O ontem, o hoje, o amanhã

Ainda ontem me vi menino.

Do jeito que vim ao mundo desnudo observando as galinhas, num galinheiro telado, na linda cidade agora beira lago, de nome Boa Esperança, a qual ainda tem como pano de fundo uma linda serra, imortalizada por um grande poeta de Serra da Boa Esperança, esperança que encerra, e por aí discorre em sua linda canção, até hoje lembrada por quem não da adeus ao passado, gente como eu.

Ali fiquei por poucos anos. Aos cinco completos para outra cidade mudei. Tenho poucas lembranças daqueles anos primevos. Seja naquela pracinha, que nem recordo se ainda existe, ou se já foi soterrada por um passado o qual ali deixei.

Aquele menino cresceu. Mudou-se para outra rua. Que daqui se avista pelos fundos. A casa onde fui criado está do mesmo jeitinho. Com suas janelas amarronzadas, paredes caiadas de creme, telhado um tanto gasto pelos anos.

Ao fim da tarde por ali passo. Ali não mais vivem meus pais. Apenas uma irmã querida, de nome Rosinha, junto as suas cuidadoras, faz-me lembrar do passado. Um clube vizinho é outra procura que sempre encontro. Talvez para tentar alongar-me a vida. Já que não sei quantos anos mais tenho para desfrutar da minha velhice, exercitando-me numa academia, correndo na esteira, alongando-me nos ferros, ou passando minutos de relaxamento numa piscina de aguas tépidas nos tempos de inverno.

No mesmo colégio onde estudei hoje vai começar a vida estudantil meu primeiro neto. O querido e esperto Theo. Isso faz parte do presente. Mas nunca deixei o passado de lado. O ontem jamais foi olvidado. Já que não consigo me desvencilhar do que fui. Pois o tempo presente fica intrinsecamente ligado ao tempo pretérito, as muitas lembranças que o antes me concedeu.

Hoje, convivendo com estas recordações tantas, que não me saem da lembrança, ainda versando sobre o ontem, nos tempos quando aqui cheguei vindo de Belo Horizonte, entra em cena um médico cheio de sonhos.

O escritor ainda não havia acordado. Apenas o trabalho me consumia. Em plantões que varavam noites, entravam dias adentro. As cirurgias aconteciam no despertar das manhãs. E, grande parte das vezes voltava hospital adentro para tentar sanar alguns contratempos. E retornava bem cedo, novas cirurgias me esperavam, próstatas crescidas eram retiradas dos pacientes mais velhos, como agora penso que estou.

Hoje, refém da melhor idade, tenho mais tempo para pensar em mim. Procuro me aculturar mais ainda. Ficando versado em outros idiomas, escrevendo furibundamente a cada manhã.

O hoje me atrai mais que o passado. Tudo tenho para ser feliz. Uma família maravilhosa, saúde de ferro, disposição para o trabalho não me tem faltado.

O tempo de ontem foi feito para ganhar dinheiro. Agora ele não me faz falta. Contento-me com pouco. O suficiente para pagar as contas, são tantas, tantas, que minha esposa não se cansa de alertar-me sobre o dia seguinte.

Vivo de acordo com minhas posses. A aposentadoria não me seduz. Ficar de papo pro ar, assentado a um banco da praça, absolutamente não me faz sentir-me melhor. Como médico não sei quantos anos mais tenho de vida. Como pessoa muito menos. Quanto tempo mais terei saúde? Para caminhar tanto, para correr entretanto, para sentir o vento passar, para apreciar o voo dos pássaros, para filosofar sobre o amanhã, são respostas para as quais não tenho a intenção de saber.

O hoje me tem satisfeito. O ontem me faz relembrar. Já o amanhã, o depois do amanhã, para ele viro as costas. Sinto-me tão bem agora, para pensar no que vai acontecer. Da maneira que me sinto agora, por que pensar no ontem, no hoje, já que todos eles me aguardam num futuro incerto, que um dia vai suceder?

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