Hoje é feriado em minha cidade. A cama não me cuspiu tão cedo.
Mas não resisti. Tentei ficar no leito por mais tempo. Foram debaldes as tentativas. No máximo antes das oito estava de pé. Deixei minha casa vazia pensando no tempo. Nos anos que vivi, até aqui.
Fui direto a um velório.
Uma senhora querida, já bem idosa, despediu-se da vida aos mais de noventa e cinco anos. Ela viveu o bastante. Bem mais que o tempo médio dos brasileiros. Que vivem cada vez mais. Graças aos tempos modernos.
Foi quando me perguntei: “o que seria de nós caso soubéssemos o quanto tempo de vida nos resta? O que faríamos caso a data acertada fosse amanhã? Ou depois de depois de amanhã”?
No meu caso ainda não tenho a resposta. E espero não tê-la nunca. Pois considero que o melhor seja desconhecer o que nos vai suceder. Pois a incógnita é o melhor remédio para certas doenças que um dia irão nos surpreender.
Tenho vivido a vida, como médico, tentando afugentar enfermidades. Sou frontalmente contra fazer exames qualquer que sejam eles. Sei que a medicina preconiza investigar doenças ainda em seu começo. Para que a cura seja alcançada antes que o mal se alastre.
Mas, como não sinto nada, e procuro evitar vícios maiores, por que ficar fazendo exames a cada ano que passa? E se caso algum deles indicar que uma patologia grave está nascendo? Terei coragem de me tratar a tempo? Prefiro evitar contratempos praticando exercícios todos os dias. Evitando andar de carro. Alimentando-me corretamente. Sendo metódico no meu cotidiano. Escrevendo sempre. Tendo contato com pessoas jovens. Embora os idosos me atraiam.
Sei que os anos passam. Como sei que eu passarei. Ainda não fui apresentado a um eterno passageiro no planeta em que vivemos. Todos somos efêmeros como o vento que passa. Como as flores do ipê que de pouco passarinham. Como a saudade que em mim pereniza com a perda de entes queridos.
Bem sei que os anos passam. Que em sua passagem contrariedades acontecem. Mas, como definir felicidade sem saber o que significa tristeza? Os antagonismos fazem parte da gente. Num dia tudo da certo. Noutro nada nos realiza.
Ontem foi um dia em que as dificuldades superaram o bem viver. Já hoje, feriado, o dia começou bem melhor que o ontem foi.
Não tenho pacientes a atender. Estou aqui, na minha oficina de trabalho, com o prédio vazio, observando este céu azul, algumas nuvens se deixam ver.
Tenho passado pela vida com motivos de sobra para agradecer. Mas não são todos que têm este privilégio. Daí, por que me queixar de algo que me casou constrangimento, se eles fazem parte de qualquer viver?
Passam os anos. Os desenganos também passam. Nós mesmos somos passageiros. De um trem que se chama vida.
Como disse prefiro ficar na ignorância do que vai acontecer amanhã. Vivo o presente, cultuo o passado, sem deixar que o futuro me apoquente.
Hoje tenho uma saúde de ferro. Mas todo ferro enferruja. Um dia se dobra aos seus anos.
Mas, por que razão me preocupar com o que vai acontecer amanhã? Se o agora me faz tão bem?
Não tenho como evitar a passagem dos anos. Eles vão adiante. Não caminham no sentido inverso. Mesmo que queiramos.
Hoje estou sessenta e oito. Amanhã, de aqui há seis meses, um ano a mais. No ano vindouro talvez esteja como hoje. Com a mesma disposição de sempre. Com a mesma clarividência costumeira. Com a mesma vontade de viver.
Mas, caso algum percalço acontecer, estarei preparado para enfrentá-lo. Tudo farei para lutar contra as enfermidades. Da mesma forma que a vida nos sorri a presença da morte não deve nos turvar a visão.
Talvez seja a receita para encontrar a tal felicidade. Viver o dia de hoje como se fosse único. Sem pensar em coisas ruins. Olhando pro alto. Como é lindo o céu azul. Mas dias cinzentos da mesma forma me fazem feliz. A minha maneira me considero feliz. Que é feita de instantes mágicos. Como o que hoje estou vivendo.
É feriado em minha cidade. Amanhã, sexta-feira, recomeço o trabalho. Logo a seguir outro final de semana acontece. Na segunda continua tudo de novo.
Os anos passam. Com a velocidade de uma gaivota em voo. Num dia fomos crianças. Noutros deixamos a infância de lado. Quando menos se espera somos adultos. Preocupados com o que vem pela frente. Mais adiante nos tornamos velhos. Muitos perdem a luta contra as doenças. E morrem. Como a senhora idosa a qual passei pelo velório.
Apesar de passarem os anos, com eles os desenganos, só tenho tido motivo para comemorar. Cada minuto que passa. Cada instante que tenho vivido. Cada amigo que tenho colecionado. Cada pessoa que porventura me tenha admirado.
Anos passam como a gente passa. Mas, pensando justamente nisso reside o encanto da vida. Seria impossível passar pela vida insensíveis a mudança que os anos trazem.
Que bom que seja assim…