Afoiteza, ansiedade, pressa, não conseguir esperar, eram, poder-se-ia dizer, não qualidades daquele caboclo apressado, que não parava aquietado, movia-se de um lado pro outro, ao sabor dos ventos de agosto.
Zezinho Afoiteza era a cara e o sabor da ansiedade. Dormia quase nada. Rolava na cama de um lado pro outro. Amarfanhava os travesseiros. E pobre de quem dormia ao seu lado.
Antes das quatro da madrugada, fizesse frio ou calor, Zezinho já se punha de pé. Ia ao banheiro, situado do lado de fora da casinha tosca, lavava o rosto enrugado, passava uma água fria nos cabelos em desalinho, vestia-se frugalmente, e logo começava as tarefas do dia.
Depois de tomar um cafezinho magro saía de casa.
As vacas já o esperavam famintas. Era hora da primeira ordenha do dia.
Lá fora o vento zunia. A temperatura oscilava entre cinco e sete graus centigrados. Era agosto em seu começo. Uma chuvinha extemporânea caiu durante a noite. As nuvens ainda estavam cinzentas.
No decorrer daquela manhã de segunda-feira mais águas desceriam do alto. Que bom, pensava ele. Era sinal de fartura na roça.
Movido à pressa costumeira Zezinho terminou a ordenha em menos de uma hora. Antes da seis da manhã a vacada já estava enchendo o bucho naqueles cochos enormes.
Foi quando desceu ladeira abaixo o caminhão leiteiro. Aspirou de um só gole mais de quinhentos litros de leite geladinho. Era a produção de dois dias. Acontece que as vacas do amigo Zé quebraram a produção. Muitas delas já estavam em período de desmame. E outras esperavam impacientes o nascimento de mais bezerrinhos. Zé Afoiteza aguardava impaciente cerca de duas dúzias de crias novas. Em setembro, que se avizinhava, segundo a previsão do Zé, mais duas dúzias de novilhas desceriam o terceiro mojo. E mais bezerrinhos iriam nascer.
A seguir, já quase nove da manhã, segundo a previsão da meteorologia, choveria mais alguns dias. E o céu confirmava, devido a sua cara emburrada, nuvens negras assinalavam, que mais chuva desceria do céu.
Zé nem esperou a hora do almoço. Foi depressa a cidade comprar provisões.
Ao tentar ligar o velho Fusca, estacionado debaixo de uma árvore, notou que não dava a partida. A bateria estava descarregada. Por falta de uso o velho carrinho faltou ao trabalho. E o afoito Zé teve de ir de carona no velho caminhão leiteiro.
Chegaram à cidade perto debaixo de uma tempestade. Chovia a cântaros. O trânsito não andava.
Zé Afoiteza agradeceu a carona. E deixou a boléia do caminhão com água pelas cintura.
Acabou molhado até o pescoço. Mesmo assim conseguiu comprar tudo que precisava.
Mas como retornar ao seu pedaço de chão? A lotação não deixou a rodoviária. A chuva impedia qualquer um de chegar ao seu destino.
Já era noite quando o apresado Zé conseguiu chegar a sua rocinha querida. Um barro grudento fê-lo atolar as botinas.
As vacas já estavam famintas na porta do curral. Não seria possível alimentá-las naquela noite escura.
Zé não dormiu além de duas horas. Sonhou um sonho esquisito.
Que, naquela pressa costumeira, acabou engolindo a dentadura. E acordou asfixiado por uma coisa estranha. Cuspiu fora os dentes da frente. O que o salvou de morte certa.
Naquela manhã de segunda-feira Zé continuou no mesmo ritmo de sempre.
Sempre afoito, com a ansiedade consumindo-lhe as entranhas.
Zé Afoiteza ainda viveu alguns anos mais. Mercê de sua afoiteza despediu-se da vida num átimo de segundos. Morreu numa noite fria. A contragosto, num mês de agosto, do qual ainda me lembro. Nesta segunda fria.