Conviver e viver entre quatro paredes, se as temos a nos abrigar, não é tão fácil como pensamos.
Se desavenças moram entre namoradinhos, garotos ainda que deram inicio a esse relacionamento cada um novinho a espremer espinhas um na cara do segundo.
E no escurinho do cinema encostam as boquinhas um no outro, o machinho tentando segurar o saco enorme de pipoca e o refri na outra mão. Quando a luz apaga e o filme começa aquele beijo estalado se transforma num espirro e adeus viola enluarada. O sacão grandão de pipoca cai ao chão. O refri, não sei se coca cola ou grapete entorna tudo no colinho macio da mocinha. Aí aquele que foi mocinho se transforma em bandido. Lasca a mão boba, que de boba nada tinha na bundinha da menina. O lanterninha, aparentado a um vaga lume piscante, pisca sua lanterna e manda o casal sair da sala alegando ao delegado que o garoto importunou a criança que nem pudica era mais.
Se aquele namorido começou entre tapas e carícias imagine se eles se casam anos depois.
No começo começaram muito bem. No meio diziam um ao outro: “meu benzinho, me espera um cadiquinho. Vou ali na padaria comprar um pãozinho fresquinho. Unzinho só não.Meia dúzia da pra gente né amorzinho?”.
E ao final de trinta e mais anos, em meio a desenganos, o que era doce como mel termina num pote cheiinho de fel mais amargoso que um sujeito amargurado por ter perdido um amor no qual cria e, assim que nasceu a cria ela que nem dele era, e sim de um vizinho bem apessoado já que ele era mais feio que um urubu pelado.
Todos vocês, meus leitores que um dia quem sabe, se eu fosse candidato, num futuro pleito, ou a prefeito imperfeito ou ainda a deputado puto da vida por não ter tido um votinho sequer. Já que minha amada mãezinha nem ela votou na minha pessoa, pois bem conhecia seu filhote, nascido do próprio ventre, que eu não era flor de bom odor fedido mais que xixi despejado em lugar indevido numa sala enorme onde a faxineira nem vem.
Uma relação, que seja matrimonial ou apenas um juntamento de panos, para durar até que o mundo acabe tem, dos dois lados haver não somente amor, resiliencia, muita paciência, tolerância e sobretudo esquecer os causos que teve no passado. Aquela mulher no caso do macho, se for a fêmea, tentar apagar as lindas recordações de quando, pela vez primeira, naquele matel ensombrado, sem que ninguém soubesse ou aplaudido assentado, a transa que começou de pé e terminou muito mal deitados num cupinzeiro vivo com milhares de cupins picando suas partes baixas numa baixaria sem números ímpares ou pares.
Esses dois sim, me deram um exemplo magnífico de como sobreviver num juntamento sujeito a lamentos por quase ou mais de cem anos.
Dona Maricota e seu amado, mais antes e menos hoje, de nomezinho singelo Artur, Arturzinho pois era naniquinho.
Juntaram os panos sujos há tantos janeiros que nem me lembro quantos dezembros passaram.
Nos primeiros anos poucas desavenças aconteciam entre as cobertas nos dias frios.
Depois de quinze anos de convívio aquilo que começou em meio quilo passou ser mais pesado que um caminhão lotado de cimento grudado na carroceria.
Aos trintanos a coisa ficou de mal a pior ainda. O que era salgado, dona Maricota, que tinha pressão nas alturas a tal subiu à lua.
Quando o infeliz, tristonho, desalentado, Arturzinho, depois de tomar um comprimidinho azul, na intenção de fazer amor, mesmo sem amar a dona Maricota, na cama, com aquilo a meio pau, dizendo a ela: “por favor minha querida, deixa eu pelo menos tentar empinar minha pipa e levar ela ao seu céu que é também o meu. Aquilo que pensava servir apenas para mijar agora acredito que tem mais uma serventia”.
Dona mandona Maricota fugia às carreiras pra outra cama, de outro quarto, e roncava alto para incomodar mais ainda o ajuntado.
O não mais valente Arturzinho, mais e menos valentão que em tempos idos, a tudo se sujeitava por não ter o que fazer nem onde morar já que aquela casona era de sua dona mandona.
Eles dois, pior se fossem três ou mais, viviam às turras numa rocinha, bem mais prejuizenta que a minha.
Era um lugar que já era, longe dos olhos de qualquer intrometido metido à bandido,
Onde o mato crescia e os carrapatos e carrapichos engoliam, com seus ferrões venenosos dos micuins pretinhos miudinhos, e os carrapichos espetavam, com suas línguas linguarudas as bundas de quem se atrevesse a entrar naquele mato alto.
Na rocinha deles dois morava um corguinho onde lambarizinhos de rabinhos rosadinhos nadavam ariscos e não mordiam a isca dos anzóis.
Para ir à horta de couve, cenouras, berinjelas e outros legumes mais, carecia atravessar esse corguinho nem tão largo nem tanto fundo.
A relação mais que conflituosa e aflita entre esse supra citado casal ficava mais azeda que leite fora do tanque de expansão num dia de forte calorão.
As agressões, tanto verbais e mentais se davam mais e mais.
O pobre Arturzinho pensava em se separar de vez pra nunca mais.
Mas como fazer, se nem tinha onde morar nem se abrigar do sol e da bendita chuva que não vinha e nem se avizinhava da sua rocinha.
O pobrezinho sonhava com aquela zinha, sua ex namoradinha, dos bons tempos que morava solterinho da silva na capital de nosso lindo estado das Gerais.
Aquela linda morena de boca enorme abatonzada em vermelho que, quando a beijava não sonhava nunca em se desunirem tanto da boca quanto do andar de baixo.
No entanto dos entre tantos, de agora, nessa hora exata, ele tinha de engolir a seco sua dona Maricota da bunda choca.
Pensava, mas não tinha como dela se apartar nem sabia fazer parto.
Naquele corguinho dito e descrito dantes, havia duas pinguelas, uma do lado direito e outra a mão esquerda.
Eles dois nunca passavam na mesma pinguela, cada um na sua bem pensado e feito.
O tempo passava e aquele casal se tolerava sutilmente.
Um não pisava no rabo do outro nem em pensamento.
Foi ontem que estive com o pobre Arturzinho, quietinho no seu cantinho sem molestar nem passarinho.
Elezinho ria de si mesmo ensimesmado não sei de quê.
A ele perguntei sem saber a resposta que ele iria me dar ou não.
“Meu amigo Tutuzinho. Pensei que iam se separar de vez. A relação entre ocês já dura mais que não sei quantos anos. Sei ainda que não se dão nem em sonho. Não seria melhor cada um ir pro seu canto e viverem outra vida sem brigas e ressentimentos”?
Tutuzinho, encolhidinho que nem um tatuzinho, escondidinho em sua bolinha me disse: “meu amigo da onça brava. A gente, quando passamos de certa idade, já lá em baixo da serra, bem no fim da vida, temos de engolir sapos e arrotar pererecas. Tenho vontade de esganar e enganar a minha dona mandona a tal que tu bem conhece, a Maricota das pernas finas e voz grossa, de afogá-la naquele corguinho aqui pertinho. Mas creio que ele não tem profundidade para matar a danada afogada pois sei que ela nada muito bem. Melhor que eu até, dai não passamos na mesma pinguela nunquinha”.
Mora aí o segredo de o por que uma relação, muito conflituosa, durar quase ou mais que cem anos.
Não deixar o casal passar na mesma pinguela manquitola…