Nunca fui bom com os números. Negócios prefiro deixar com quem entende.
Bem me lembro de quando comprei minha rocinha. Um lugarzinho simpático cercado de pessoas gentis e confiáveis. Quando pensava que todo médico poderia ser fazendeiro. Já que colegas aqui da minha cidade possuíam fazendas enormes. Elas talvez não dessem lucro. Muitas heranças dos seus pais e avós. Mas era um lugar de descanso e mudar de ares. Não esse ar poluído que se encontra porta adentro dos hospitais.
Naqueles idos anos aventurei-me a tirar leite. Já tinha tido experiência boa quando, nas férias de final de ano, passava dezembro quase inteiro na roça de umas tias avós que hoje moram no céu.
Hoje conto nos dedos 41anos que esse começo de lida aconteceu. Mal sabia o porquê dos porqueres de tanta porcariada. Entre elas a razão de o leite ser branco emerso de uma vaca preta. Ou quando égua da cio ela aceita a monta do garanhão piscando a vagina. Ou ainda quando urubus avoam é sinal de morte certa lá embaixo.
Naqueles tempos idos, ao comprar uma vaca quantas mantas tomava. Meu vizinho de pasto. De nome Geraldo da dona Nega. Não me negava negocinhos. Ia ao seu pedaço de chão na intenção de comprar uma boa vaca leiteira. Assistia ao amigo Geraldo a tirar leite. Decidia-me por aquela que enchia o balde e não o chutava. Mas não sabia que elazinha havia ficado uma semana inteirinha sem ser ordenhada. Levava a ruminante ao meu curral. Lá ela, batizada por mim de Perereca. Ao revés dos trinta litros de leite branquinho e espumante que ela produziu, no curral do Geraldo, no meu ela só deu cinco fora a espuma.
Devolvia a rês ao seu dono original. Fazia outra catira dessa feita a manta foi ainda pior. Como gostaria de comprar uma vaca de maior produção leiteira acabei levando a minha rocinha um boi eunuco. Que me deixou caduco de tanta preocupação.
Quem é Correinha? Zé Correia, sujeito de boa prosa e melhor de braço. Um dos protagonistas do meu romance Madest (a moça alegre do sorriso triste). Que se apaixonou pela bela e fogosa Esmeralda, mãe da Madest. Um sujeito que inda fala estropiado e de poucas palavras. Quase morreu um feio dia. Vitima de uma infecção no cérebro que quase o levou à sepultura. Quando eu mais precisava vender uma gleba de terras improdutivas pertinho das minhas. Depois de oferecê-la a uma cambada de pretendentes por uma mixaria de alguns mil reais. Ele tirou um maço de notas graúdas de dentro do colchão de palha morada de ratos e percevejos e pagou em espécie a importância por mim pedida. Não regateou nem pediu prazo. Ele ainda mora lá cercado da sua linda família.
Hoje, anos e não anus depois, decidido a vender meus vinte e cinco hectares. Já que meu amigo arrendador das minha terrinhas decidiu mudar de ares. Roberto por certo vai deixar saudades. Posta a venda parte da minha rocinha. Um pretendente tido riquinho por ela se interessou.
Negócio quase feito. Meses se perderam de vista. O tal riquinho me fez assinar mais de vinte papéis. Pensava que sua palavra tivesse mais valor que dez mil notas promissórias. Ledo engano que me fez desenganar com ele.
Na hora H o tal riquinho da cidade quiabou como quiabo escorregadio. Escorregando de leve oferecendo uma quantia irrisória ao meu pedacinho do paraíso.
Foi quando me lembrei, com saudades, da lisura do Correinha. Que me pagou a quantia pedida e não deu pra trás na hora de fechar o negocinho.
Nos dias de agora, já que não me acho bom de negócio. Quando pretendo vender alguma coisinha vou dar preferência não aos pseudos ricos da cidade. E sim a gente boa como os Correinhas vizinhos da minha rocinha.