Naquela noite escura meio quase de agosto Joãozinho passou pensativo lucubrando sobre coisas distintas que em sua cabecinha esperta voavam sem asas.
Como de sempre aquele menino, a mesma hora que abria seus olhinhos, depois de um dia cheio de pensamentos que vagabundeavam não sonolentos como ele. Assentava-se ao vaso sanitário feito de louça branca, antigo que ali morava desde os tempos de seu bisa. Pra ele não havia lugar melhor para por em dia suas ideias, pensador reflexivo que sempre foi.
Ele, ao mesmo tempo que não cria que não seria a hora a dar de pensar em si mesmo, já que apenas completou seus sete aninhos, estudando numa escolinha rural vizinha à porteira de boa madeira fincada ali por seu pai, gente boa nascida e espichada um cadinho apenas naquele palmo de pasto sujismundo, um verdadeiro sarandi, que se fosse roçado baixo levaria uma eternidade para ficar limpinho como o piso da cozinha faxinado por sua mãezinha.
E aquela criança introspectiva, de boa índole, ao ver o quanto sua família dava duro para manter aquele pequeno sitiozinho cercado de boas cercas divisórias, de a cada ano dar tudo que seus braços fortes poderiam fazer de melhor. Tratar de um punhadinho de vacas leiteiras que embarrigavam a cada ano trazendo ao lume do dia uma cria que no mais tardar de meses seria uma nova vaca com as tetas lotadas de colostro para saciar a fome de sua cria sempre faminta. Vendo seu estimado pai, ao final do dia, exausto cambaleante voltar a sua morada a passos claudicantes. E nem ter fome de esquentar nas trempes fumegantes do fogão a lenha um prato transbordante de comida. Assim que se debruça a frente dele seus olhos se fecham lentamente e a mãe de Joãozinho tem de levar seu marido à cama de onde ele se levanta na madrugada seguinte antes mesmo que o sol, dorminhoco abra seus olhos amarelos e se despede da lua que no alto brilha.
Essa trabalheira toda, ao revés de estimular aquele menino a seguir-lhes o mesmo caminho desestimula-o sempre.
Ao ver o pai desconsolado chegar à casa simplesinha sem um tostão no bolso a dar de comer ao seu único filho, ainda bem ele sempre diz. Se tivesse unzinho mais não sei o que seria da gente. Devedor e bom pagador devendo ao banco uma soma que nem em cem anos poderia pagar. Com uma infinidade de prestações vencidas numa loja de eletrodomésticos por culpa de uma televisão novinha que teve de comprar a pagar quando pudesse e seu dinheiro sobrasse. Coisa que nunca sucedia.
Aquela boa criança, com suas mãozinhas no queixo, olhos embaciados de sono, assentado aquele vaso sanitário brilhando de tanta limpeza, pensava no que iria ser no futuro. Já o que o passado a nele metia medo. O presente não era aquele que gostaria de ganhar no seu aniversário. E seu futuro, ele imaginava quem sabe seria não aquele cheio de sofrimento, puro desalento que junto aos seus amados pais passava.
A gente, quando ainda pequenos, meninos ou meninas ainda, sonhamos muito e acordamos com nossos sonhos desmoronados quando nossos objetivos não são alcançados.
Nas minhas andanças costumeiras pelas ruas, praças e avenidas de minha e outras cidades. Quando percebo um ajuntamento de moleques, sejam meninos ou suas namoridas em altos papos pelas calçadas, insiro-me entre eles e a um ou outro indago: “o que gostaria de ser quando crescer? Grande não é a resposta que gostaria de escutar. ”
Via de quase sempre um silêncio sepulcral se faz. Ou até mesmo uma estridente vaia oiço.
Ontem de tarde fiz essa mesma pergunta a estudantes de um colégio onde estudei nos verdes anos de minha juventude. Aquele que tem um dito que não me canso de repetir: “a gente sai do Gammon, mas ele não sai da gente”.
Um moleque amochilado, não mochado como boi que se tornou eunuco. Unzinho maiorzinho da turma me respondeu indecorosamente, talvez ele me conhecesse e não me admirasse: “quero ser de tudo na vida. Menos um doutor enxerido, metido intrometido que entra na prosa dos outros sem ser convidado e tenta dar lições a gente que nem estamos aí pro senhor seu doutor escritor Paulo Rodarte”.
Enfiei meu rabicho entres as pernas e sumi na braquiária. Vesti minha carapuça, tive de trocar de cueca e creio ter aprendido a lição de não me intrometer nas boas prosas de moleques muito mais sabidos do que eu.
Voltando ao introspectivo Joãozinho pensativo de nádegas roliças assentadas ao vaso da privada. Aquele bom menino que queria ser alguma coisa melhor que seus pais puderam lhe dar de graça.
Tive com ele ontem de tarde. Não de novo reflexivo assentado na tampa da privada e sim de roupa novinha recém trocada par a ir à escola.
“E aí moleque? Ainda tá pensativo no que vai ser de agora a muitos anos? Já se decidiu por ficar na roça quando seus pais se fizerem ausentes por um motivo qualquer? Ou vai seguir seu próprio destino hoje incerto e espero que amanhã se acerte de vez pra sempre? O que gostaria de ser no mais tardar dos anos? Não quero ouvir apenas grande e sim mais algumas coisinhas. Quer ser médico especialista como eu urologista e ainda por riba de um cupinzeiro morto escritor de besteiras? Ou advogado do demo que fica em porta de cadeia esperando droga daquele traficantezinho pé de chinelo que afanou ovo da galinha que ainda tem seu ovo no fiofó? Ou ainda engenheiro genioso e turrão que não aceitou opinião do mestre de obra experiente que a ele recomendou por mais cimento na massa e por isso o prédio escombrou, foi ao chão antes da segunda laje? Ou então um palhaço das perdidas ilusões que sorria por fora por ter levado fora da mulher e chorava por dentro de tanto sentimento? Ou ainda uma bailarina que tentou fazer um pas de deux (em francês), trupicou no assoalho de tacos gastos e despencou de bunda no chão duro e adeus viola violada que ficou danificada para sempre sem conserto com s não c”.
Joãozinho, garotinho veiaquinho, sonhador não mais purinho, me olhando nos meus olhinhos respondeu não caladinho: “posso ser tudo isso. Mas, por favor, tenha dó de mim. Não quero ser nunquinha, jamais, nem que a porca tussa refrigerada toda suada. E nem mesmo se a vaca avacalhada for pro brejo da desesperança matada. Se eu for pelo mau caminho da política aí NÃO MESMO. Matem-me e me joguem no mata burro do mato antes que a porcada faça uma porcariada com meus restos mortíferos”.
Se ele falou e disse quem sou eu pra contradizê-lo…