no dia do seu aniversário? E no dia do Natal? Pode ser no dia sete aquela bicicletinha de rodinhas amarelas? E no Natal aquela patinete que vocezinho viu deslumbrado na vitrine daquela loja aqui pertinho de nossa casa”?
Mais uma vez me senti inseguro e incerto sobre os dois presentes em datas tão próximas.
Acabei me decidindo pelo seguinte. No meu aniversário de dez aninhos pedi ao meu pai para me dar a patinete não motorizada como agora existe. E no Natal a bicicleta sem rodinhas já que aprendi a pedalar sem elas depois de vários tombos naquela rua que daqui se deixa ver a mão esquerda.
No entanto das entre tantas indefinições não pararam por ai nem acolá.
Já na conclusão do curso secundário me assaltou, sem armas empunhadas, qual caminho ir em frente. Pelas letras ainda não tinha tanto amor misturado a paixão como tenho nessa hora. Pelos números já sabia que não seria o caminho a seguir.
Foi então que essa inquietude, diga-se incerteza foi dirimida.
Bem me lembro de mim menino. No meu quartinho havia duas caminhas. Uma minha e a outra do meu irmão Fred. E no meio delas uma escrivaninha onde estudávamos. Acima dessa mesinha onde empilhávamos nossos livros uma janela sempre deixada aberta para outra rua de nome Horácio Carvalho. Naqueles tempos idos vazia de moradas e lotada de pés de café.
Nesse mesmo quartinho aconchegante, onde anos mais tarde meu pai nos deixou órfãos de sua saudade, costumava brincar, com uma coleguinha linda de escola de médico e paciente.
Fingia, usando um estetoscópio de mentirinha auscultar os seus pulmões. Apalpava a barriguinha delazinha olhando seus olhos e pedindo a ela que dissesse onde doía. Era pura e apenas ingenuidade e inocência naquela tenra idade sem malicia nenhuma.
Talvez tenha vindo ao mundo a minha escolha, que dirimiu minhas dúvidas sobre qual caminho ir adiante. Foi sábia a minha decisão pela medicina. A definição pela Urologia anos depois me fez escolher essa especialidade por uma razão simplesinha. Já na faculdade de medicina, prestes a virar doutor, uma pedrinha desgarrada dos meus rins me fez optar por essa dura especialidade que até hoje me acompanha par e passo.
Mas deixando de lado minhas relembranças que mugem de saudade dentro do meu eu.
Reporto-me ao caso daquela meninazinha que usava trancinhas feitas em seu cabelo tinto da cor de milho por embonecar em espigas graúdas da cor douro.
Cujo nomezinho era Ágata e apelidada de Narizinho devido ao seu nariz meio pontudo passado de lindinho.
Sonhadora como fui na minha infância e ainda o sou na idade em que estou.
Elazinha era uma menina que duvidava de tantas coisas que não parava de perguntar a sua mãezinha a cada hora do dia ou de noite: “mãe, por que o mundo é redondo e não quadrado? Seria melhor se fosse quadrado no meu entender. Mãezinha, por que não conheço meu pai? Ele ainda é vivo? Nos deixou por qual motivo? Será que ele não gosta mais da gente? Mãezinha, a senhora pode me responder essa dúvida que me martiriza? Acordei hoje cedinho e o dia estava cinzento e escuro. Mal se podia ver a azulice do céu somente nuvens cinzas que indicavam talvez chuva na parte da tarde. Agora, nessa hora em que nos encontramos de novo o sol brilha forte e o céu azula cada vez mais. Engraçado minha querida mãezinha. Quem veste os dias de várias roupagens? A mim me parece que os dias têm um guarda roupa de várias portas e onde cabem muitas roupas novas e usadas. Quem seria a modista dos dias? A senhora conhece quem costura para eles”?
Eu não saberia responder a todas essas perguntas.
Talvez tenha a mesma inquietação da menina Narizinho.