Ano partido ao meio mais um.
Agosto acontece florada dos ipês. Neste mesmo mês comemora-se o dia dos pais.
Daí relembrar lembranças, dos tempos em que fui criança, ao lado deles, meus queridos pais.
Era menino ainda. Calças curtas e ideias longas. Naqueles idos anos nem me passavam pelas ideias o que iria ser. Preocupava-me apenas em folguedos. Naquela Boa Esperança onde nasci. Ali não criei raízes. Como as lancei aqui.
Era muito jovem para me recordar detalhes dos meninos com os quais convivi. Muitos já não mais estão vivos. Encantaram-se. Viraram estrelas piscantes na via láctea que se deixa ver durante as noites enluaradas. Ou ainda vivem como eu. São avós, pais amantíssimos, como ele foi, até o seu passamento.
Meu pai, caso estivesse vivo, ele se despediu de nós prematuramente, aos setenta e sete anos tão somente, contaria com noventa e cinco anos neste primeiro dia de agosto. Tomara chegasse aos cem.
Mas por certo Deus o convocou para viver ao seu lado, pois precisava de um gerente a altura para cuidar das finanças do céu. E como ele foi um bom funcionário daquela casa bancária que tem o nome de nosso país.
Ainda me lembro de sua velha máquina de escrever. A velha Facit agora faz parte indissolúvel de mim. Ela descansa dentro de um baú de velhas lembranças na casa onde moro.
Não mais oiço o tiquetaquear furibundo de suas teclas, em seu pequeno escritório, de onde nasciam petições bem fundamentadas, textos bem escritos, com alguns pequenos senões que logo eram corrigidos por um corretivo que deixavam borrões naqueles papeis que não tenho mais.
Da mesma forma não consigo mais ouvir suas palavras bem postas, seus conselhos muitos seguidos, outros apenas retidos nas minhas lembranças banais.
Meu pai deixou marcas em mim para sempre. Quando passo pelas ruas da minha cidade ouço pessoas, que tiveram a felicidade de conhecê-lo em vida comparando-me a ele. E como me sinto feliz. É como se ele voltasse à vida. Na minha pessoa pequena.
Foram bons aqueles tempos quando jogávamos tênis no mesmo clube fronteiriço a sua casa. Jogávamos em dupla. Éramos imbatíveis. Sem falsa modéstia.
Sua carreira no banco estendeu-se até a aposentadoria. Mas, segundo suas mesmas palavras, trabalhador contumaz, ele nunca se aposentou de vez. “O ócio é o começo do fim”. Dizia ele.
Uma vez afastado do banco, ainda pleno de competência, graduou-se em advocacia.
Aqui, em nossa Lavras querida, pouco tempo durou sua carreira de advogado. Desencantou-se com ela. Talvez ensejado por sua correção e decência acima dos tribunais.
Tentou enveredar-se pela construção civil. Teve sucesso. Por poucos anos. Uma de suas obras se deixa ver ao começo da Rua Costa Pereira. O edifício Rodartino Rodarte, onde foi a casa do meu avô, mostra-se pelos fundos, perto da velha caixa d’água.
Ainda me lembro, olhos rasos d’água, de quando ele caiu enfermo. Teimoso, obstinado, ele teimava dirigir seu pequeno veículo. Quantas vezes o telefone me avisava do perigo que ele estava correndo. Quantas vezes tinha de ir buscá-lo, meio atarantado, parado no meio da rua, interrompendo o trânsito.
A represa de Camargos foi um capítulo a parte entre meu pai e eu. Como ele gostava de pescar lambarizinhos de rabo vermelho naquelas aguas límpidas que até hoje fazem o encanto daquele lago verde.
A derradeira vez quando lá fomos ele já estava impossibilitado de andar. Uma cadeira de rodas foi o último carro que o conduziu.
Ele morreu em meus braços impotentes de médico. Pelo estado lastimável em que ele se achava confesso desejava-lhe a despedida. A doença de Alzheimer ceifa vidas de modo cruel. Sofrem os circunstantes. Sobretudo quem ama tanto.
Hoje é primeiro de agosto. Ano partido ao meio mais um dia. O dia dos pais recai neste mesmo mês. Mês quando os ipês se vestem de roxo, branco e amarelo.
Meu pai aniversariava no dia de hoje. Começo de agosto. Bem perto do dia dos pais.
Caso ele estive vivo estaria quase cem.
Faz dezoito anos que ele nos deixou. Uma morte prematura. Sofrida, rica em sentimentos dos que ficaram.
Agora só me restam boas lembranças. De sua presença afável. Da sua fala contida. Do seu sorriso fácil. Dos seus bons modos. Do amor que ele sentia por minha querida mãe.
Aquela casa de paredes tintas de saudade, na Rua Costa Pereira, de número 152, que me olha pelos fundos, me traz tantas lembranças, de um tempo bom que não volta mais.