De quem é a culpa? A quem responsabilizar?

Dividir responsabilidades, esconder senões, tem feito parte da raça humana desde os primórdios dos tempos.

O homem é um ser falho por excelência. Assim fui ensinado.

Na minha jornada de vida, na minha formação profissional, quantas vezes fui pelo caminho errado. Quantas vezes me lamentei por ter feito a opção errada.

Em crianças estes erros por vezes foram perdoados. Era menino ainda. Com o cérebro em formação. Estes senões eram facilmente explicados por falha de caráter. Ainda não formado. Devido à mocidade, a criancice peralta, meus pais, amantes de seu filho mais longevo, depois de um castigo nada severo, de uma repreensão banal, logo perdoavam seu rebento. Sob a promessa de não errar outra vez.

Cresci cometendo outros logros. Foram erros involuntários.

Erros devidos ao mau caratismo creio não tê-los cometido. Pelo menos imagino.

Na longa estrada pelos caminhos tortuosos da medicina se errei, não foi por omissão ou por distração. Simplesmente, se eles aconteceram, quem atira a primeira pedra? Quem ainda, como médico novato, não pensou que aquela dor de barriga, que acordou o plantonista, depois de um dia cansativo, simplesmente era devido a uma diarreia qualquer. E no entanto logo descobriu, graças à ajuda de um colega mais experiente, que um apêndice inflamado estava prestes a se romper. Felizmente esse erro diagnóstico foi prontamente desfeito. E o paciente foi salvo pelas mãos hábeis de um cirurgião competente.

Anos foram passando, a medicina me ensinou a não ser tão impulsivo. Uma pedrinha que se desloca do rim a bexiga, se for de pequeno tamanho, fatalmente irá ver  a luz do dia. Espontaneamente.

Da mesma forma que uma próstata em início de crescimento não deve ser retirada. Existem fármacos de boa qualidade que podem retardar qualquer procedimento invasivo.

Dar tempo ao passar do tempo. Nenhuma doença evolui sem o observar constante. Todas devem ser seguidas. Acompanhadas. E vigiadas por meio de exames cada vez mais modernos e de alto custo. Não deixem nunca, aos colegas mais jovens, as mãos serem usadas simplesmente para olhar os tais exames. Todo paciente deve ser exaustivamente examinado, auscultado, aferida sua pressão arterial,  sua próstata tocada, no caso da urologia.

Como os equívocos dos profissionais de saúde tem sido postos à baila. Expostos à mídia cada vez mais sedenta de sangue. O médico tem sido a bola da vez nos noticiários criminais. Seus acertos não são lembrados. Da mesma forma que suas boas ações são sobejamente olvidadas.

Nestes dias, tenho assistido, não apenas pela televisão, como também pela internet, aos insucessos que colegas têm sido expostos, graças a procedimentos da moda.

A perfeição tem sido buscada nestes tempos onde o culto a beleza tem sido valorizado mais que outras qualidades.

A beleza dos glúteos, dos seios, do abdome, como também da face, não importa o que espelho mostra, e sim o que os outros, pensam, são objetos de consumo. A que custo for.

Cirurgias desnecessárias são buscadas como se fosse possível retardar o envelhecimento. Rugas são redesenhadas. Sulcos na face da mesma forma alisados. Narizes são refeitos de acordo com figuras midiáticas. Artistas são moldes para se atingir a beleza perfeita. Como se ela existisse.

Procedimentos nada recomendáveis são realizados como se fossem cirurgias banais.

E os pobres médicos, especialistas ou não, acabam se submetendo a ditadura da forma ideal.

Daí os insucessos obtidos. Fartamente mostrados, profissionais mal formados entram na fila ao lado de outros éticos e competentes.

Como diferenciar o joio do trigo? Como saber quem é bom e em quem não se deve confiar?

E a quem culpar pelos insucessos, pelas mortes, de um ou outro paciente, pelas intervenções sem indicação precisa, pelas falhas nos procedimentos?

Da mesma maneira que responsabilizo os maus profissionais, também compartilham a culpa aqueles que se submetem a ditadura do belo.

Existe um exagero enorme na busca da beleza. Assim como os procedimentos devem ser encarados como coisa séria.

Quando acontece um resultado ruim, como se tem visto, amplamente noticiado, a quem atribuir a culpa?

Desejo reparti-la com ambas as partes. Daí o meu repudio a todos eles. Seja a quem procura, ou até mesmo a quem faz sem a menor condição de realizá-lo.

Se a medicina peca, da mesma forma pecam aqueles que procuram, ao exagero, a forma ideal.

Não se deve olhar o espelho todas as manhãs, ao acordar. E sim olhar para dentro da gente, e se contentar com o que o tempo faz.

 

 

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