A vida sem a companhia de alguém se torna vazia, insossa, sem nada.
O homem, digo de ambos os sexos, é um ser gregário. Deve viver, salvo honrosas exceções, na companhia de outrem. Ninguém foi feito para ser uma ilha, cercada de água por todos os lados.
Nos primórdios dos tempos, assim que o ser vivente apareceu, não se sabe de onde, e como, logo se ajuntaram em grupos. A intenção era de se proteger, se aquecer, desfrutar o convívio de seres iguais. Logo surgiram as discórdias. As diferenças de opinião ou credo logo afastaram alguns descontentes. Que se mudaram de bairro, de cidade, e acabaram se formando outros lugarejos, outros idiomas surgiram, por causa da individualidade de cada um.
A sociedade sempre foi formada de castas. Antes aqueles de raças distintas se agruparam segundo suas cores. O que, felizmente, no dia de agora, as diferenças se aproximaram, tornando os negros menos coloridos, os brancos mais permissivos, numa mistura saudável que torna todo mundo quase igual.
A solidão nem sempre fez companhia aquele senhor de nome Juca.
Ele antes vivia numa comunidade de convívio fraterno. Mas, com o advindo de drogas ilícitas, onde a violência passou a predominar, o ainda jovem rapaz se mudou de lugar.
Antes vivia na roça. Amava o canto das maritacas que voavam em bando. A algaravia dos canarinhos da terra que ciscavam o esterco do curral. Das vacas não se apartava. Amava-as como se fossem da família. Da lida dura no campo não imaginava nunca se afastar.
No entanto um dia quebrou-se o encanto. O jovem Juca, numa tarde ensolarada, mês de julho despedindo-se, assim que se preparava para dormir ouviu um tiro nas vizinhanças.
Deixou sua casinha modesta pensando no pior. Seu vizinho, amigo de longa data, estava estirado, morto, na soleira de sua casinha caiada de branca. Nas paredes o vermelho vivo de sangue tintava tudo com as cores da tristeza da morte.
No dia seguinte Juca despediu-se de todos. Foi tentar a vida na cidade.
Naquele aglomerado de gente, cada um procurando seus objetivos, o jovem não foi feliz. Sentia-se solitário, mesmo cercado de pessoas.
Foi então, numa manhã perdida nos anos, decidiu dar novo rumo a sua vida. Até então era ele e ninguém mais. Nunca lhe havia passado um amor em sua existência. Juca pensava que se bastava. Nem se dava conta de que a solidão era péssima companhia.
Sem formação profissional, sem estudos, Juca passou tempos à procura de trabalho. Tentou de tudo. A cal da massa lhe fazia mal. Ser pedreiro não lhe era a vocação. Padeiro da mesma forma não foi a atividade na qual se deu melhor.
Nesta época de vida contava com quase cinquenta anos.
Bastante angustiado, quase entrando em depressão, apareceu, no anúncio de um bar, onde passava as tardes, quase noites, a oportunidade de ser caseiro de um condomínio beira lago.
Era a chance que procurava. Agarrou-se a ela como se fosse uma tábua de salvação.
No dia seguinte, bastante animado, procurou o responsável pela oferenda. Acertados os detalhes passou a morar numa casinha pequenina, a qual olhava a barragem com olhares de puro enlevo.
Não havia, por ser o começo daquele amontoado de casas elegantes, algumas ainda em construção, nenhuma vivalma morando lá.
O que se notava nas noites enluaradas era a solidão do silêncio. A calmaria do sossego. O bucolismo da placidez. Nem mesmo o latido de um cão lhe fazia companhia. Morcegos noctívagos eram a única testemunha viva do seu estado de espírito.
Por sorte Juca sabia fazer de tudo um pouco. Cozinhava, lavava suas roupas, até mesmo um jardineiro zeloso de sua função fazia-lhe parte daquela rotina enfadonha.
Acordava ao nascer do dia. Almoçava antes das onze. Dava uma volta pelas cercanias a ver como andavam as obras. Cuidava de um jardim ainda em formação no meio daquele condomínio.
Assim passaram-se meses. Um ano se viu ao fim.
Juca, numa noite mal dormida, naquela solidão imensa, se deu conta do vazio em que vivia.
Aos mais de cinquenta anos acabou caindo enfermo. Ali, naquela imensidão de aguas límpidas, na placidez de um lago ermo, sentiu, dentro do peito, uma pontado estranha. Até então julgava ter saúde perfeita. Por sorte foi atendido a tempo oportuno. Não era infarto, ou mal pior.
Era uma pontada como se um punhal lhe fosse ensartado ao peito. O que o fez sofrer ainda mais. Foi a pontada da solidão. Um sentimento estranho. Pungente, que soa como um lamento em olhos tristonhos. Uma mistura de angústia, chamada por muitos de depressão.
A partir de então não soube mais notícias do velho Juca. Dizem por aí que ele ainda vive. Num asilo de loucos, entregue a sua louquice desvairada. Tudo graças a solidão.