Tudo começou num domingo

Aquele grupo de amigos, assentados a uma mesa de bar, confabulavam sobre o que fazer na segunda, já que tinham todo o tempo do mundo para folgar.

Eram todos desempregados. Mais uns a engrossarem as estatísticas dos sem emprego. Neste país onde quase todos têm tudo para ser feliz. E não conseguem ir adiante em seus sonhos. Graças ao fosso social que nos causa asco. Sobremodo a gente como a gente. A quem a vida nos mostrou os dentes sorridentes. E as oportunidades foram alcançadas. E tudo temos. E por vezes nos queixamos do tempo. Da falta do mesmo tempo. E nos lamentamos sem razão. Na contramão daqueles infelizes pedintes. Que esmolam migalhas pelas ruas. Abandonados pela sorte madrasta. Sem lar, sem afeto, sem família que os abrigue. Vivendo e convivendo num mundo hostil. Sem futuro que a eles acene com um porvir colorido com todas as tintas do arco-íris.

Estes mesmos amigos tramavam um assalto a banco.

A ação, exaustivamente programada para a madrugada daquela segunda-feira, foi pensada, repensada, até pensar que tudo daria certo.

Todos passaram a noite em claro. Eram cinco.

Antes que o sol mostrasse a face ensolarada deixaram a casa alugada de véspera.

Num carro furtado, antes que a cidade acordasse de seu sono letárgico, todos se encaminharam ao centro da comunidade próspera.

Um deles ficou de vigia. Observando o entorno de olhos sonolentos. Mas acabou cochilando alguns minutos depois.

Os quatro assaltantes, fortemente armados, arrombaram a porta do banco, explodiram um caixa eletrônico, com um forte estrondo que foi escutado por um guarda de plantão.

Em poucos segundos a polícia apareceu num átimo. E a eles deu voz de prisão.

O pobre coitado de guarda nem viu a ação da contravenção.

Foram todos presos naquela madrugada fria. Sem quem os defendesse passaram anos na cadeia. E logo sentenciados a pena máxima. Já que naquele país a pena de morte foi recém-promulgada.

E só lhes restava a dura espera. De se despedirem da vida sem terem sequer direito à defesa.

O corredor da morte foi a última caminhada dos cinco amigos. De olhos vendados, sentidos em alerta, foram todos encaminhados a um pelotão de fuzilamento.

Enfileirados, um a um, defronte a um muro duro, ouviram-se tiros. Todos tombaram lívidos. Já de olhos cerrados. Com o peito ensanguentado.

A sociedade nem participou do evento. Não houveram lamentos sobre a sorte dos condenados.  Segundo a opinião de todos eram pessoas irrecuperáveis. Embora fossem réus primários. Era aquela a primeira vez que tentaram assaltar um banco.

Hoje os cinco amigos jazem esquecidos numa cova qualquer. Nem seus nomes constam naqueles pequenos jazigos.

Tudo começou naquele domingo. Numa mesa de bar quando tramaram o assalto.

Ainda bem que foi tudo um sonho. Dos muitos que tenho tido. Desde quando pressinto, graças ao noticiário televisivo, o quando nosso país vai mal. Cada vez pior.

Os cinco amigos sentenciados a morte, fazem parte da estatística cada vez mais em voga. O que significa mais cinco óbitos num país onde tantos morrem por balas perdidas, por falta de assistência digna, por causas ignoradas?

Nada, absurdamente nada. Ainda bem que foi um sonho. Mas bem real.

Ao acordar, pela televisão, infelizmente todo meu sonho se fez mais ainda letal. Notícias de mortes, de chacinas, não me assustam mais. Elas acontecem no dia após dia. Tornando-se fatos banais.

 

 

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